A dor crônica infantil, uma grande esquecida

· julho 19, 2018

A dor é uma experiência tão individual e complexa que acaba sendo essencial ter uma boa atenção e comunicação com o paciente para atender às suas necessidades. No entanto, quando enfrentamos a dor crônica infantil, muitas vezes a comunicação acaba sendo impossível porque as crianças não conhecem as palavras necessárias para explicá-la; só existe o choro. É por isso que, durante todo o século XX, a dor crônica infantil foi a grande esquecida da medicina e da psicologia modernas.

Na verdade, até meados dos anos 50 acreditava-se que as crianças tinham uma sensibilidade menor à dor que os adultos. Esta afirmação teve graves consequências: em muitos hospitais chegaram a ser realizadas intervenções cirúrgicas em menores de dois anos sem o uso de nenhum tipo de anestesia ou com uma quantidade de anestesia mínima.

Apesar de não poder se expressar com palavras, uma criança ou bebê sente a dor da mesma forma que um adulto.

Menino pequeno cobrindo os olhos

Ferramentas para medir a dor crônica infantil

Atualmente, tanto na medicina quanto na psicologia, sabe-se que a dor crônica infantil possui as mesmas características que a dor crônica em adultos e, portanto, deve ser tratada com a mesma importância. Ou seja, a dor crônica infantil é aquela dor que se mantém durante 6 meses ou mais, tenha ela uma causa fisiológica ou não.

O problema está no fato de que, até pouco tempo, não existiam protocolos ou ferramentas para medir a dor crônica infantil porque, geralmente, eram utilizadas adaptações dos meios usados com os adultos e instrumentos específicos elaborados para esse fim. Felizmente tudo isso está mudando, e a psicologia clínica tem um papel fundamental nesta mudança.

Desde as técnicas projetivas até as técnicas de reconhecimento e de expressão emocional, a expressão e o reconhecimento da dor crônica infantil começam a ser alvo de mais estudos e tratamentos. Deixou-se de ver a dor como uma simples queixa infantil sem importância ou um processo de fingimento para buscar a atenção dos pais.

Os desenhos, os rostos e as cores, mais que os termos referentes à dor usados no mundo adulto, são os meios mais úteis para ajudar as crianças a reconhecer, expressar e controlar a dor crônica.

Quando falamos de bebês lactentes ou crianças menores de 3 ou 4 anos que ainda não contam com o desenvolvimento linguístico ou cognitivo suficiente para expressar a sua dor através de palavras ou desenhos, as medidas mais fiáveis são obtidas por meio de relatórios de comportamento e variáveis fisiológicas. Com as crianças mais velhas e os adolescentes, são utilizadas autoavaliações de diferentes tipos. Algumas das mais usadas são:

  • Termômetro da dor: normalmente baseado em uma escala de 0 a 10, na qual 0 representa “ausência de dor” e 10 “a pior dor possível”. A criança assinala a intensidade da sua dor colorindo a barra de mercúrio do termômetro correspondente.
  • O jogo das cores de Eland: é uma escala de cores onde as crianças selecionam uma das oito cores que correspondem às diferentes intensidades da dor, desde nada de dor até a pior dor possível.
  • Escala dos nove rostos: utilizada a partir dos 5 anos. Possui nove rostos: quatro deles representam diversas magnitudes de afeto positivo, quatro representam o afeto negativo, e um representa um rosto neutro. A criança escolhe o rosto que mais se assemelha à dor que sente nesse momento.
  • The Pediatric Pain Questionnaire: utilizado em crianças mais velhas ou adolescentes, tem 8 perguntas relacionadas diretamente com a dor.
  • Diário da dor: autoavaliação com formato de diário, que inclui uma escala de resposta de 0, “nada de dor”, a 5, “dor muito forte”, e a pergunta: “Quanta dor você está sentindo agora? ”. A dor é avaliada duas vezes por dia durante o período pós-operatório.
Menina abraçada com ursinho

Tratamento psicológico da dor crônica infantil

Quando falamos do tratamento da dor crônica na infância enfrentamos uma realidade alarmante, pois a maior parte da medicação usada para o tratamento da dor não tem indicação pediátrica. Por isso, há uma ênfase especial no tratamento multidisciplinar da mesma nas crianças.

A psicologia clínica, neste caso, contribui com a vertente cognitiva-comportamental, uma série de tratamentos considerados eficazes e eficientes em crianças com 7 anos de idade ou mais, e com descobertas muito promissoras para o tratamento da dor crônica infantil em crianças menores. O tratamento, em geral, depende do tipo de dor e da análise realizada sobre a mesma. Nesse sentido, algumas das técnicas mais usadas são:

  • Treinamento em biofeedback: utilizado principalmente em dores de cabeça, sejam tensionais, funcionais ou enxaquecas. Consiste em controlar um sinal fisiológico de tensão ou temperatura dentro de parâmetros sinalizados.
  • Técnicas de relaxamento: fundamentalmente, a respiração profunda ou o relaxamento muscular. Muito eficiente em crianças porque diminui a ativação do organismo causada pela dor.
  • Mindfulness: os poucos estudos publicados indicam melhoras estatisticamente significativas em variáveis como a intensidade e a frequência dos episódios da dor, assim como o funcionamento fisiológico e psicológico.
  • Hipnose: o objetivo psicoterapêutico costuma ser dirigido ao controle das respostas fisiológicas, ao controle da atenção e os aspectos cognitivos ligados com a percepção da dor ou a potencialização de estratégias de enfrentamento.
  • Visualização: trata-se de utilizar imagens mentais ou representações internas para modular a experiência dolorosa e obter, assim, um efeito analgésico.
  • Distração: porque já foi demonstrado que a focalização da atenção em um estímulo doloroso aumenta a sensação de dor.
  • Controle de contingências: através da análise funcional do sujeito, trata-se de reorganizar o ambiente para facilitar o comportamento ajustado e proporcionado às situações de dor, evitando reforçar ou premiar as situações desajustadas.

Apesar de todos esses avanços e apesar de ter demonstrado a sua eficiência e efetividade, o acesso ao tratamento psicológico nas unidades de dor crônica infantil segue sendo escasso. Por isso, o avanço multidisciplinar e o aumento dos estudos nessa área são o futuro na luta contra a dor crônica infantil.