Expressar opiniões pessoais: uma questão de saúde mental

· março 20, 2019
Durante um voo entre Nova York e Portland, em 1978, um dos tripulantes se absteve de opinar sobre certas falhas do avião. Ele o fez porque isso contradizia o piloto e o copiloto. O resultado foi uma tragédia aérea.

O simples fato de não concordar com os outros ou pensar de forma diferente causa uma dose de estresse. É assim que somos: uma espécie sociável que se sente confortável quando o seu lugar no grupo é inquestionável. Portanto, expressar opiniões às vezes causa tensão ou assusta. Nós não queremos ser rejeitados, ofender os outros ou causar instabilidade no nosso ambiente.

No entanto, tudo tem um limite. Se nos abstermos de expressar as opiniões pessoais, por medo de rejeição ou exclusão, estaremos nos anulando. Da mesma forma, com esse tipo de atitude apenas conseguiremos que um grupo, uma coletividade ou uma comunidade fiquem estagnados. Onde há apenas consensos e estes permanecem inalterados, não pode haver evolução.

“A espécie humana é feita de tal maneira que aqueles que andam pelo caminho já trilhado atiram pedras naqueles que ensinam algo novo”.
– Voltaire –

Há grandes avanços no mundo que somente foram possíveis porque alguém foi capaz de levantar a sua voz e expressar opiniões, mesmo quando elas não eram compartilhadas pelo seu ambiente. Se Martin Luther King não tivesse se oposto decisivamente à discriminação racial, provavelmente não teria havido uma evolução nos direitos civis. O mesmo aconteceu com Nelson Mandela e com muitos outros ao longo da história.

Expressar opiniões: um ato de coragem

É preciso coragem para expressar opiniões quando elas contradizem a opinião da maioria. Os grupos humanos se comportam de tal forma que buscam identificação mútua através do consenso. Os membros que colocam em risco a unidade grupal são frequentemente rejeitados, pelo menos no princípio. Tal rejeição vai desde pequenos gestos de desaprovação até o ostracismo, se necessário.

Expressar opiniões

Intuitivamente ou conscientemente todos nós sabemos disso. As maiorias sempre tendem a se impor e, ao expressar opiniões que vão contra quase todos, nos colocamos no centro das atenções. A superioridade numérica exerce um efeito psicológico de pressão. Por isso precisamos reunir coragem para dizer o que pensamos em voz alta.

Essa questão é um tema quase instintivo. Os seres humanos precisam dos outros para viver. A sobrevivência física e psicológica depende dos outros, porque dificilmente poderemos nos manter vivos e saudáveis se estivermos completamente sozinhos. Para ir contra as maiorias, temos que desafiar esse instinto de sobrevivência. Por isso não é fácil.

Alguns estudos sobre o assunto

Durante a década de 1950, Solomon Asch, um psicólogo dos Estados Unidos, realizou vários experimentos sobre a pressão do grupo e seus efeitos. Ele descobriu na prática que se afastar da maioria era muito difícil.

Os pesquisadores fizeram alguns questionários coletivos. Dentro do grupo havia “infiltrados” que impunham uma tendência majoritária nas respostas incorretas. O resultado foi que pelo menos 37% dos indivíduos estudados preferiram se juntar às respostas da maioria, embora achassem que estavam errados.

Solomon Asch

Mais tarde, o neuroeconomista Gregory Berns estudou as mudanças que ocorrem no cérebro quando as pessoas se afastam da maioria. Os resultados das suas investigações mostraram que essa discordância aumenta a atividade da amígdala, que processa as emoções, entre elas o medo. Quem se juntava ao grupo mostrava níveis mais baixos de tensão.

A importância da dissidência

É menos dispendioso emocionalmente adaptar-se aos grupos do que expressar opiniões contrárias às da maioria. No entanto, se nos comportássemos como um rebanho passivo que apenas segue os passos dos outros, provavelmente estaríamos contribuindo para fortalecer o totalitarismo e o progresso coletivo seria praticamente nulo.

Charlan Nemeth, pesquisadora da Universidade de Berkeley, provou que as decisões dos jurados eram muito mais justas quando alguns dos membros se afastava da opinião da maioria. Estas dissensões levavam a reconsiderar os fatos e circunstâncias, resultando em conclusões mais equilibradas.

Quando alguém questiona a opinião da maioria, é forçado a reunir mais provas para apoiar a sua posição. Isso é muito positivo.

Expressar opiniões no trabalho

Embora seja difícil, ganhamos muito quando cultivamos a capacidade de expressar as opiniões pessoais. Em princípio, o importante é sermos leais a nós mesmos. Podemos estar errados, mas isso não é o mais importante. O fundamental é se deixar guiar pela sua consciência e reivindicar esse direito que todos nós temos: o de pensar de maneira diferente.

Como grupos, é importante aprender a ouvir aqueles que pensam de forma diferente, assim como evitar avaliar quantas pessoas pensam da mesma forma, prestando atenção aos argumentos mais válidos.

  • Delgado Herrera, O. (2006). El grupo de referencia y su influencia en el comportamiento del consumidor. Saberes. Revista de estudios jurídicos, económicos y sociales (2003-2014), 4, 20.