A diabetes emocional realmente existe?

31 Dezembro, 2020
A genética, o estilo de vida... Existem muitos fatores que determinam o desenvolvimento da diabetes tipo 2. Entretanto, será que as nossas emoções podem mediar o aparecimento dessa doença? A diabetes emocional existe? Vamos analisar com mais detalhes.

Eu tenho diabetes emocional? Por mais surpreendente que possa parecer, muitos pacientes diagnosticados com diabetes tipo 2 costumam perguntar ao médico se a origem dessa doença pode estar nas suas preocupações, no estresse, na angústia diária e naquelas emoções que alteram a qualidade de vida e até mesmo a saúde. Mas será que isso pode ser possível?

Para começar, a diabetes tipo 2 é uma condição em que o organismo não processa bem a insulina, um tipo de hormônio básico e essencial produzido pelo pâncreas. Graças a ela, a glicose dos alimentos que consumimos é transformada em energia. A resistência a esse hormônio (ou sua baixa produção) faz com que, aos poucos, o nível de açúcar no sangue suba e cause graves alterações.

Este é o funcionamento do organismo de uma pessoa diabética. Se agora introduzirmos o fator emocional, poderíamos falar sobre como o estresse, por exemplo, altera muitos dos processos metabólicos. É verdade que as emoções fortes aumentam o nível de cortisol no sangue e, com isso, também aumentam a liberação de glicose.

No entanto, vamos pensar um pouco. Se isso fosse tão comum, possivelmente quase 90% da população seria diabética. Se essa doença dependesse “exclusivamente” do aspecto emocional, grande parte de nós também teria desenvolvido esse problema. No entanto, há um fator evidente: os fatores de estresse podem ser promotores de mudanças no estilo de vida que, sim, podem acarretar esse problema de saúde.

Vamos analisar com mais detalhes.

Controle da insulina

Por que a diabetes emocional não existe?

Algumas doenças, apesar de existirem desde o início dos tempos, ainda constituem um desafio. A diabetes ainda é um problema de saúde pública de grande impacto, e o número de afetados aumenta a cada dia. Estudos, como o realizado na Universidade de Manchester pela Dra. Juliana Maina, indicam que é mais importante do que nunca que a população conheça as causas que levam à diabetes tipo 2.

Sua taxa de crescimento e a forma como afeta a expectativa de vida nos forçam a tomar consciência da sua realidade. No início, seu desenvolvimento pode ser silencioso e gradual até que seus sintomas claros fiquem evidentes por volta dos 55 ou 60 anos. No entanto, essa doença crônica aparece com grande frequência na população infantil. 

O que causa o aparecimento da diabetes?

Como apontamos no início, o desenvolvimento da diabetes começa a partir de um problema: o organismo ou não produz insulina suficiente ou não a processa como deveria. Sabemos que existem vários fatores que causam esse problema:

  • O aumento do índice de massa corporal e o sobrepeso.
  • A hipertensão.
  • A vida sedentária.
  • Os fatores genéticos são outro desencadeador comum.

Por que a diabetes emocional não existe?

A diabetes emocional não existe como doença ou categoria diagnóstica. Só podemos falar de diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2.

  • Contudo, é verdade que existe uma relação entre o estresse crônico e o aumento da glicose no sangue.
  • Quando o corpo passa por uma liberação maior de adrenalina e cortisol, o cérebro entende que precisamos de mais energia. É nesse momento que é liberado um nível mais alto de glicose no sangue.
  • Porém, isso não nos torna pessoas diabéticas.
  • Em outras palavras, pessoas não diabéticas não têm problemas para recuperar seus valores normais de glicose. Elas a metabolizam sem problemas.
  • Por outro lado, haverá pessoas cujo pâncreas não vai produzir insulina suficiente ou que serão resistentes a ela. Nesse caso, elas não serão capazes de resolver o pico elevado de glicose no sangue.

O que a ciência diz sobre a diabetes e as nossas emoções?

Insistimos novamente: não existem pessoas diabéticas como consequência única e exclusiva de terem vivido situações de estresse. Entretanto, os estudos realizados sobre o assunto mostram aspectos interessantes que vale a pena destacar.

A Universidade de Tel Aviv conduziu em 2006 uma pesquisa sobre a relação entre o burnout ocupacional e a diabetes. Foi encontrada uma relação significativa que vamos explicar.

A mesma coisa aconteceu em um grande estudo populacional conduzido pela Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia. Não podemos falar da existência da diabetes emocional, é verdade, mas há nuances interessantes. Às vezes, as emoções podem atuar em conjunto com outros fatores decisivos no desenvolvimento dessa doença. Vamos analisar com mais detalhes.

A depressão e a exaustão crônica podem alterar o nosso estilo de vida e prever a diabetes

Vamos imaginar uma pessoa que tenha passado anos sofrendo com uma situação de burnout no trabalho. Com o tempo, ela desenvolve uma depressão e, com isso, todo o seu estilo de vida muda: seus hábitos alimentares são alterados, sua vida fica muito sedentária, a pessoa passa a ter insônia… Todos esses são fatores mais do que evidentes para que o risco de sofrer de diabetes aumente.

Ou seja, não podemos falar de diabetes emocional ou concluir que as emoções adversas nos tornam diabéticos. No entanto, fatores como a depressão alteram nossos hábitos comportamentais e a nossa alimentação a ponto de (em certos casos) levarem ao desenvolvimento dessa doença crônica. Vale a pena ter consciência disso.

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