Eutanásia: como se despedir de alguém que tomou a corajosa decisão de morrer

· outubro 5, 2016

Diante da morte de alguém que amamos, as palavras se tornam inúteis. A dor se transforma em lágrimas e nada do que dizemos consegue aliviar esse vazio interior. Morre dentro de nós um jardim florido que nunca mais será semeado novamente.

Os nossos entes queridos são esses jardins floridos que nos dão alegria, são a chuva que rega a terra seca, que dá cor às nossas tardes cinzentas, a sombra quando o sol queima. Às vezes esquecemos que nenhum jardim floresce para sempre, o inverno sempre chega para forçá-lo a dizer adeus.

“A vida é infinita, trocar de roupa não é morrer”.

-Anônimo-

Até pouco tempo atrás, a morte era uma visitante estranha que aparecia sem aviso prévio. Agora tudo é diferente. A ciência é capaz de mantê-lo vivo, mesmo que você seja apenas um corpo sem consciência, que ainda respira e mantém os batimentos cardíacos. Isto nos dá a oportunidade de prolongar a dor sem esperança de alívio.

Por outro lado, atualmente é possível decidir a data, a hora e a forma de morrer, para mergulhar em algum lugar que a ciência desconhece. A eutanásia é uma das formas de morte programada, mas não traz consolo ao nosso coração ferido.

Eutanásia: despedir-se sem saber como dizer adeus

Todos nós estamos condenados à morte desde o nascimento, mas não saber quando partiremos abre um leque de incertezas que é ao mesmo tempo encorajador e assustador. Quando a morte toma a forma de um mês, um dia e uma hora certa, o relógio avança no mesmo ritmo da angústia. Um minuto a mais é um minuto a menos e cada experiência compartilhada se torna uma forma de dizer adeus.

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A eutanásia é uma dessas situações limites da vida que nos confrontam com um paradoxo doloroso. Por um lado o amor, que acredita que devemos respeitar a vontade do outro e estar pronto a dizer adeus com o coração cheio de gratidão. Por outro lado, o mesmo amor nos mostra que será desesperador imaginar o mundo sem essa pessoa, como será difícil encontrá-la somente nas nossas lágrimas e lembranças.

Ninguém se despede da vida sem tristeza. Ninguém toma a decisão de praticar a eutanásia sem passar noites em claro, buscando soluções que não aparecem. Morrer se transforma em uma saída para a dor.

“Eu irei. E os pássaros ficarão cantando…”

Não é fácil entender e aceitar a decisão de alguém que decidiu morrer. Você se recusa a dizer adeus a esse ente querido e não aceita a ideia de que o ser humano pode assumir o controle do seu destino, definindo o momento em que a sua vida deve terminar.

É difícil admitir essas verdades, porque juntamente com essa pessoa, morrerá algo dentro de nós. Dizer adeus é o início de um caminho incerto que nos levará a todos e a nenhum lugar.

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Cada vez que vemos essa pessoa, entramos em pânico. Nos lembramos que o fim está próximo, que dentro de uma semana não a veremos mais, que esses são os últimos sorrisos, as últimas palavras que compartilharemos.

E você chora por dentro para que ninguém perceba e nem veja as suas lágrimas. Você quer abraçar e nunca mais soltar essa pessoa, mas sabe que chegou a hora de deixá-la ir.

A angústia aumenta quando nos tornamos conscientes de que a pessoa morrerá, mas o amor que sentimos por ela nunca se acabará. O amor sobreviverá; primeiro se transformará em um lamento silencioso, quando sentir a falta da sua presença, do seu sorriso, dos seus conselhos e da sua bondade. Você se despedirá muitas vezes, mesmo depois que ela se for.

Depois do primeiro momento de dor, voltaremos ao jardim florido que ficou desabitado e perceberemos com surpresa que as flores se foram, mas o perfume delas e o canto dos pássaros ficaram para aliviar a seu coração. Então você entenderá que existem sementes com colheita eterna e dirá como o poeta: “Limpei o espelho do meu coração… agora ele reflete a lua”.

Nota da autora: Boa viagem, minha amiga querida…

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