Por que tenho dificuldade de me relacionar com as pessoas?

28 Setembro, 2020
Você tem dificuldade de socializar? A origem disso nem sempre está na timidez ou na introversão. Às vezes, a dificuldade de se relacionar pode ter origem na nossa educação, em determinados traumas e até na ansiedade. Vamos analisar com mais detalhes.

“Tenho dificuldade de me relacionar com as pessoas, há algo fora do normal em mim? Que tipo de problema eu tenho?”. Essa é uma questão recorrente em quem tem dificuldades para socializar, fazer amizades, encontrar um parceiro ou agir com assertividade em qualquer contexto. Independentemente do que podemos acreditar, esse é um problema bastante comum.

Dizem que Agatha Christie tinha um profundo medo de fazer aparições públicas e dar entrevistas. Jorge Luis Borges, por sua vez, sempre foi um tímido consumado, a ponto de mandar seu amigo Oliverio Girondo para substituí-lo em tarefas públicas.

Nenhum deles era bom em socializar, mas a verdade é que eles também não queriam isso. Simplesmente preferiam seus espaços seguros, sua cotidiana vida criativa. Quem tem limitações para socializar, na verdade, quer socializar, deseja ter uma maior resolução e habilidade com pessoas para se deslocar na universidade, no trabalho, em locais de entretenimento e em qualquer lugar onde simplesmente haja outras pessoas.

Assim, embora figuras, como as já citadas ou outras, como Albert Einstein e os escritores Cormac McCarthy e Harper Lee, manifestassem evidentes traços de timidez, nem todas as pessoas que têm problemas de sociabilidade realmente são tímidas.

Vamos entender um pouco mais o que está por trás desses comportamentos.

Jovem lidando com a timidez

Causas da dificuldade de se relacionar com as pessoas

Quando uma pessoa se pergunta por que tem dificuldade de se relacionar com os demais, ela está pensando em algo bastante comum. Está pensando que nossa sociedade valoriza em excesso a extroversão, uma personalidade aberta, aquela figura social dotada (na aparência) de uma excelente habilidade de se conectar e se destacar.

No entanto, assumir essa ideia é, de certa forma, um erro. Tanto introvertidos quanto extrovertidos podem ser bem-sucedidos socialmente. Além do mais, também existem personalidades extrovertidas com claros problemas para se relacionar e até construir relacionamentos. Destacamos isso como um fato concreto: a dificuldade de socializar de maneira efetiva e feliz nem sempre depende da timidez ou da introversão. É um fator que influencia, é verdade, mas não o único.

Vamos analisar as causas em detalhes.

Regras relacionais internalizadas na infância

Um fator decisivo que explica nossas habilidades ou dificuldades de nos relacionar está na infância. A maioria de nós internalizou inconscientemente as regras relacionais incutidas em nós por nossos principais cuidadores. Se eles mesmos não eram bem-sucedidos nessa tarefa com os outros, também não o eram conosco.

A mesma coisa acontece com a nossa comunicação. Se as competências linguísticas de nossos pais não eram muito fortes e eles não interagiam muito conosco, isso também causa um efeito.

  • A presença de cuidadores pouco afetuosos sempre terá um impacto nas competências verbais, emocionais e comportamentais da criança.
  • Podemos ter meninos e meninas extrovertidos com sérias limitações nas habilidades sociais e de relacionamento, como um efeito direto dessa criação.
  • Ambientes familiares disfuncionais, autoritários ou, ainda mais, o fato de viver em um ambiente com pouco contato social, também causam essas limitações relacionais.

Dimensões psicológicas e neurológicas

Nem tudo tem sua origem na nossa infância. Às vezes, a razão pela qual as pessoas têm dificuldade de se relacionar tem como origem fatores psicológicos e até neurológicos.

Estes seriam alguns exemplos:

  • Transtorno do espectro autista. Dentro dessa condição, existe, por exemplo, a síndrome de Asperger, que, em muitos casos, pode passar despercebida. Isso explica por que muitos adultos apresentam esses problemas na interação social.
  • A ansiedade e o estresse são fatores que também limitam e atrapalham nossas habilidades de socialização.
  • Condições psicológicas como o transtorno de personalidade antissocial, a fobia social e a agorafobia também estão por trás dessas dificuldades. Contudo, nesses casos, são realidades em que a própria pessoa deliberadamente foge ou se esquiva do contato social.

A sensibilidade para a percepção sensorial

No início, falávamos sobre como figuras como Agatha Christie ou Borges fugiam do contato social. A evidente timidez de ambos fazia com que preferissem ambientes seguros e evitassem se expor a situações que gerassem estresse e desconforto. Bom, é impossível responder à pergunta “Por que tenho dificuldade de me relacionar com as pessoas?” sem levar em consideração um dos fatores mais evidentes: a personalidade tímida.

No entanto, em vez de focar nesse padrão de comportamento, é interessante entender o que está por trás dele. As pessoas tímidas percebem o mundo exterior de forma diferente por causa do que se conhece como sensibilidade para a percepção sensorial.

O que exatamente é essa dimensão?

  • O cérebro das pessoas tímidas é diferente. Em média, precisa de mais tempo para reagir aos estímulos.
  • São pessoas mais introspectivas e reflexivas, o que as impede de se adaptar aos ambientes sociais em que é necessário agir rapidamente em qualquer situação.
  • Multidões, barulho, novos estímulos ou exposição a situações em que não se tem controle causam estresse e desconforto.

Todos esses fatores nos fazem ver que a timidez também tem uma base neurológica. No entanto, isso não impede essas pessoas de poder aprender estratégias adequadas para melhorar a sociabilidade.

A união do grupo

Tenho dificuldade de me relacionar com as pessoas: o que posso fazer?

Todos nós podemos melhorar nossas habilidades sociais. Aprender a se relacionar para apreciar interações em qualquer ambiente está ao alcance de todos.

Estes seriam alguns pontos de partida:

  • Procure situações em que você se sinta confortável. Você pode usar aplicativos para procurar pessoas que têm hobbies em comum. Esta é sempre uma boa maneira de encontrar pessoas parecidas para que nos sintamos seguros. Posteriormente, podemos nos abrir para outros cenários.
  • Reduza seu nível de exigência pessoal. Evite focar tanto em si mesmo, no medo do fracasso, em não saber o que dizer, em não gostar. Desloque seu olhar do interior para o exterior a fim de se deixar levar, para aproveitar conversas espontâneas… Não acredite em tudo que a sua mente diz.
  • Busque apoio em pessoas da sua confiança. Compartilhe seus medos com alguém que o conhece e que pode orientá-lo.
  • Aprenda técnicas para lidar com o estresse e a ansiedade social.
  • Fortaleça suas habilidades sociais: comunicação, assertividade, gestão emocional…

Para finalizar, resta apenas um aspecto a destacar: caso a sua dificuldade de se relacionar seja algo crônico, algo que você vem arrastando há anos e que prejudica a sua qualidade de vida, não deixe de procurar ajuda profissional. Existem terapias que podem fazer uma grande diferença.

Chavira, D. A.; Stein, M. B.; Malcarne, V. L. (2002). Scrutinizing the relationship between shyness and social phobia. Journal of Anxiety Disorders. 16 (6): 585 – 98.