O experimento do boneco João Bobo e a agressividade

· setembro 5, 2018

Entre os anos 1961 e 1963, o psicólogo canadense Albert Bandura realizou um experimento para analisar o comportamento das crianças ao ver modelos adultos mostrando comportamentos agressivos em relação a um boneco. Na verdade, o experimento do boneco João Bobo é a demonstração empírica de uma de suas teorias mais conhecidas, a teoria da aprendizagem social.

Esta teoria defende que boa parte da aprendizagem humana é dada pelo contato com o ambiente social. Ao observar os outros, adquirimos certos conhecimentos, habilidades, estratégias, crenças e atitudes. Assim, cada indivíduo aprende sobre a utilidade, conveniência e consequências de vários comportamentos observando certos modelos, e age de acordo com o que acredita que deve esperar como resultado de suas ações.

“A aprendizagem é bidirecional: nós aprendemos com o ambiente e o ambiente aprende e se modifica graças às nossas ações”.
-Albert Bandura-

A pesquisa de Bandura

Albert Bandura é considerado uma das maiores eminências no campo da aprendizagem social. Ele recebeu o título de Doutor Honoris Causa em universidades de diferentes países por suas contribuições para a psicologia. Um pesquisa realizada em 2002 colocou Bandura em quarto lugar entre os psicólogos de referência mais citados de todos os tempos, depois de Skinner, Freud e Piaget.

Bandura não estava de acordo com a postura dos behavioristas, pois considerava que isso subestimava a dimensão social do comportamento humano. Por isso, ele concentrou seu estudo na interação entre o aprendiz e o ambiente para explicar os processos de aprendizagem.

Albert Bandura

Em 1961, este pesquisador começou a analisar diferentes métodos para tratar crianças excessivamente agressivas, identificando a origem da violência nas condutas que apresentavam. Para isso, ele lançou sua pesquisa mais famosa e mundialmente conhecida: o experimento do boneco João Bobo. Vamos ver do que se trata a seguir.

O experimento do boneco João Bobo

Albert Bandura desenvolveu este experimento com o objetivo de proporcionar uma base empírica à sua teoria. Os resultados obtidos mudaram o curso da psicologia da época, já que o experimento do boneco João Bobo foi pioneiro no comportamento de agressividade em crianças.

A base sobre a qual o processo experimental foi baseado foi demonstrar que certos comportamentos eram aprendidos pelas crianças ao imitar as ações de modelos adultos. O estudo envolveu 36 meninos e 36 meninas, entre 3 e 5 anos de idade. Eles eram todos alunos da creche da Universidade de Stanford.

As crianças foram organizadas em 3 grupos: 24 foram expostas ao modelo agressivo, 24 ao modelo não agressivo, e o restante ao grupo de controle. Os grupos, por sua vez, foram divididos por sexo (meninos e meninas). Os pesquisadores garantiram que metade das crianças fosse exposta às ações de adultos do mesmo sexo e a outra metade a indivíduos do sexo oposto.

De forma individual, tanto no grupo agressivo como no não agressivo, cada criança era observadora da conduta de um adulto em relação ao boneco João Bobo (um boneco inflável de plástico de um metro e meio de altura, que ao ser atingido, recuperava novamente o equilíbrio).

No cenário do modelo agressivo, o adulto começou a brincar com os brinquedos na sala por cerca de um minuto. Após esse período, o modelo iniciou um comportamento agressivo em relação ao boneco, acertando-o ou usando um martelo de brinquedo para golpeá-lo no rosto.

No modelo não agressivo, o adulto brincou com o boneco. Por último, no grupo de controle não existia a observação prévia de interação com nenhum modelo.

Mais tarde, as crianças foram uma a uma para a sala com os brinquedos e o boneco João Bobo. Estas interações foram gravadas com câmeras para registrar seu comportamento após observarem as formas de atuação dos modelos adultos.

O experimento do boneco João Bobo

Conclusões

Bandura determinou que as crianças expostas ao modelo agressivo eram mais propensas a agir com agressões físicas do que aquelas que não foram expostas a esse modelo.

Com relação aos resultados referentes às diferenças de gênero, eles apoiaram fortemente a previsão de Bandura de que as crianças eram mais influenciadas por modelos de seu próprio gênero.

Além disso, entre as crianças que haviam estado presentes no cenário do modelo agressivo, o número de ataques físicos exibidos foi maior nos meninos do que nas meninas. Ou seja, os meninos mostraram mais agressividade quando se expuseram aos modelos masculinos agressivos.

Por outro lado, em 1965 foi realizado um experimento semelhante ao do boneco João Bobo para estabelecer os efeitos de recompensar ou castigar comportamentos errôneos e violentos. As conclusões que foram obtidas validaram a teoria da aprendizagem por observação; quando os adultos são recompensados por seu comportamento violento, as crianças são mais propensas a continuar batendo no boneco. No entanto, quando os adultos são repreendidos, as crianças, consequentemente, param de bater no boneco João Bobo.

“Em toda sociedade e em toda comunidade existe ou deve existir um canal, uma porta de saída através da qual as energias acumuladas na forma de agressividade possam ser liberadas.”.
-Frantz Fanon-

Como vemos, as crianças tendem a imitar aquilo que veem em seus modelos ou figuras de referência. Por esta razão, é muito importante prestar atenção nos comportamentos e atitudes que temos, tanto no ambiente familiar quanto no educativo.