Demência pugilística: a síndrome do boxeador

novembro 5, 2019
Existe algum tipo de demência associado ao esporte? A resposta é sim, e o caso mais importante é o da demência pugilística.

A demência pugilística é um distúrbio neurodegenerativo que ganhou uma relevância especial por suas características associadas. O seu outro nome, “síndrome do boxeador”, nos dá uma pista sobre a sua etiologia.

A palavra de raiz latina pugil refere-se ao boxe, que, em muitos casos, é a causa da doença devido aos repetidos golpes recebidos.

Receber a quantidade de golpes na cabeça que um boxeador ou um atleta que pratica esportes de contato recebe ao longo de sua carreira não é fácil. Assim, não é tão difícil imaginar as repercussões que os golpes podem ter no cérebro das pessoas afetadas.

A demência pugilística é uma doença causada por vários politraumatismos e concussões que resultam em uma atrofia cortical do cérebro. 

A demência que assola o cérebro

Características gerais da demência pugilística

Esse tipo de demência foi descrito clinicamente pela primeira vez em 1928 pelo patologista e legista Harrison Martland.

Atualmente, é considerada uma variante da encefalopatia traumática crônica, embora a princípio uma não fosse diferenciada da outra.

A distinção entre as duas ficou evidente quando os pesquisadores perceberam que os sintomas da demência pugilística foram encontrados em outras populações.

Uma doença silenciosa

A popularidade do boxe no início do século XX fez com que muitos profissionais e fãs se voltassem para o esporte. No início, os resultados não eram tão óbvios, mas com o passar dos anos, os casos de pessoas afetadas aumentaram muito.

Os principais sintomas eram a apatia, características psicóticas, perda de coordenação e deterioração intelectual global acentuada. Os cientistas foram claros: essas mudanças estavam associadas a repetidas microlesões do cérebro, resultado das concussões.

O desenvolvimento da demência pugilística

A atrofia do córtex cerebral resulta em uma redução geral no peso e no metabolismo do cérebro. Normalmente, todas as estruturas cerebrais acabam sendo afetadas, prejudicando a sua funcionalidade geral.

No entanto, esta doença ocorre em fases, de forma progressiva, e os sintomas variam:

  • Fase inicial: primeiros sintomas de comprometimento cognitivo como resultado dos golpes. Embora não tenha sido estabelecido um início claro, a doença geralmente está latente nos primeiros anos.
  • Fase avançada: especula-se que ocorre entre 12 e 16 anos após o esporte começar a ser praticado. Os sintomas já aparecem claramente, embora ainda não possam ser classificados como demência.
  • Demência: os sintomas já estão instalados e afetam a funcionalidade do indivíduo em todos os aspectos. A perda das faculdades mentais, como memória e razão, se torna evidente, e há um grande impacto no comportamento.

Principais sintomas

Os sintomas da demência pugilística são muito variados e frequentemente se sobrepõem aos de outras doenças neurodegenerativas. Mesmo assim, encontramos um grupo de características muito presentes nas pessoas afetadas, que se acentuam à medida que a doença progride.

  • Apatia generalizada: falta de expressividade e interesse emocional acentuada pela deterioração da capacidade de comunicação.
  • Agressividade física e verbal, destacando a impulsividade e a grande irritabilidade.
  • Depressão: a progressividade com a qual os sintomas se manifestam geralmente leva ao desânimo, isolamento e desesperança.
  • Memória: é afetada principalmente nas tarefas do dia a dia. A alteração dessa função está correlacionada com dificuldades para manter a atenção.
  • Problemas motores: a princípio, são pequenas falhas ou falta de jeito, que evoluem gradualmente para problemas de lentidão, rigidez e coordenação.

Principais fatores de risco

O principal fator de risco para a demência pugilística é a prática de um esporte de contato. Assim, a deterioração resultante das várias lesões não ocorre apenas no boxe; existem outros esportes com alta incidência da doença:

  • Futebol americano.
  • Kickboxing.
  • Esportes de alto contato.
  • Esportes de corrida motorizados.

Por outro lado, outros fatores de risco podem ser:

  • Começar a prática de um esporte de contato desde muito jovem.
  • Não usar a proteção recomendada.
  • Uma carreira esportiva de longa duração.
  • Não usar estratégias de prevenção.

Diagnóstico

A demência pugilística não está associada a uma lesão específica ou a uma área específica do cérebro. Por esse motivo, o seu diagnóstico é muito complicado e pouco específico.

Os sintomas comportamentais e motores costumam ser explorados e avaliados por um neurologista e um neuropsicólogo. Da mesma forma, ferramentas de neuroimagem, como a tomografia, são usadas para detectar a profundidade dos danos cerebrais.

Demência pugilística

Tratamento da demência pugilística

O principal tratamento é evitar os fatores de risco. No caso de um esporte com as características mencionadas acima, ele deve ser executado com o maior cuidado e proteção.

Caso os sintomas já estejam presentes, há duas abordagens gerais:

  • Medicação: tratamentos com medicamentos que atuam sobre os sintomas específicos.
  • Reabilitação: deve ser precoce e aproveitar a plasticidade cerebral. Ela se concentra em fornecer ao paciente ferramentas para compensar as perdas motoras para não perder a sua funcionalidade.

Algumas considerações

A demência pugilística é um exemplo muito ilustrativo dos efeitos de não cuidar do nosso cérebro. As alterações ocorrem a médio e longo prazo, mas as causas são muito precoces.

Embora geralmente não haja uma percepção real dos danos devido ao pouco impacto imediato, qualquer atividade corrosiva para o sistema nervoso gera grandes danos no futuro.

Assim, cuidar da dieta e dos hábitos de consumo são um fator de prevenção muito importante para qualquer tipo de demência.

Finalmente, é conveniente ter em mente que algumas práticas populares não são totalmente saudáveis, especialmente se as medidas de precaução necessárias não forem aplicadas.

Uma grande quantidade de ex-jogadores de futebol americano sofrem lesões cerebrais traumáticas que os condicionam por toda a vida.

Graças ao progresso dos estudos e à conscientização geral sobre esses riscos, são possíveis algumas medidas, como a indenização paga pela federação americana aos ex-jogadores e o investimento em novas pesquisas.

“As pessoas que você encontra quando está no topo podem ser as mesmas que você encontrará quando descer ao inferno”.
– Mike Tyson –

  • Álvarez Cambras, Rodrigo. Lesiones Traumáticas del Deporte. Revisión de los casos tratados en el Dpto. de Traumatología del Deporte del Hospital Ortopédico “Frank País”. 1er Congreso Internacional de Medicina del Deporte.
  • Álvarez Cambras, Rodrigo y col (1977) Síndrome de impactación del carpo (técnica quirúrgica del autor), Revista Cubana de cirugía, 16 (6): 583-99.