O ego totalitário e os preconceitos da autopercepção

Como nossa maneira de pensar muda? Como o ambiente influencia essas mudanças? Neste artigo, apresentamos o ego totalitário e descrevemos as suas consequências.
O ego totalitário e os preconceitos da autopercepção

Última atualização: 24 Agosto, 2021

A cultura popular já assimilou a interação entre tendências pessoais e a influência do meio ambiente. No entanto, existem muitas teorias anteriores a essa concepção que são, na melhor das hipóteses, curiosas. Um bom exemplo é a teoria do ego totalitário.

Neste artigo, vamos relembrar a teoria do ego totalitário, de Anthony Greenwald. A forma como ele discute a formação de idéias e a percepção do mundo é fascinante.

O ego totalitário

A concepção usual da formação das ideias e da visão subjetiva do mundo é de que o exterior as configura à medida que as vivenciamos. Nossa memória e pensamentos seriam o produto da interação das nossas tendências genéticas com a influência do ambiente. Dessa forma, construímos a nossa história.

Pois bem, como Greenwald propôs em 1980, o ego totalitário seria o encarregado de manter integradas todas essas informações que nos compõem.

Como ele faz isso? A resposta: por meio de vieses cognitivos ou, em outras palavras, distorcendo a forma como a informação social é processada para criar memórias e um conceito do ego que seja positivo.

A razão para chamá-lo de totalitário é que, de acordo com essa teoria, o ego polariza e seleciona as informações de forma semelhante a um governo totalitário. Os processos que você verá a seguir são muito semelhantes aos da censura que as ditaduras usam para manter uma imagem de necessidade e bondade.

Mulher imaginando sua mente

Vieses cognitivos no ego totalitário

Você já deve ter ouvido falar dos vieses cognitivos: eles podem ser definidos como a interpretação errônea sistemática de informações ao fazer julgamentos, tomar decisões ou processar pensamentos. Embora possa parecer algo negativo, sua função é bastante adaptativa, pois facilita a tomada de decisões para a sobrevivência. No entanto, quando se trata de questões sociais, eles podem ser um problema real.

Há uma infinidade de vieses cognitivos descritos, mas o ego totalitário manteria o autoconceito por meio de três vieses principais: egocentrismo, conservadorismo e viés de autossuficiência. A seguir, você pode ler atentamente sobre cada um deles.

Egocentrismo: o ego como protagonista

Se uma pessoa for solicitada a nos contar uma de suas memórias, ela provavelmente a contará como se fosse a protagonista de uma história. Mesmo que os principais eventos da história ocorram com outra pessoa, ela contará como eles a afetaram como espectadora.

Ou seja, grande parte do conhecimento que uma pessoa possui sobre o mundo é autobiográfico, pois é por meio da experiência que ela constrói as suas memórias e aprendizados. Na verdade, a informação é muito mais facilmente lembrada quando diz respeito a si mesmo do que quando se relaciona com outras pessoas. Isso é chamado de preconceito egocêntrico.

Uma das consequências desse preconceito é a tendência de exagerar a nossa própria contribuição para os eventos que acontecem ao nosso redor, mesmo que a participação de outras pessoas não seja lembrada com precisão. Dessa forma, o ego totalitário mantém a percepção de que a pessoa é importante para o seu ambiente.

O preconceito de autossuficiência

Com esse viés, é possível colocar o foco da responsabilidade pelas próprias ações de forma que beneficie a ideia de ser eficiente e capaz. Podemos ilustrar com dois exemplos:

  • Concentrar-se em si mesmo quando se trata de um sucesso: ser aprovado em uma prova importante estudando apenas no dia anterior.
  • Culpar as circunstâncias externas ou o azar nos fracassos: “Fracassei porque adoeci e não pude estudar.”

Portanto, o objetivo desse preconceito é proteger a autoestima e criar um autoconceito consistente com ideias positivas sobre si mesmo. Ele também tem um valor protetor contra as emoções negativas que acompanham o fracasso. Essa criação do autoconceito positivo e sua proteção é o traço compartilhado com os regimes totalitários.

Conservadorismo ou resistência à mudança

A autoestima e o autoconceito devem ser minimamente estáveis para garantir a sua coerência, uma vez que uma mudança ou fragilidade de identidade é motivo de desconforto psicológico para a maioria. Em geral, as mudanças no âmbito da personalidade e identidade são lentas e consistem em pequenos passos que projetam uma sensação de estabilidade.

Portanto, o ego totalitário favoreceria todos os pensamentos e julgamentos que ajudem a confirmar a nossa identidade, mas não só isso: por serem julgamentos que costumam ser positivos, também estariam motivando a ausência de mudança. Como em um regime autoritário, essa preservação do estabelecido é buscada.

Pessoa segurando espelho no mar

Embora o termo “totalitário” não tenha uma reputação muito boa, a intenção dessa teoria nada mais é do que definir as estratégias que a mente segue quando se trata de proteger a nossa autoestima. Não é preciso dizer que o conhecimento desses “truques” é extremamente útil para a introspecção e para ser honesto consigo mesmo.

Por outro lado, essa teoria foi formulada há sessenta anos; portanto, certos detalhes podem não se encaixar bem na estrutura atual. O ego totalitário, paradoxalmente, evoluiu ao longo dos anos para se adaptar às teorias atuais para, aos poucos e juntos, desvendarmos os processos da mente.

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