Desesperança criativa: a luz que devemos enxergar além do mal-estar

Desesperança criativa: a luz que devemos enxergar além do mal-estar

Abril 27, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados
A desesperança criativa

A desesperança criativa nos lembra de que mais cedo ou mais tarde teremos que fazer isso: parar, encarar o sofrimento e as nossas resistências. Longe de alimentar o repertório de estratégias de evitação, esta técnica nos convida a aceitar a realidade, assumindo a desesperança para caminhar com ela, porém criando desta vez um novo caminho, um novo propósito mais luminoso, no qual há esperança.

Esta ferramenta psicoterapêutica faz parte da Terapia de Aceitação e Compromisso. Para os leitores que não conheçam esse enfoque, podemos dizer que ela faz parte das chamadas terapias de terceira geração.

“Aprenda a cavar um túnel de esperança nas montanhas do desespero que o rodeiam a cada dia”.
-Martin Luther King-

Ela costuma gerar mudanças positivas e transformadoras nas pessoas graças a duas chaves muito concretas. Em primeiro lugar, combate os pensamentos automáticos, esses que nos causam sofrimento e que muitas vezes nos colocam em dinâmicas destrutivas com as quais alimentamos a dor. Em segundo lugar, a Terapia de Aceitação e Compromisso se caracteriza por uma aproximação direta, humana e envolvente com o paciente, na qual através do diálogo fluido e cômodo, livre de julgamentos, mudanças vão sendo geradas além de propiciar condutas mais adaptativas.

Assim, na hora de promover estas mudanças, é comum utilizar o que se conhece como desesperança criativa, a qual pode aproximar o paciente do reencontro com seus próprios valores, conseguir um estado de calma e harmonia interna a partir do qual novas oportunidades podem ser geradas, e criar o estado ideal para poder aproveitá-las.

Mulher com balões pretos ao redor

Em que consiste a desesperança criativa?

Para compreender melhor o que é a desesperança criativa, começaremos com uma pequena história como introdução. A história começa com um camponês, um homem que recebe uma proposta para fazer uma estranha tarefa, com a qual obterá um ótimo benefício. A tarefa consiste em trabalhar no campo apenas com a ajuda de um burro e de uma pá; entretanto, há mais uma pequena condição além disso: ele deve ficar com os olhos vendados.

O bom homem começa a trabalhar de acordo com as indicações, mas o que ele ainda não sabe é que o campo está cheio de buracos. Como é previsível, nosso protagonista cai em um dos buracos. Sem saber o que fazer nem como sair de ali, o camponês retira a venda dos olhos e usa a única coisa que tem: a pá. Assim, durante quase um dia inteiro, começa a cavar e abrir túneis, percebendo pouco a pouco que a única coisa que está fazendo é afundar cada vez mais.

Depois de perceber isto, ele decide aceitar sua situação e optar por outra estratégia. Talvez devesse usar a pá de outro modo… Este pequeno exemplo ilustra com originalidade a verdadeira essência da desesperança criativa. Às vezes, nossas próprias atitudes de evitação  nos levam a um maior desespero, e acabamos aumentando a complexidade do problema original.

Mulher enfrentando momento difícil

As finalidades da desesperança criativa

Quando uma pessoa chega ao consultório do psicólogo, ela não chega sozinha. Junto com ele ou ela, vem uma bagagem de pensamentos distorcidos, barreiras defensivas, atitudes limitantes, zonas errôneas, um excesso de passado, um presente subaproveitado e uma angústia de viver que se percebe quase desde o primeiro instante.

Conseguir que este paciente saia da consulta “um pouco melhor” do que quando chegou não é fácil, e nem é este o principal objetivo. É necessário traçar um caminho e dar esperança a esta pessoa. Entretanto, como conseguir isto? Como conseguir que o paciente volte para casa com um pouco mais de luz… diante de tanta escuridão oprimindo a sua mente? Por mais estranho que pareça, a desesperança criativa é um bom começo, uma ferramenta às vezes poderosa. Vejamos o porquê:.

  • O primeiro objetivo é conseguir que o paciente aceite as experiências negativas que estão no seu interior e que não consigue controlar. Ao invés de lutar contra elas, de fugir ou ficar obcecado com estes fatos, é momento de abraçar a desesperança, caminhar com ela e entender que este caminho não tem mais sentido. “Eu o aceito para deixá-lo partir”.
  • Após assumir esses fatos dolorosos ou angustiantes, o psicólogo passa a reorientar o paciente através do diálogo na direção de outras opções, saídas onde exista um reforço positivo, um objetivo, uma esperança verdadeira.
  • Da mesma forma, o psicólogo, de forma sensível, fará com que constantemente a pessoa veja que aquilo que ficou para trás, aquilo que dói, já não é mais útil e não serve para mais nada. Entretanto, essa desesperança pode servir de impulso, como um motor para encontrar novas saídas. É como quem dá dois passos para trás para poder tomar impulso e saltar mais alto.

Borboleta pousando em dedo

Podemos concluir destacando que a desesperança criativa pode e deve ser aplicada além do âmbito psicoterapêutico. De algum modo, todos nós já passamos por estes momentos em que tentamos fugir de alguma coisa e, quase sem saber como, acabamos alimentando ainda mais o mal-estar. É como quem dirige por uma cidade que não conhece e em pouco tempo começa a andar em círculos.

Sair desse círculo, enxergar a luz além do próprio mal-estar, implica primeiramente entender que continuar utilizando reiteradamente a mesma estratégia não serve para nada, pois apenas nos conduz aos mesmos resultados. É preciso romper o ciclo, deixar de fugir, assumir que estamos perdidos, que não estamos progredindo, e então olhar mais além. Levantar a cabeça e sair da nossa própria armadilha para descobrir outros caminhos, outros trajetos mais saudáveis e libertadores.

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