David Healy, o grande historiador da psiquiatria

David Healy é uma das vozes mais críticas e respeitadas em relação às práticas das empresas farmacêuticas, principalmente na área psiquiátrica. Suas críticas a esse respeito geram questionamentos importantes.
David Healy, o grande historiador da psiquiatria

Última atualização: 09 Junho, 2021

David Healy faz parte daquele grupo de médicos e psiquiatras empenhados em apontar as fissuras que estão presentes na medicina e na psiquiatria. Em particular, ele se juntou às vozes que apontam para os abusos das empresas farmacêuticas e as mudanças significativas que estas introduziram na prática médica.

David Healy é, atualmente, professor de psiquiatria na Bangor University, no Reino Unido. Ele é formado como médico, psiquiatra, psicofarmacologista e pesquisador. É autor de mais de 150 artigos revisados ​​pela comunidade científica e outros 200 publicados em periódicos especializados. Também é autor de uma série de livros sobre temas médicos.

“A medicina, como a conhecemos, está à beira da morte”.
-David Healy-

Uma de suas obras mais controversas e bem-sucedidas se chama Pharmageddon. Nela, ele faz uma análise detalhada da história da psiquiatria e apresenta evidências preocupantes sobre os erros da indústria farmacêutica neste campo. Em resumo, grande parte da sua obra se dedica a provar que a medicina deixou de ser uma ciência a serviço da humanidade para se tornar um negócio milionário com o qual muitos lucram.

A questão das patentes na psiquiatria, segundo David Healy

Uma das questões que David Healy critica duramente são as patentes médicas. Durante o século 19 e boa parte do século 20, a comunidade médica era contra a existência das patentes, pois elas levavam a medicina para o campo dos interesses econômicos. Uma patente é um direito de explorar um bem. Quando os remédios são patenteados, elas automaticamente se tornam objetos que entram na lógica da oferta e da demanda, justamente porque seriam “ativos a serem explorados”.

Em 1922, por exemplo, Lilly tentou patentear a insulina. No entanto, a comunidade médica expressou forte rejeição a essa ação e, portanto, o patenteamento não aconteceu. Algo semelhante aconteceu com Jonas Salk, que desistiu da sua intenção de patentear a vacina contra a poliomielite por motivos semelhantes.

Remédios em comprimidos

A partir da década de 60, em vários países do mundo, as patentes de medicamentos entraram na ordem do dia. As empresas farmacêuticas com produtos patenteados passaram a deter o monopólio de certos medicamentos. Elas passaram a controlar seu preço, sua distribuição e, obviamente, sua produção. Embora isso tenha sofrido algumas modificações desde então, o esquema permanece o mesmo.

A questão é que isso fez com que as empresas farmacêuticas e os medicamentos caíssem na lógica do mercado: vender mais, obter mais lucro e tornar o negócio o mais lucrativo possível. As consequências foram desastrosas, principalmente no que diz respeito aos medicamentos psiquiátricos.

David Healy e suas pesquisas

David Healy publicou um número significativo de artigos apontando que os antidepressivos, particularmente os ISRSs (inibidores seletivos da recaptação da serotonina), contribuem para a ideação suicida em pacientes deprimidos. A este grupo de drogas pertencem algumas muito famosas como Prozac, Paxil e Zoloft. Healy insistiu que seus rótulos deveriam alertar sobre isso.

Por outro lado, David Healy mostrou em detalhes como a talidomida, uma pílula para dormir, causou um desastre em 1962. Mais de 10.000 crianças nasceram com malformações devido à sua ingestão. Isso levou a algumas mudanças, mas Healy acredita que estas não resolvem o problema que levou àquela tragédia.

Para David Healy, muitos medicamentos psiquiátricos causam danos graves. Os pacientes não sabem disso porque não há como avisá-los dos verdadeiros efeitos adversos. Essa ocultação é deliberada e é complementada por pesquisas e publicações falsas.

Mão com comprimidos

Prácticas antiéticas

Um dos aspectos mais preocupantes das denúncias de David Healy na psiquiatria é a existência de “publicações fantasmas”. São publicações de origem duvidosa, aparentemente assinadas por especialistas. O próprio Healy foi vítima dessa prática.

Em uma reunião para promover o antidepressivo Effexor, o pesquisador recebeu um rascunho de artigo para assinar. Healy leu e fez duas anotações contra o que dizia o texto: uma, que não havia evidências de que a droga fosse melhor do que outras de seu tipo. A outra, que sua ingestão poderia gerar tendências suicidas. Apesar disso, a empresa Wyeth, dona do medicamento, publicou o artigo como se seu autor fosse David Healy e omitiu suas anotações.

Além disso, há muitas evidências de que os autores do DSM realizam estudos financiados pelas empresas farmacêuticas. O mesmo se aplica a alguns setores da OMS. Isso constitui um conflito de interesses que não é declarado. David Healy tem, é claro, muitos inimigos. Ainda assim, ninguém contestou cientificamente suas conclusões, como é o caso de outros pesquisadores semelhantes. Ele também não foi processado por nenhuma empresa farmacêutica.

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  • Lamas, S. (2002). A propósito de la era antidepresiva de David Healy de la historia de la Psicofarmacología y de la industria farmacéutica. SISO-SAUDE, Boletín de Asociación Galega de Saude Mental, H. ª, 36, 69-106.