Você tem o direito de se aborrecer, protestar e sentir desconforto

· fevereiro 23, 2017

Mesmo que queiram convencê-lo do contrário, aborrecer-se é um direito e uma necessidade emocional. Sentir a contrariedade, a indignação e a raiva da confusão é o primeiro passo para poder enfrentar um problema. Pense que se nos limitarmos a simplesmente engolir o aborrecimento sempre que ele aparecer, sem enfrentar o que machuca, iremos acabar com a nossa autoestima.

Há que ter isso em mente: permitir-se sentir o aborrecimento não é perder o controle, nem mostrar fraqueza. Muitas vezes, influenciados talvez por uma linha mais espiritual, tendemos a confundir os termos e as ideias. Sabemos que quem nos aborrece nos domina, mas nem por isso vamos desativar essa emocionalidade negativa para escondê-la, assumi-la ou gerenciá-la. Os aborrecimentos têm um objetivo muito claro: nos convidar a resolver uma ameaça concreta.

Por outro lado, algo que também sabemos é que o dia a dia sempre coloca o nosso equilíbrio emocional à prova. Haverá pessoas que vivem eternamente ofendidas e outras que nunca levam nada para o lado pessoal. Cada um de nós avança pelo nosso dia a dia com um determinado filtro, com o qual deixamos passar ou não certas emoções e pensamentos.

No entanto, tudo tem um limite e uma fronteira infranqueável. Falamos da barreira que muitas vezes se cruza de forma arbitrária para difamar nossa autoestima, para desfiar nossa integridade emocional ou para nos manipular. O aborrecimento tem uma razão de ser, e expressá-lo de forma respeitosa no momento adequado e no instante mais necessitado é algo catártico e muito saudável.

Propomos que você reflita sobre isso.

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Aborrecer-se, protestar e dar voz às suas emoções também ajuda

Por mais estranho que pareça, são muito poucos os livros que nos explicam ou argumentam sobre os benefícios do aborrecimento ou da indignação. Tradicionalmente, sempre relacionaram esse tipo de emoção à ira e à falta de controle, à falta de moderação, de tato e de acerto na hora de gerir essa contrariedade da vida.

No entanto, é bom recordar que, assim como ocorre no processo da dor, é necessário dar o passo em direção à aceitação das próprias emoções antes de canalizá-las e de transformá-las. Saber o que eu sinto e por que sinto isso é vital na hora de resolver uma encruzilhada emocional. Já dissemos que a bibliografia sobre o tema é escassa, mas felizmente temos um livro que ao mesmo tempo é interessante e esclarecedor: “Annoying (2011), dos cientistas Joe Palca e Flora Lichtman.

Neste trabalho, eles aprofundam o tema do aborrecimento a partir de uma abordagem multidisciplinar que engloba a neurociência, a sociologia, a antropologia e a psicologia. A primeira coisa que nos revelam é que muitas vezes as pessoas costumam comparar o aborrecimento com a raiva, a frustração ou a repugnância em relação a algo ou alguém. Mas isso não é verdade, os cientistas propõem entender o aborrecimento como uma emoção única e exclusiva.

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Por sua vez, um aborrecimento nunca surge por um ato pontual. É um acúmulo de “muitos poucos formando um muito”, é como o mosquito que voa pela nossa casa todas as noites até que finalmente perdemos o sono e somos incapazes de focalizar nossa atenção em outra coisa. No entanto, e este é o ponto mais importante do tema, se não há um incômodo, não há a possibilidade de mudança. Ou seja, essa emoção negativa tem um propósito: ela quer que a gente aja.

Aborrecer-se de forma inteligente

O próprio Charles Darwin disse uma vez que emoções negativas, como o medo e a raiva, são advertências que nos levam a realizar condutas apropriadas para evitar ou desfazer um perigo. Prestar atenção ao que nos incomoda, ao que nos deixa indignados e ao que nos tira a calma é um sinal de autocompreensão. Agir de forma correta com base nessas emoções demonstra, sem dúvida, a nossa inteligência emocional.

A seguir vamos ver como deveríamos agir nestes casos e quais aspectos devemos delimitar para entendê-los.

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As 4 leis do aborrecimento inteligente

A primeira lei é ter em mente que quem vive eternamente ofendido está fadado a uma eterna infelicidade. Há batalhas que não vale a pena travar, há aspectos que não merecem a nossa atenção e conversas que é melhor não iniciar ou alimentar.

  • Aborreça-se com o que realmente perturba o seu equilíbrio pessoal, enfrente o que ataca a sua autoestima e defenda-se com firmeza de quem ousar te machucar.
  • A segunda lei faz referência a algo muito evidente: é possível nos defendermos com respeito. Discutir de forma assertiva e sem agredir verbalmente quem está à nossa frente é essencial. Algo que você pode e deve fazer através da inteligência emocional.
  • A terceira lei inclui passos muito claros que precisamos interiorizar: escute, sente, respire, esclareça e aja. Ou seja, primeiro daremos atenção ao estímulo que nos ofende e que nos machuca. Depois tomaremos consciência de nossas emoções, sentiremos o aborrecimento. Mais tarde iremos respirar e esclarecer quais são as prioridades.

“Devo agir e colocar limites deixando claro que não desejo que me tratem deste modo. Não devo deixar que o próprio aborrecimento me imobilize até me impedir de pensar. Irei utilizá-lo para agir de forma inteligente”

  • A quarta e última lei para nos aborrecermos de forma inteligente é a aprendizagem. Cada situação resolvida, enfrentada ou cada necessidade defendida deve nos ensinar que a inatividade, o silêncio e o ato de “engolir as emoções” nos machuca e nos deixa doentes.

Não precisamos ter medo das emoções negativas, entendê-las e gerenciá-las é a verdadeira chave para o nosso crescimento pessoal.

Imagens cortesia de Nicoletta Ceccoli.