As dinâmicas de poder nos relacionamentos amorosos

dezembro 18, 2019
Em toda relação há uma distribuição de poder. Temos que tomar decisões e, em muitas ocasiões, as preferências, desejos ou necessidades não são as mesmas. É nesses casos que as dinâmicas de poder se manifestam, e por isso elas são tão importantes.

Muitos relacionamentos amorosos têm dinâmicas de poder próprias. Às vezes acontece de os dois quererem manter uma posição de domínio sobre o outro, seja em um ou em vários campos. Um desejo que muitas vezes não é nem mesmo consciente e que gera uma disputa que também pode não chegar à consciência.

Por outro lado, as dinâmicas de poder influenciam muitos aspectos dos relacionamentos amorosos, como a divisão das responsabilidade, a intimidade e até as relação sexuais.

A tensão que as dinâmicas de poder podem gerar nos relacionamentos amorosos não é necessariamente negativa. O problema aparece quando as estratégias para conquistar esse poder são danosas ou quando a pessoa que conseguiu o domínio não o emprega em benefício do outro ou da própria relação.

Isso, que pode parecer pouco ético a partir de um ponto de vista moderno, não é algo exclusivo da nossa espécie. Pelo contrário, todos os membros do reino animal se relacionam entre si através de dinâmicas de poder.

Casal discutindo

A disputa pelo poder no casal

Os casais são entidades dinâmicas e são, portanto, marcados pelo constante processo de intercâmbio mútuo. Em todo contexto amoroso em particular, e social em geral, encontramos elementos como a persuasão ou a dominação, que podem ser indicadores da luta por esse poder.

A distribuição de poder no casal pode ser complexa. É sensível às mudanças, às expectativas, e também aos desejos e às necessidades de cada um.

Por outro lado, passado um tempo, a situação costuma chegar a uma estabilidade que coloca cada um dos membros no casal em um lugar no qual se sente confortável. Um deles acaba tendo a voz dominante em alguns momentos e o outro em outros.

Por exemplo, em um casal, o homem pode ser quem geralmente escolhe para onde vão viajar nas férias, enquanto a mulher poderá decidir o tipo de hotel no qual ficarão, ou os passeios que serão realizados. Nos casais mais bem conectados, essa troca ocorre de maneira constante.

Nessa dinâmica as preferências acabam se conjugando, juntamente com o conhecimento. É possível, por exemplo, que a mulher tenha amigas que já tenham visitado o lugar e conte com referências dos passeios mais interessantes.

Tudo isso faria com que tentar distinguir quem é a pessoa dominante dentro do casal fosse uma tarefa realmente complicada. Além disso, é importante compreender que o fato de existir alguém que domine e alguém que se deixe dominar não é necessariamente ruim.

O problema surge quando essa dinâmica de poder se torna disfuncional ou quando os meios para conseguir ou manter o poder causam dano à outra pessoa.

Problemas com as dinâmicas de poder nos relacionamentos amorosos

De uma forma geral, a relação de poder nos casais tem uma tendência a conservar um equilíbrio entre todas essas trocas. Dessa forma, os membros do casal tendem a se autorregular de maneira espontânea, e as pessoas que se sentem mais confortáveis liderando em um determinado campo o farão naturalmente. Dessa forma, o conflito só aparece quando essa preferência de domínio coincide.

Assim, em algumas ocasiões esse equilíbrio não é algo alcançado de forma espontânea. A seguir, veremos alguns casos nos quais as dinâmicas de poder na relação podem ser grandes focos de conflitos.

“Amar é encontrar na felicidade do outro a sua própria felicidade”.
-Gottfried Leibniz-

Caso 1. Casal formado por duas pessoas dominantes

Em algumas ocasiões, os dois membros de um casal estão acostumados a adotar um papel de líder e comando. Quando isso acontece, o mais normal é que ocorram muitas discussões. Com duas pessoas que querem ter razão, é difícil discutir. É necessário que ambos estejam dispostos a ouvir o outro lado e a considerar a opinião alheia.

Se você acredita que está vivendo um dinâmica parecida com essa, uma maneira de abordar a situação é trabalhar ativamente para compreender o outro lado. Para isso, desenvolver habilidades como a empatia pode ser algo muito útil.

Caso 2. Casal formado por duas pessoas que tendem a seguir ordens

Quando nenhum dos membros do casal deseja ter poder na relação, é possível que haja um incômodo ou uma falta de adaptação, já que ninguém vai ser capaz de tomar a iniciativa. Dessa forma, serão muitas as situações nas quais a insegurança reina, um aspecto que pode chegar a desgastar a relação se se mantiver constante ao longo do tempo.

Em muitos casos, a solução surge quando ambos expõem as suas opiniões e tentam chegar a um acordo, como tomar a iniciativa de maneira alternada.

“Nunca por cima de você, nunca por baixo, sempre ao seu lado”.
-Walter Winchell-

Casal feliz dando as mãos se olhando

Para refletir sobre como se dão as dinâmicas de poder nos casais

As relações de poder no casal normalmente se configuram de modo inconsciente e natural – cada um adquire mais peso nas decisões em que tem um maior interesse ou maior conhecimento.

A tensão que gera costuma ser mais importante em uma época após a paixão: o ponto onde cada um começa a equilibrar o investimento que faz, cedendo menos e mostrando um interesse maior em manter suas preferências das quais havia tentado abrir mão até o momento.

No caso de ser uma fonte inesgotável de conflitos, será necessário que o casal se sente e converse, até definir de maneira consciente e reflexiva o peso que cada um vai ter em cada uma das decisões que precisam ser tomadas.

Além disso, também é importante definir quais argumentos ou estratégias são ou não são válidas para conseguir um propósito. Por exemplo, um casal pode decidir que a chantagem emocional não é válida para conseguir fazer com que o outro limpe a casa ou queira manter relações sexuais.

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