Você conhece as duas caras da inveja? - A Mente é Maravilhosa

Você conhece as duas caras da inveja?

Abril 6, 2017 em Psicologia 508 Compartilhados
Você conhece as duas caras da inveja?

A cultura ocidental não quer nem saber de inveja. Se a mulher teve que arrastar ao longo da história a sua “traição a Adão”, a inveja teve que carregar ao longo da história o estigma de ter sido o motivo pelo qual Caim matou Abel. De fato, na linguagem cotidiana existe a expressão “você é pior do que Caim”. Uma expressão que não raramente se lança sobre crianças pequenas, seja para simplesmente censurar o seu comportamento, seja para descrever uma terceira pessoa.

Além disso, é um dos pecados capitais, associado com a cobiça, e um claro motivo para a confissão. Fora do âmbito religioso, os relatos históricos da vida na Idade Média estão repletos de assassinatos que nascem da inveja pela posição de poder que uma determinada pessoa ocupava. Sem ir tão longe no tempo, a inveja é um dos sentimentos que não costuma perder os eventos em que reencontramos pessoas de longa data e falamos de andanças enfeitadas na moldura de vidas contadas com pinceladas de retoque.

“A inveja é uma declaração de inferioridade.”
-Napoleão-

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Se a inveja é tão ruim, por que não se extinguiu?

Existem duas razões que poderiam justificar o fato da inveja ter sobrevivido como uma das motivações mais poderosas, e não tenha caído no campo que a seleção natural impõe a aquilo que prejudica ou compromete o futuro de uma espécie. Neste caso, a nossa.

A primeira tem a ver com a sua utilidade para apontar objetivos ou propósitos. A inveja age como uma caneta marca-texto sobre a realidade e destaca aquilo que desejamos e, inclusive, mesmo que seja em raras situações, aquilo que precisamos. Então, invejar alguém que tem um determinado trabalho pode nos apontar a nossa vocação, porque o que conhecemos dele através da pessoa que o desempenha nos fascina.

A inveja não apenas aponta o desejo por objetos, mas também em relação a aptidões, atitudes e formas de comportamento. Existem pessoas que têm esse dom de se encaixar em todos os ambientes, há outras que têm o dom de iluminar com a sua presença, outras que trazem calma, outras que escutam…

Ver os efeitos que possui uma determinada forma de ser pode nos motivar a procurar imitá-la.
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A inveja também está relacionada de forma íntima com os ciúmes. Junto ao temor da perda, a inveja aponta que precisamos da atenção das pessoas que nos rodeiam. Precisamos dela desde pequenos. Assim, a inveja é um dos sentimentos mais complicados de administrar quando chega um novo membro da família.

A inveja como motivação

Com isto amarramos a segunda razão positiva que a inveja tem de existir. Esta razão tem a ver com a motivação. Você pode achar que não se trata de uma motivação nobre porque poucas vezes vai além do interesse egoísta, mas é uma motivação no fim das contas. Como dissemos antes, podemos ver como uma pessoa amável se comporta e invejar os efeitos que consegue com a sua atitude. Então, comparar os efeitos deste jeito de se comportar com a realidade pode nos levar a arregaçar as mangas para melhorar a vida dos outros.

Obviamente, a atitude não tem por que ser positiva. Pensamos que trabalhamos muitas horas para o pouco que recebemos e então começamos a perceber que muitos dos nossos colegas de trabalho saem antes do trabalho e que isto não tem consequências. Então, não será difícil acabarmos optando por imitar o seu comportamento.

Muitas vezes a inveja não nasce de um elemento em si, mas dos efeitos que esse elemento tem sobre a realidade. Existem pessoas que invejam outras porque têm um carro muito moderno, poderoso e chamativo. Na verdade muitas pessoas não invejam esse carro, o que invejam é o status em que o carro situa o seu proprietário. Invejam ter um objeto que diga ao mundo que eles têm dinheiro e influência.

De fato, existem pesquisas que dizem que muitas pessoas não comprariam um telefone de uma certa marca se fossem obrigadas a usá-los com uma capa que cobrisse a identificação do fabricante. Isso é uma coisa complicada de reconhecer já que, do mesmo jeito que a inveja, a associação com marcas fala das pessoas como seres emocionais, quando o que a maioria deseja é ser racional.

A inveja nos lembra de que somos seres emocionais, quando a maioria das pessoas aprecia mais as coisas racionais.
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De fato, muitas das justificativas que usaremos para nossos comportamentos não têm nada a ver com a motivação primeira de tais comportamentos. Antes de comprar o celular não pesquisamos se a bateria dura mais ou menos, inclusive talvez as características técnicas mostrem que ele é inferior. Contudo, se depois comprovarmos que têm uma duração aceitável e nos perguntarem, facilmente colocaremos este motivo entre as escolhas de compra.

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Os grandes problemas que a inveja causa

Um dos grandes problemas que a inveja pode nos causar é criar obstáculos à capacidade de apreciar as coisas que temos. Pode capturar a tal ponto a nossa própria atenção que nos faz perder a visão do todo, e nos faz enxergar apenas a visão reduzida e pobre de uma única árvore, e não da floresta inteira. Uma arvore que, além disso, muitas vezes não podemos escolher.

Além disso, a inveja se transforma em um roedor de nossas vidas quando torna mais profundo o sentimento de insatisfação com o qual, em menor ou maior grau, todos contamos. Esse não parar, esse perseguir, essa necessidade de continuar escalando, motivada muitas vezes pela inveja.

A inveja é um sentimento, como tantos outros, que nos traz energia e informação para que nós a controlemos. Então, ela se transforma em nociva quando assume o controle e tira a atenção, nos impedindo de desfrutar tudo de bom que temos.

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