Emoções aflitivas: o peso que impede a nossa felicidade

janeiro 29, 2019
As emoções aflitivas ou negativas não podem ser negadas, nem podemos deixá-las lá, de lado, como se não existissem. Aceitar sua presença é a chave para compreender o que elas querem dizer.

As emoções aflitivas ou negativas fazem parte do nosso registro emocional. Elas agem como verdadeiros pesos, capazes de frear o nosso crescimento, enchendo a nossa mente de pensamentos adversos ou pouco úteis para nos deixar à deriva junto com um perigoso desânimo. Algo tão pequeno e ao mesmo tempo tão importante como dar nome a esses estados pode tirar o poder deles, o que nos ajudará a avançar com maior integridade.

A inveja, a frustração, a raiva, o rancor, a culpa, a decepção… A maioria sabe do que estamos falando. Muitas vezes vivemos com eles, dividimos o nosso espaço interior. E se os alimentamos, eles acabam ocupando muito espaço.

Desse modo, assim como explica o doutor James Gross, psicólogo da Universidade de Stanford e um dos expoentes no tema de gestão emocional, as emoções aflitivas ou negativas são como ervas daninhas, e crescem nas zonas mais obscuras e descuidadas do nosso ser.

As ervas daninhas são um tipo de planta trepadeira que cresce em tudo aquilo que está ao seu alcance, muitas vezes de forma indesejada. Gross afirma que quanto mais poder damos para esses estados emocionais, mais ervas daninhas crescem ao redor de nós de forma que, pouco a pouco, ficamos completamente imobilizados. Cabe dizer, portanto, que não é nada fácil se libertar delas; na verdade a única maneira é arrancá-las.

As emoções aflitivas ou negativas deixarão de crescer quando deixarmos de alimentá-las. É simples assim. Conseguir fazer isso, no entanto, é difícil. Temos que aprender a lidar com esse tipo de processos internos, e para isso precisamos plantar em nosso interior as sementes da autorregulação.

“Um arco-íris não pode nascer sem uma nuvem e uma tempestade”.
-John H. Vicent-

Erva daninha

As emoções aflitivas têm um papel importante em nossas vidas

Somos conscientes de que no contexto da psicologia emocional é muito comum atribuir um papel negativo para as emoções aflitivas, algo quase patológico. Por isso, por exemplo, não faltam artigos clássicos e livros de autoajuda destinados a nos ajudar a eliminar completamente esses estados emocionais. Mas será que essa é uma boa ideia e algo possível de ser feito?

Assim como falamos anteriormente, essas dimensões fazem parte do nosso registro e processamento emocional. Não podemos arrancá-las como se fossem ervas daninhas se a própria terra, em sua mágica diversidade, é caracterizada por ter lugar para todo tipo de espécie.

Desse modo, as dimensões básicas do nosso mundo emocional, como a tristeza, o medo, a decepção ou a raiva também fazem parte de quem somos, e algo assim não pode ser eliminado. Não podemos negar essas emoções que fazem parte até mesmo da essência que nos define.

A chave está em dois aspectos muito básicos: em compreender e em regular. Saber que existem, dar nomes a elas. Compreender e gerir essas emoções aflitivas é o melhor que podemos fazer para regular o nosso comportamento.

Malévola

A bruxa que também teve que ser convidada

Todos conhecemos o conto da Bela Adormecida. Nessa história tradicional dos contos de fadas infantis, os pais da protagonista organizaram uma festa para celebrar seu nascimento. No reino havia 13 mulheres sábias, 13 figuras que possuíam dons mágicos e grandes poderes. Os pais, no entanto, escolheram convidar somente doze delas, porque havia uma marcada por um gênio difícil e um pouco malvada.

Ela não recebeu nenhum convite, e as pessoas do reino imaginaram que não ficaria chateada com isso. No entanto, a décima terceira entidade mágica, muito habilidosa nas artes obscuras, se sentiu gravemente desrespeitada, e como castigo lançou uma maldição sobre a bebê que já conhecemos.

A conclusão moral que podemos tirar desse conto clássico da Bela Adormecida é que mesmo que fosse mais fácil para todo mundo conviver com as outras doze fadas do bem, com essas doces mulheres amáveis, otimistas, carinhosas e alegres que eram tão fáceis de lidar, a décima terceira não poderia ser ignorada.

Convidar a última bruxa, mesmo sendo mais obscura, dar uma cadeira a essa figura complexa, teria sido um ato de inclusão e responsabilidade. O modo como a trataram é muito parecido com o modo como tratamos a nós mesmos e nossas emoções aflitivas. Negamos que elas existem. Fingimos que elas não estão lá. E o resultado desse ato é quase sempre terrível e muito nocivo.

Muitas vezes esquecemos que as emoções, as boas e as ruins, devem sempre ser convidadas. Às vezes umas nos visitam, às vezes outras. Em alguns momentos chegam sem ser chamadas, e podem inclusive ser muito desagradáveis. Mas devemos também conviver com elas, recebê-las de forma educada. Não é, no entanto, necessário dar a elas muito poder e permitir que sua permanência seja muito longa ou incômoda.

Controlas as emoções aflitivas como chave do bem-estar

As emoções têm um valor adaptativo. Ou seja, elas existem para que possamos e para que seja mais fácil nos adaptar a algumas circunstâncias do nosso dia a dia.

Um estudo realizado pela Universidade de Maryland ressalta que ser hábil na matéria de regulação emocional nos permite ter um desenvolvimento bastante efetivo em qualquer contexto e situação social.

Mulher tranquila nas nuvens

É recomendável, portanto, que nos tornemos excelentes gestores dessas complexas dimensões internas. Que transitemos com elas sem tentar impedir sua existência, sem negá-las ou tentar arrancá-las do nosso registro emocional. Essa é a chave para alcançar o bem-estar. Vejamos a seguir como alcançar esse objetivo:

  • As emoções aflitivas aparecem muitas vezes como um marcador somático: incômodos físicos, um mal-estar… Devemos detectá-las, assim como o rumo desses pensamentos negativos pelos quais elas geralmente são acompanhadas.
  • Entender por que elas aparecem e o que elas querem dizer.
  • Dar tempo ao tempo: caminhe com elas de forma relaxada. A meditação pode ajudar.
  • Canalize as emoções e expresse-as. Fale com alguém, faça uso da escrita terapêutica, faça algum esporte para liberar sua tensão.
  • Busque uma estratégia para lidar com elas. Não deixe para amanhã o incômodo que você sente hoje. Seja um líder das suas emoções.

Para concluir, não esqueçamos que, sem dúvida, a recomendação mais importante é lembrar que as emoções aflitivas são apenas convidadas. Assim como elas chegam, muitas também irão embora. Não deixe que elas criem espaços permanentes, pois podem se apropriar de todo o espaço em pouco tempo.

Gross, J. James (2015). Handbook of Emotion Regulation. Guilford Press