Gostaria de uivar como os lobos e desabafar tudo que tenho calado

Gostaria de uivar como os lobos e desabafar tudo que tenho calado

Fevereiro 22, 2017 em Psicologia 0 Compartilhados
Gostaria de uivar como os lobos e desabafar tudo que tenho calado

Às vezes, gostaria de correr como os lobos e encarar a montanha mais alta para desabafar e contar à Lua tudo o que tenho calado, tudo o que tenho escondido e nunca disse em voz alta. Talvez um dia possa fazê-lo, quando a indecisão, as aparências e o medo “do que os outros dirão” não forem mais do que uma incômoda neblina.

Nós vivemos em uma cultura que esconde as suas emoções. Tanto é assim que quando uma criança completa cinco anos, começa a desenvolver alguns mecanismos de repressão como conter as lágrimas, não dizer determinadas palavras, baixar o rosto, cumprindo assim aquelas ordens tão comuns no mundo dos adultos: não chore, não fale, não demonstre.

“A metade do mundo tem algo a dizer, mas se cala. A outra metade não tem nada a dizer, mas não se cala”.
-Robert Lee Frost –

Reprimir as emoções desde muito jovem traz muitas consequências: a pessoa pode chegar à maturidade sendo escrava dos silêncios e das verdades engolidas. Muitas vezes a criança não aprende como lidar com essa emoção reprimida e ela acaba se expressando de outras maneiras, como a agressividade, a raiva ou o desafio constante.

Sigmund Freud dizia que a mente é como um iceberg. Apenas a sétima parte dele emerge da água, o restante está enterrado, submerso em um universo gelado onde está guardado tudo o que silenciamos e reprimimos por medo das consequências do meio em que vivemos.

Vamos refletir sobre isso?

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Somos os equilibristas da nossa corda bamba

Certamente isto já aconteceu com você várias vezes, quando um conhecido lhe perguntou: “Você está bem? Há algo errado? e rapidamente você respondeu que estava tudo bem. Com essa frase utilizamos uma estratégia que todo mundo utiliza: a das falsas aparências. Acreditamos que os nossos problemas não interessam a ninguém e a nossa dor emocional deve ser mantida em um ambiente privado e escondida até de nós mesmos.

Na verdade, o verdadeiro problema surge da nossa incapacidade de desabafar com o outro e dizer o que realmente é importante para nós. Não agimos dessa forma porque acreditamos que exibir a dor, o desconforto ou a preocupação é perder o nosso poder pessoal.

De alguma forma, quando revelamos ao nosso parceiro ou a nossa família que não estamos felizes por uma determinada circunstância ou por fatos concretos, criamos uma certa dependência; ou seja, nos preocupamos mais com a forma como os outros reagem a este fato em particular do que com a nossa própria reação.

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Quando atribuímos mais valor à possível reação dos outros, optamos por deixar as coisas como estão. Nos calamos por tanto tempo que podemos aguentar um pouco mais; na nossa opinião, desabafar não é importante. Encaramos o sofrimento como algo normal, como quem toma um simples analgésico para curar uma lesão traumática ou que oferece água para um homem que está se afogando.

Não é conveniente agir assim. Ninguém é um eterno equilibrista da sua própria corda bamba, porque mais cedo ou mais tarde, essa corda arrebentará e acabaremos caindo. Logicamente, quanto mais alto estivermos, pior será a queda e suas consequências.

Você é tudo o que eu tenho calado, mas merece ser libertado

Este fato é curioso e vale a pena ser lembrado: quando algo nos desagrada, nos fere ou incomoda, como uma palavra de desprezo, o cérebro demora apenas 100 milissegundos para reagir emocionalmente. Mais tarde, em apenas 600 milissegundos irá gravar essa emoção em nosso córtex cerebral.

“Às vezes não é suficiente apenas dizer a verdade: é conveniente mostrar o motivo da mentira”.
 – Aristóteles –

Quando dizemos a nós mesmos que “o que eu ouvi não me afeta, vou agir como se não me importasse”, é tarde demais, porque os nossos mecanismos cerebrais já codificaram esse impacto emocional. A tentativa de registar o fato de outra forma é como enganar a nós mesmos, é um desperdício de energia e recursos que deveríamos investir em outras estratégias.

Nos ensinaram que demostrar as nossas verdadeiras emoções é algo ruim, que quem diz a verdade agride e que é sempre melhor usar uma mentira sutil em vez de dizer em voz alta uma verdade amarga. Isso não é correto: podemos ser assertivos sem sermos agressivos. Além disso, seria bom que começássemos a mudar aquela ideia clássica de que a emoção é o oposto da razão, porque não é verdade.

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Quando nos permitimos experimentar os sentimentos plenamente, estamos nos ajudando a compreender as nossas necessidades, iluminando muitos vazios de pensamento que muitas vezes enchemos com falsas ideias: “Se eu aguentar um pouco mais, as coisas podem melhorar”, “Certamente ele não estava sentindo o que me disse, é melhor fazer de conta que nada aconteceu”. Entender, ouvir e sentir plenamente as nossas emoções são necessidades vitais que precisamos praticar todos os dias.

Nós devemos aprender a arte da assertividade com o exercício saudável do “eu sinto-eu mereço”. Precisamos uivar para a Lua noite e dia e desabafar tudo o que nós somos, o que precisamos e o quanto valemos. Chega de priorizar as emoções alheias em todos os momentos. Priorize as suas próprias emoções, chegou o momento de viver sem medo.

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