Qual é a relação entre a esquizofrenia e os vícios?

Embora, em teoria, a esquizofrenia e os vícios sejam patologias diferentes, na prática eles podem interagir. Então, o que acontece quando os dois quadros clínicos ocorrem ao mesmo tempo na mesma pessoa?
Qual é a relação entre a esquizofrenia e os vícios?

Última atualização: 02 Outubro, 2021

Esquizofrenia e vícios são duas patologias que podem se relacionar, fazendo com que a interação das duas tenha um impacto devastador na vida da pessoa. A presença dos dois não é uma boa notícia para o paciente e para seus cuidadores ou familiares, pois os problemas causados por uma doença são agravados pelos da outra.

Antes de explorar a relação que pode existir entre esquizofrenia e vícios, é pertinente entender o que são e quais são seus principais sintomas.

O que é a esquizofrenia?

A palavra esquizofrenia vem da conjunção de duas palavras gregas: schizein (dividir) e phrēn (mente, razão, compreensão). Resumidamente, pode-se dizer que é a divisão da mente. O paciente parece estar em um mundo diferente, não tem um forte apego à realidade e vive de acordo com o que experimenta (Padín, 2012).

A esquizofrenia é uma doença mental que afeta a maneira como a pessoa pensa, sente e age. É caracterizada por três tipos de sintomas: positivos, negativos e desorganizados.

Mulher com esquizofrenia

Sintomas positivos

  • Ideias delirantes.
  • Alucinações
  • Comportamento catatônico.

Sintomas negativos

  • Achatamento afetivo.
  • Abulia.
  • Anedonia.
  • Alogia.

Sintomas desorganizados

  • Linguagem desorganizada.
  • Comportamento desorganizado.
  • Afeto impróprio.

O que são os vícios?

Os vícios podem ser entendidos como um padrão patológico de dependência de substâncias ou atividades perigosas para a saúde física e mental. Sussman e Sussman (2011) propõem que todo vício, seja em substâncias ou comportamentos, carrega os seguintes sintomas:

  • Dependência das consequências reforçadoras do vício.
  • Preocupação, pensamento excessivo e desejo de se envolver em comportamento ou uso viciante.
  • Saciedade ou tolerância temporária.
  • Perda de controle.
  • Dificuldade em parar ou evitar o consumo ou comportamento viciante, apesar da existência de consequências negativas.

Como a esquizofrenia e os vícios estão relacionados?

A relação entre esquizofrenia e vícios é sustentada por vários aspectos. São os seguintes:

Prevalências entre a esquizofrenia e os vícios

Em termos de prevalência, estima-se que 47% das pessoas com esquizofrenia apresentam algum transtorno de abuso de substâncias durante a vida (Mueser, Bennett & Kushner, 1995). Além disso, entre 50% e 60% dos homens esquizofrênicos têm algum tipo de dependência de drogas ou álcool (Dixon et al., 1990).

Entre os esquizofrênicos usuários de drogas, o álcool é uma das substâncias mais abusadas, junto com o tabaco. De acordo com Aznar et al. (2020), um estudo realizado em Madrid mostrou que 29,5% dos pacientes com diagnóstico de esquizofrenia consumiam álcool. Esse número só foi superado pelo consumo de tabaco, que foi de 69,8%.

A prevalência do tabagismo é alta, ocorre em cerca de 90% dos esquizofrênicos e em 45-70% dos pacientes com outras patologias mentais, em comparação com 25-30% da população geral (Aznar et al., 2020). Esses hábitos pouco saudáveis e patológicos aumentam o risco de outras doenças que podem afetar não só o bem-estar do paciente, mas também o da sua família.

Explicações sobre a relação entre esquizofrenia e vícios

Ainda não se sabe exatamente como a esquizofrenia e os vícios estão ligados, mas temos alguns modelos que podem nos ajudar a entender esta relação:

O modelo de diátese-estresse

Este modelo explicativo afirma que a esquizofrenia é o produto de uma vulnerabilidade neurobiológica que é explorada por estressores ambientais. Ou seja, a pessoa nasce com uma predisposição biológica para a patologia, mas é o ambiente que, de alguma forma, acende o estopim para que a pessoa a desenvolva.

Pessoas com esquizofrenia correm um maior risco de desenvolver um transtorno de uso de substâncias devido aos efeitos cumulativos do funcionamento cognitivo, social, educacional e vocacional insatisfatório, na presença de pobreza, vitimização e ambientes sociais desviantes (Mueser, conforme citado em Khokhar, 2018).

A hipótese da automedicação

Essa hipótese sustenta que os pacientes esquizofrênicos usam substâncias como forma de aliviar os sintomas da sua doença ou reduzir os efeitos colaterais do tratamento antipsicótico.

A pessoa tenta encontrar uma solução para os problemas da sua condição e se automedica com tratamentos que não são eficazes e que, com o tempo, podem piorar a patologia.

Hipótese biológica

Essa hipótese sugere que tanto a esquizofrenia quanto o uso de substâncias compartilham uma fisiopatologia comum nos circuitos neurais. O abuso de substâncias pode estar relacionado a uma disfunção do circuito de recompensa do cérebro em pacientes com esquizofrenia (Khokhar, 2018).

É reconhecido que os sistemas de neurotransmissão da dopamina costumam estar envolvidos no aparecimento tanto da esquizofrenia quanto do comportamento viciante e na gênese e manutenção do desejo neste último (Batel, 2000).

Cérebro com redes neurais

Uma relação biopsicossocial

A relação entre esquizofrenia e vícios é de natureza biopsicossocial. Fatores biológicos, como os sistemas dopaminérgicos e de recompensa do cérebro, fatores ambientais que sujeitam o paciente a situações estressantes e fatores psicológicos relacionados ao funcionamento cognitivo da pessoa influenciam o produto da interação.

Assim, as consequências da interação entre as duas patologias são evasivas para uma visão do que seria a soma individual dos efeitos. Ou seja, não estaríamos diante de um quadro clínico que se enquadre perfeitamente na união dos dois. O mesmo acontece com a intervenção: a interação exige que implementemos estratégias complementares às que proporíamos, aglutinando aquelas que serviriam para as duas entidades clínicas quando aparecem sozinhas.

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  • Aznar, S., Higueras, S., Buil, S., Fuentes, T. y Asín, P. (2020). Esquizofrenia: cómo afecta el consumo de drogas y el estrés. Revista Ocronos, 3 (4). https://revistamedica.com/esquizofrenia-consumo-de-drogas-estres/
  • Batel, P. (2000). Addiction and schizophrenia. European Psychiatry15(2), 115-122.
  • Dixon, L., Haas, G., Weiden, P., Sweeney, J., y Frances, A. (1990). Acute effects of drug abuse in schizophrenic patients: clinical observations and patients’ self-reports. Schizophrenia bulletin16(1), 69-79.
  • Khokhar, J. Y., Dwiel, L. L., Henricks, A. M., Doucette, W. T. y Green, A. I. (2018). The link between schizophrenia and substance use disorder: A unifying hypothesis. Schizophrenia research194, 78-85.
  • Mueser, K. T., Bennett, M., y Kushner, M. G. (1995). Epidemiology of substance use disorders among persons with chronic mental illnesses. In A. F. Lehman y L. B. Dixon (Eds.), Double jeopardy: Chronic mental illness and substance use disorders(pp. 9–25). Harwood Academic Publishers/Gordon.
  • Padín, G. A. (2012). Esquizofrenia. Cuadernos del Tomás, (4), 151-172
  • Sussman, S. y Sussman, A. N. (2011). Considering the definition of addiction. International journal of environmental research and public health8(10), 4025-4038.