Epidemiologia diferencial: por que a inteligência prediz a mortalidade

setembro 5, 2019
Os fatores que influenciam o uso dos serviços de saúde e a aderência ao tratamento foram estudados pela epidemiologia diferencial. Apresentaremos dois deles: cinco traços de personalidade e o fator g de inteligência.

O objetivo principal do campo de estudo da epidemiologia diferencial é estabelecer uma relação entre a inteligência – ou fator g – de uma pessoa, seus traços de personalidade e sua mortalidade posterior.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Edimburgo em 2017 encontrou evidências que apoiavam a relação entre o nível intelectual de uma amostra de pessoas na sua infância e sua mortalidade posterior.

A conclusão à qual os pesquisadores chegaram foi de que quanto maior o nível intelectual observado aos 11 anos, maior a probabilidade de ultrapassar a barreira dos 80 anos.

Assim, parece que o fator g de inteligência está relacionado com a manutenção de comportamentos saudáveis, o consumo correto de medicamentos, o seguimento de um tratamento, a prática de exercícios ou o desenvolvimento de uma dieta balanceada.

Por isso, a inteligência, além de nos permitir raciocinar, planejar, resolver problemas, pensar em termos abstratos e compreender ideias complexas, também parece ser uma boa preditora da longevidade de uma pessoa.

O ponto de corte foi estabelecido em 85 pontos de quociente de inteligência (QI): se o fator g for menor do que isso, se transforma em um indicador de risco.

O fator g se relaciona não apenas com a aderência ao tratamento uma vez desenvolvida uma doença, mas também com a prevenção e antecipação de ocorrências de vida inesperadas.

Estudos mostram que pessoas com um QI menor do que 85 têm três vezes mais chance de sofrer ou morrer em um acidente de trânsito do que aquelas com um QI de 115.

A principal problemática surge devido às desigualdades no sistema de saúde, que não contempla o fator g de seus usuários em nenhum momento do processo. Poderíamos, por exemplo, cuidar com mais atenção da adesão ao tratamento de pessoas que estejam em percentis inferiores da escala de QI.

Assim, falaríamos sobre a desigualdade na acessibilidade cognitiva de todos os serviços de saúde. Por isso, embora pareça pouco intuitivo, para que os tratamentos médicos e psicológicos sejam mais eficazes, não é necessário aumentar o número de serviços ofertados, mas sim adaptar estes serviços aos diferentes fatores g e traços de personalidade existentes.

Quebra-cabeças do cérebro humano

Mortalidade e traços de personalidade

O fator g de inteligência não é o único que influencia a mortalidade de uma pessoa, e seu estudo não é exclusivo da epidemiologia diferencial.

Os traços de personalidade que Goldberg classifica como Abertura à Experiência, Cordialidade, Extroversão, Neuroticismo e Responsabilidade também contam com um papel relevante na acessibilidade cognitiva aos serviços de saúde e na manutenção de estilos de vida saudáveis.

No caso dos traços de personalidade, foi estudada a possibilidade de que existam fatores gerais de personalidade na raiz de diferentes transtornos.

Por exemplo, o traço de personalidade Responsabilidade estaria relacionado com o consumo de bebidas alcoólicas, a maconha e o tabaco; o Neuroticismo estaria relacionado com a depressão, a ansiedade e as fobias, e a Cordialidade com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), as manias e a esquizofrenia.

Da mesma forma, parece que os traços de personalidade e a saúde também estão relacionados em sua versão mais prática. A partir de um modelo integrador da personalidade, foi observado que a influência de alguns fatores é mais relevante do que a de outros.

Este é o caso da Responsabilidade ou Autocontrole, que regula os sistemas temperamentais definidos por outros traços – por exemplo, a Cordialidade se relaciona com o uso do conhecimento irracional e a agressividade e impulsividade.

Por isso, seria preciso levar em conta os níveis de Responsabilidade para definir um tratamento médico ou outro em primeiro lugar, além de revisar os outros traços e adequá-lo de acordo com os mesmos.

Fenocópias com perfis psicológicos

A relevância da epidemiologia diferencial se encontra na possibilidade de adaptar todos os recursos de saúde à personalidade e ao fator g do usuário.

Isso quer dizer que se as linhas de estudo seguirem esta direção, seria possível desenvolver perfis de acordo com a expressão dos genes de uma pessoa e a sua interação com o meio ambiente.

Isso permitiria conhecer a maneira como o indivíduo se relaciona com o seu entorno, influenciado pela sua inteligência e por seus traços de personalidade.

Este aspecto levaria a constituir um perfil psicológico ao qual adequar de forma ideal, por exemplo, as intervenções médicas, o tipo de medicamento receitado e os dias das consultas posteriores.

DNA humano

Medidas que podem ser colocadas em prática

Embora estejamos longe de contar com estudos genéticos individuais e o uso da epidemiologia diferencial no dia a dia, é possível ir implementando certas mudanças no atendimento primário para igualar os acessos cognitivos de pessoas com QIs distintos.

Algumas medidas relacionadas com o fator g podem ser variações fáceis de implementar, como não exigir um nível de leitura básico, comunicar o que o paciente deve fazer (além do que não deve fazer), adequar as prescrições ao entendimento de todos, usar um vocabulário simples e omitir informações redundantes.

No que diz respeito aos traços de personalidade, seria preciso personalizar as intervenções de acordo com os níveis existentes em cada pessoa. Por exemplo, adaptar a ingestão dos medicamentos aos traços de personalidade, e não dar comprimidos que afetem a vida social de uma pessoa com altos níveis de Extroversão.

Todas estas medidas não apenas ajudariam os usuários a utilizar os serviços de saúde de maneira adequada, mas os transformaria em serviços eficazes, rápidos e com um percentual alto de aderência ao tratamento.

Além disso, conhecendo os perfis de personalidade e inteligência dos usuários de um sistema, é possível traçar planos e criar campanhas de prevenção de certos comportamentos pouco saudáveis.

Assim, ao saber como as pessoas gerenciam sua informação seria possível decidir a quais grupos e de qual maneira oferecer esta informação.

  • Colom, R. y Flores, C. (2001). Inteligencia y Memoria de Trabajo: La relación entre factor G, Complejidad Cognitiva y Capacidad de Procesamiento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 17(1), 037-047.
  • Colom, R. (2017). Epidemiología cognitiva: un estudio poblacional prospectivo. España. Recuperado de: https://robertocolom.wordpress.com/2017/12/15/epidemiologia-cognitiva-un-estudio-poblacional-prospectivo/