“Eu me sinto velha”: o eclipse da juventude na mulher

· janeiro 6, 2019

Não é segredo que nossa sociedade exerce uma grande pressão sobre as mulheres para que nunca envelheçam. “Eu me sinto velha”, dizem muitas vozes, entre a confusão e a tristeza. Por que tem que ser assim? Por que associar somente ideias negativas ao fim da juventude feminina?

Por acaso os anos também não trazem consigo outros prazeres dos quais a juventude não é capaz de se beneficiar? Parece que a juventude só tem aspectos positivos e a velhice é apenas um lugar de perdas. Nada mais longe da verdade.

Nem a juventude é tão maravilhosa assim e isenta de problemas, nem o passar dos anos é sinônimo de decadência. Há muitos dados da realidade que comprovam isso.

“Eu me sinto velha” é uma expressão sobre a qual vale a pena refletir. Principalmente porque é uma afirmação que, na maioria das vezes, ouvimos de mulheres de meia-idade. Ou seja, mulheres que ainda não entraram propriamente na fase da velhice.

É exatamente isso que analisaremos a seguir: o que se esconde por trás desta expressão.

“Esqueça de fazer aniversários e comece a realizar sonhos”.
-F. Javier González-

“Eu me sinto velha”… velha para quê?

Implicitamente, a expressão “eu me sinto velha” está associada a alguns fatos específicos. Em muitos casos, é um caminho indireto para falar sobre as mudanças físicas pelas quais passamos ao longo dos anos.

Além disso, também pode ser uma associação com a vida a dois. Adicionalmente, serve para falar de uma incerteza sobre o lugar que a pessoa ocupa dentro da sociedade.

Existe todo um imaginário cultural em relação ao que significa ser mulher, um gênero que tem sido extremamente sexualizado. A mulher deve ser bonita, saudável, agradável e, além de tudo, jovem.

Aquela não tão bonita, aquela não tão saudável, não tão agradável ou não tão jovem parece não se ajustar ao conceito do que é o feminino.

Não é preciso ir muito longe. Basta observar quais tipos de mulheres a nossa sociedade chama de “modelos”. Os parâmetros que as definem são tão rígidos que pouquíssimas mulheres se identificam com esse padrão.

Ao nomeá-las como “modelos”, estamos afirmando implicitamente que correspondem à expressão mais perfeita do que é ser mulher. Certamente, uma mulher com mais de quarenta anos dificilmente se encaixa nos parâmetros das modelos. Ao observar tais modelos, é natural que muitas mulheres afirmem que se sentem velhas.

O eclipse da juventude feminina

A juventude feminina e a velhice: será que nos enxergamos a partir de um olhar masculino?

A mulher jovem também sente inúmeros tipos de pressões. A juventude feminina gera maior aceitação tanto nos homens quanto em todo o conjunto da sociedade.

Existem outros tipos de imposições. Ser bonita, por exemplo. Ou ser magra, ou ter namorado ou ter filhos. Ser elegante. Mas aquelas que são bonitas, magras e elegantes também sofrem a pressão dos olhares, nem sempre bem-intencionados.

Se prestarmos atenção, essa forma de enxergar a mulher jovem e a mulher mais velha é fortemente influenciada pelo machismo, que ainda sobrevive em muitas partes do mundo.

Muitas vezes, é admissível que sejam os homens que legitimem a mulher e decidam quais são as características que lhes são favoráveis e quais não são. Naturalmente, nem todos os homens reproduzem essas imposições, mas infelizmente muitos o fazem.

É aí que está a dificuldade. Sejam os homens, ou seja quem for, a verdade é que ninguém deveria determinar quanto valemos ou a adequação do que somos ou fazemos. Ninguém tem o direito de fazer isso e não temos por que permitir que isso aconteça.

A idade, uma variável pouco relevante

Para além de qualquer consideração, somos pessoas, acima de tudo. E todas as idades das pessoas trazem consigo maravilhosas contribuições e também limitações, em vários sentidos.

A melhor idade sempre é aquela na qual nos encontramos e conquistamos o equilíbrio. E, de fato, isso é mais fácil de fazer em idades mais avançadas.

Se uma mulher diz: “eu me sinto velha”, seria adequado identificar o que a faz se sentir assim. Talvez ela frequente ambientes nos quais se privilegia uma visão “comercial” da mulher. Ou também é possível que seu círculo de amigas seja mais crítico do que o necessário.

É possível que, buscando outros ambientes e amizades mais libertadoras, ela descubra que pode estar vivendo uma das fases mais maravilhosas de sua vida.

A juventude feminina

Talvez nós, mulheres, passemos muito tempo de nossas vidas focadas nas necessidades e expectativas dos outros. A fase adulta e a terceira idade são as que mais nos permitem pensar em nós mesmas.

É quando, portanto, podemos cuidar de nós, nos aceitar, abrir as asas e, em vez de dizer, “eu me sinto velha”, gritar com força “eu me sinto viva!”.

Krzemien, D. (2007). Estilos de personalidad y afrontamiento situacional frente al envejecimiento en la mujer. Interamerican Journal of Psychology, 41(2), 139-150.