Emoções intraduzíveis: sensações difíceis de explicar

Certamente, isso também já aconteceu com você: às vezes, experimentamos sensações que não conseguimos explicar com palavras. As emoções intraduzíveis descrevem uma realidade muito comum. Vamos nos aprofundar no assunto.
Emoções intraduzíveis: sensações difíceis de explicar

Última atualização: 24 maio, 2022

Todos nós experimentamos sensações que são muito difíceis de explicar, de colocar em voz alta e mais ainda de descrever em palavras. As emoções intraduzíveis são estados que não se sabe bem como definir. Isso acontece porque não há a capacidade para expressá-las ou porque não há termos no próprio idioma. Ambas as realidades são igualmente comuns.

Um exemplo disso é uma criança de três ou quatro anos que explode em birras, lágrimas e frustrações porque ainda não tem uma inteligência emocional adequada. Ela sabe que está sentindo muitas coisas ao mesmo tempo, mas não consegue e não sabe dizer em voz alta o que está acontecendo. Adquirir a solvência adequada no vocabulário das emoções facilita a nossa vida e até mesmo a convivência.

Entretanto, um fenômeno não menos interessante também aparece com frequência. Cada um de nós lida com experiências psicofísicas difíceis de interpretar e comunicar porque não existem termos para descrevê-las em nossa língua. Ou seja, em outras palavras, existem estados para os quais não há verbetes nos nossos dicionários.

Como exemplo ilustrativo, em alemão, podemos encontrar palavras como sehnsucht. Significa ‘desejos de vida’ e define o desejo por outras conquistas na vida, por outros propósitos existenciais, mesmo sabendo que são inatingíveis. Algo que, sem dúvida, a maioria de nós já sentiu em algum momento, mas que não saberíamos rotular ou descrever em português sem recorrer a mais de uma frase.

Menino pensando em emoções intraduzíveis
Desenvolver um bom vocabulário emocional nos permite expressar uma boa parte de nossas sensações em palavras.

Emoções intraduzíveis, sensações sem palavras que as contenham

Pode levar mais de uma década para que as pessoas desenvolvam uma consciência emocional adequada. A capacidade de reconhecer as próprias emoções e as dos outros, discernir todo o espectro de sentimentos e saber como rotulá-los leva tempo. Tanto assim que são muitos os que chegam à idade adulta sem alcançá-la. Pois, no final das contas, essa aptidão não tem a ver com idade, mas sim com habilidades pessoais.

Porém, há um fato inegável: o que conseguimos rotular com algum termo nos permite entender muito melhor o que nos acontece. É aí que entra o valor do idioma. Ter uma série de palavras que já descrevem por si só diferentes estados de espírito nos traz alívio e facilita a autorregulação.

No entanto, e isso já aconteceu com todos nós, há momentos em que sensações estranhas que não encontram um canal expressivo rodopiam dentro de nós. Não encontrar o molde de um substantivo para recorrer, tais como “medo”, “tristeza” ou “sofrimento”, causa frustração. Por esta razão, chamamos de emoções intraduzíveis os estados internos que não podemos traduzir em palavras.

Ser capaz de expressar as próprias emoções em palavras está associado a experiências mais positivas e também a uma melhor capacidade de adaptação a fatores estressantes.

Emoções além da linguagem

Uma das tarefas mais essenciais de todos os pais, mães e educadores é desenvolver as habilidades linguísticas das crianças em questões emocionais. Compreender palavras como “alegria”, “raiva”, “medo” ou “nojo” permite que os pequenos entendam como se sentem em determinados momentos.

Entretanto, nem todos os estados emocionais se encaixam ou estão presentes em todas as línguas. E este tópico é pelo menos tão peculiar quanto fascinante. Por exemplo, o japonês é uma língua que designa e descreve estados emocionais tão sutis quanto extraordinários. Aqueles que já sentimos muitas vezes, mas que não podemos esclarecer porque não existem em nossa língua.

Assim, encontramos termos como natsukashii, uma mistura de nostalgia, alegria e até mesmo tristeza, ao mesmo tempo, pelo que foi intensamente vivido no passado, e que nunca mais será vivido. Também há shinrin-yoku, que define a agradável sensação de caminhar e desfrutar de um “banho” de floresta.

Há emoções intraduzíveis que, em geral, não encontram um referente nas línguas indo-europeias. No entanto, no mundo oriental, existem as mais variadas terminologias para evidenciar sentimentos e emoções altamente complexos.

Em busca de uma lexicografia intercultural

A Universidade de Harvard publicou um estudo ligado a emoções intraduzíveis há alguns anos. Algo evidente é justamente essa imensa variedade na lexicografia intercultural. Em todas as línguas existentes em nosso planeta, muitas vezes se cristalizam palavras que descrevem realidades psicológicas que, embora universais, não são acessíveis em todos os registros linguísticos.

Por exemplo, em Inuit, encontramos a bela palavra iktsuarpok, que descreve a antecipação que se sente ao esperar por alguém querido. Todos nós já sentimos essa experiência emocional, mas nem todos podemos expressá-la em uma palavra porque ela não existe em nossos dicionários. Este trabalho mergulhou em algo tão animador quanto promissor.

Seria interessante enriquecer a nossa paisagem emocional aprendendo termos como esses. Integrar palavras de outros idiomas em nossa linguagem para descrever como nos sentimos seria algo positivo e terapêutico.

As pessoas rotulam o que sentem porque aprendemos uma série de palavras que se encaixam nesses estados. No entanto, há muitas outras experiências que não sabemos explicar e das quais às vezes não temos plena consciência porque não há termos que as contenham.

Homem e mulher conversando ao ar livre discutindo emoções intraduzíveis
Quando não conseguimos expressar as nossas emoções em palavras, recorremos à granularidade: procurar sinônimos.

Emoções intraduzíveis e granularidade

Todos nós experimentamos emoções intraduzíveis. Cada um de nós tem sensações diárias que são difíceis de definir. Então, o que fazemos quando não podemos descrever cada sentimento ou emoção? Recorremos à granularidade. Este é um recurso no qual se usa vários sinônimos para definir um estado específico.

Assim, alguém pode conversar com um amigo para dizer que, naquele dia, por exemplo, está sentindo um misto de nostalgia e tristeza por algo que, na realidade, nunca aconteceu. Porém, para esta descrição intrigante, há um termo em português (saudade).

Em essência, embora o ser humano muitas vezes lide com emoções que não têm tradução, conseguimos transmiti-las aos outros de várias maneiras. E isso também é positivo. Afinal, o importante é comunicar, desabafar, compartilhar…

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