De acordo com a ciência, o que é química interpessoal?

Ter "química" com alguém é uma experiência mágica. Essa conexão é orquestrada por todo um coquetel de emoções e neurotransmissores capazes de traçar relações duradouras. Você já a experimentou?
De acordo com a ciência, o que é química interpessoal?

Última atualização: 28 maio, 2022

A química interpessoal é a experiência que duas pessoas percebem quando surge uma conexão intensa e satisfatória ao se relacionarem. De certa forma, Carl Jung a explicou muito bem quando disse que, às vezes, o encontro com alguém é como o contato entre duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas se transformam.

Todos nós sabemos muito bem o que se sente neste tipo de experiência. O início de uma amizade e o flerte com alguém de quem gostamos também tem esse tipo de alquimia que a ciência estuda há muito tempo. Nessa troca quase mágica, tudo intervém, desde emoções de valência positiva a todo um coquetel de neuroquímicos que mudam nossos cérebros.

Sentimos curiosidade, sintonia, prazer, motivação, esperança e até mesmo fascínio. As relações interpessoais nos permitem transcender além da nossa própria pele para alcançar outra pessoa e, assim, criar algo novo. São laços luminosos que erguem esse vínculo social e afetivo carregado de significado que supõe a unidade mais básica da civilização, como a amizade, o amor, o companheirismo…

Assim como temos “química” com certas pessoas, também podemos experimentar uma rejeição quase instintiva diante de certas personalidades.

cena para simbolizar a química interpessoal
A química interpessoal é a “molécula” social que orquestra a base de todas as relações de amizade, colegas de trabalho e, sem dúvida, dos relacionamentos afetivos.

Química interpessoal, quando “encaixamos” 95% com alguém

Ao longo de nossas vidas, experimentamos essa “faísca” interpessoal com mais de uma pessoa. Afinal, esta harmonia excepcional não aparece apenas entre os casais, mas também nas amizades e nos projetos de trabalho. Quem nunca sentiu uma certa química com alguns colegas de trabalho e, a partir dessa união, surgiram bons negócios e metas alcançadas?

Assim, em uma pesquisa da conhecida psicóloga Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Califórnia, a química interpessoal foi definida como a sensação que temos ao nos relacionarmos com alguém e percebermos que algo maior emerge a partir dessa interação. Juntos somos mais do que a soma das partes. Tudo parece se encaixar e nossa realidade faz mais sentido na companhia de uma série de pessoas específicas.

Afinal, poucas realidades geram tanta harmonia quanto ter amigos com quem nos sentimos compreendidos e ter colegas de trabalho com quem é fácil e motivador estabelecer metas de trabalho. E, sem dúvida, o que seria do amor sem aquela faísca química que inicia e revoluciona tudo?

O romance As Afinidades Eletivas (1809) de Johann Wolfgang von Goethe foi o primeiro tratado científico em que a origem química do amor foi discutida.

Os componentes da química interpessoal

A sensação de ter química interpessoal não surge imediatamente. Às vezes, uma conversa profunda e algumas horas juntos são o suficiente. No entanto, também é comum vermos ao longo do tempo que existem certas pessoas com quem sempre temos uma maior conexão. Os mistérios dessas engrenagens psicossociais são sempre complexos e cada pessoa os vivencia de uma forma específica.

No entanto, há uma série de componentes que geralmente estão sempre presentes. Estes que orquestram e conferem força, oxigênio e magnetismo a esse tipo de alquimia:

  • A conexão afetiva. Quando conhecemos ou estamos com determinada pessoa, sempre aparecem as mesmas sensações: cumplicidade, carinho, respeito, risos, bem-estar, motivação, otimismo… É um véu de positividade que deixa uma marca no cérebro.
  • Conexão cognitiva. A química interpessoal não funciona apenas por meio das emoções de valência cognitiva. Também precisamos ter percepções semelhantes, ideias parecidas e valores em comum. Assim, coincidir em opiniões, crenças e filosofias de vida favorece essa faísca tão importante entre duas pessoas.
  • A conexão comportamental. Gostar de passar o tempo juntos, trabalhar pelos mesmos objetivos, reagir de forma semelhante diante dos mesmos desafios… Tudo isso também constrói esse tipo de vínculo socioafetivo.

Conexão, o mistério mais fascinante das relações humanas

Em Hollywood, os responsáveis pelo processo de casting sabem que não se trata apenas de ver os atores individualmente, pois também é preciso levar em conta a química pessoal. O público também percebe e busca essa conexão na tela, essa harmonia relacional e magnetismo entre os protagonistas. Só assim o roteiro e a história contada se tornam mais convincentes.

No nosso dia a dia, também ansiamos por encontrar essa conjunção com alguém, pois se conectar e alcançar essa faísca relacional nos permite redescobrir a nós mesmos. De que maneira? Pensemos, por exemplo, naquele amigo ou amiga que tanto apreciamos. Quando estamos com essa pessoa nos projetamos nela, vendo também a nós mesmos.

É um tipo de conjunção tão íntima que tudo flui; é como criar refúgios emocionais para ser uma mesma entidade com dois corações. Embora seja verdade que nunca nos encaixaremos 100% e que sempre haverá pequenas diferenças, esse 95% nos traz vida e felicidade.

Nos últimos cinquenta anos, os avanços na neuroquímica e na imunologia permitiram mostrar que a química interpessoal existe, de fato. Elementos como serotonina, endorfinas ou oxitocina constroem esse tipo de atração ou afinidade.

Mulher com olhos fechados e mão no coração
Nossos cérebros são projetados para experimentar essa química interpessoal que surge a partir do amor e da amizade.

A química da vida humana

Em 1919, o médico George W. Carey escreveu A Química da Vida Humana. Nesse curioso trabalho, ele conceituou que o corpo humano era como uma espécie de bateria. Somente quando recebemos a estimulação adequada é que o organismo vibra, começa a funcionar e o movimento, a energia e a vida aparecem em letras maiúsculas.

Por esse tipo de energia ou estímulo, sem dúvida, ele estava se referindo a dimensões tão angulares para a nossa existência quanto a amizade ou o amor. São essas entidades que nos injetam doses adequadas de serotonina, dopamina, oxitocina ou endorfinas. A química da felicidade, da conexão e dos relacionamentos é o que nos coloca de pé e dá transcendência e significado a tudo.

Encontrar no nosso dia a dia essas figuras com as quais reagimos quimicamente e nos transformamos, assim como sugeriu Jung, é o que dá um sentido autêntico a quem somos. Não vamos desistir; o mundo inteiro é um laboratório para experimentar as mais incríveis faíscas, conexões e reações.

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  • Campbell, K., Nelson, J., Parker, M. L., & Johnston, S. (2018). Interpersonal chemistry in friendships and romantic relationships. Interpersona: An International Journal on Personal Relationships, 12(1), 34–50. https://doi.org/10.5964/ijpr.v12i1.289
  • Reis HT, Regan A, Lyubomirsky S. Interpersonal Chemistry: What Is It, How Does It Emerge, and How Does It Operate? Perspectives on Psychological Science. 2022;17(2):530-558. doi:10.1177/1745691621994241