Memória autobiográfica, as recordações maravilhosas das nossas experiências

Você pode imaginar como seria se não conseguíssemos nos lembrar do nosso primeiro amor ou das nossas experiências da infância? Falaremos sobre a memória autobiográfica e a sua funcionalidade no nosso dia a dia a seguir.
Memória autobiográfica, as recordações maravilhosas das nossas experiências

Última atualização: 27 Agosto, 2020

A lembrança do nosso primeiro amigo de infância, o cheiro de que mais gostamos, quem éramos e como aproveitávamos a vida são questões inerentes à memória autobiográfica. Você consegue se imaginar esquecendo quem são as pessoas mais próximas a você? Como foi o seu primeiro beijo? Ou quais foram os seus lugares favoritos?

Hoje vamos falar sobre esse tipo de memória. Para começar, vamos dizer do que se trata. Posteriormente, falaremos sobre a sua divisão. Também mergulharemos em seu relacionamento com a consciência. Finalmente, veremos algumas pesquisas atuais que nos fornecem luz para encontrar um tratamento alternativo e a cura para a doença de Alzheimer.

“A memória é o perfume da alma.”
-George Sand-

O que é a memória autobiográfica?

A memória autobiográfica é aquela que se relaciona com as experiências pessoais. Consiste nas memórias que temos sobre a nossa vida. Além disso, é o suporte da nossa biografia, já que atua como organizadora das nossas experiências.

Essa memória resulta da interação que temos com o mundo e é definida pelo que fazemos. Segundo José María Ruiz-Vargas, professor e pesquisador da faculdade de psicologia da Universidade Autônoma de Madri, as memórias autobiográficas são caracterizadas por:

  • A relação com o eu. As memórias contêm informações que ajudam a estruturá-lo e defini-lo.
  • Estrutura narrativa. Quando evocamos experiências pessoais do passado, o fazemos contando uma história. Então, “a experiência se torna uma narrativa através da recuperação” (Ruiz-Vargas, 2004, p.10).
  • Imagens mentais. Memórias autobiográficas são evocadas incluindo imagens visuais e outras modalidades sensoriais, como audição e olfato.
  • Componente emocional. As emoções podem chegar a exercer um efeito fortalecedor nas memórias.

A memória autobiográfica também tem a ver com uma distribuição temporal. A disponibilidade do passado pessoal não ocorre de maneira uniforme, varia em cada um e também de acordo com a etapa do ciclo da vida em que nos encontramos.

Divisões

A memória autobiográfica engloba dois elementos:

  • Memória autobiográfica episódica. Tem a ver com as memórias do próprio passado, ou seja, com aquelas associadas a experiências pessoais que aconteceram em um determinado lugar e tempo.
  • Memória autobiográfica semântica. São memórias associadas a eventos que ocorrem repetidamente e a experiências passadas que abrangem longos períodos de tempo vividos.

Alguns exemplos de memórias autobiográficas episódicas são os seguintes: “Me recordo daquele dia em que mergulhei e vi uma tartaruga pela primeira vez”, ou “Me lembro de quando fui hospitalizado devido à depressão”. Por outro lado, uma das memórias autobiográficas semânticas seria: “Quando eu era criança, costumava visitar minha avó todos os sábados.”

Se analisarmos os dois tipos de memória, veremos que a memória autobiográfica episódica está relacionada a um tempo subjetivo, permitindo-nos reviver experiências anteriores por meio de uma consciência autonoética; isto é, permitindo-nos ter a sensação de estarmos vivendo nossas memórias, como uma espécie de viagem mental no tempo. Em contraste, a memória autobiográfica semântica leva a uma consciência limitada do senso de familiaridade.

Memória autobiográfica na atualidade

A memória autobiográfica continua a ser uma área bastante explorada atualmente. Acima de tudo, é associada a doenças neurodegenerativas e transtorno de estresse pós-traumático. Vamos nos aprofundar na Doença de Alzheimer (DA).

A memória autobiográfica vai sofrendo um declínio na doença de Alzheimer. O curioso é que várias pesquisas verificaram que isso ocorre de forma diferente dependendo do tipo e do envelhecimento normal e patológico.

Portanto, quando as pessoas se lembram do seu passado, demonstram um pensamento associado à memória episódica. A produção dessas memórias é baixa se comparada às semânticas. Pessoas com DA têm pouca capacidade de se lembrar de momentos autobiográficos episódicos.

Para estudar a memória autobiográfica na DA, alguns especialistas recorreram a experimentos por meio da reminiscência, ou seja, da evocação de memórias.

Por exemplo, El haj, Fasotti & Allain (2012), no artigo publicado na Consciouness and Cognition Magazine, mostram como examinaram o caráter involuntário das memórias autobiográficas evocadas pela música. Outros autores enfatizam a evocação de memórias, mas através de imagens, vídeos e até cheiros.

Em suma, a memória autobiográfica está intimamente ligada a quem somos, pois diz respeito às nossas experiências de forma geral e detalhada. A forma como as memórias autobiográficas são evocadas no envelhecimento normal e patológico é diferente.

Além disso, as pessoas com DA apresentam uma perda progressiva da memória autobiográfica episódica. Vários estudos continuam a explorar este tipo de memória, e esperamos que eles continuem a abrir caminho para que possamos compreendê-la melhor tanto no funcionamento normal quanto no patológico.

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