Facilitismo: o desprezo pela dignidade - A Mente é Maravilhosa

O facilitismo ou o desprezo pela dignidade

setembro 7, 2017 em Psicologia 0 Compartilhados
Facilitismo: o desprezo pela dignidade

No mundo atual, deixamos de quebrar as barreiras da dificuldade para apresentar uma massificação do facilitismo. O ser humano, por exemplo, precisar tornar algumas tarefas mais fáceis para fazer com que sejam possíveis vários dos seus objetivos e projetos. A roda, por exemplo, permitiu que fosse possível transportar grandes pesos de um lado para outro. Boa parte da história humana foi de esforço para facilitar os processos. O ruim é que isso acabou produzindo um exército de facilitistas.

Primeiro foi a revolução industrial e depois a revolução informática. Ambos fenômenos fizeram com que a vida cotidiana se tornasse muito mais rápida para os seres humanos. Em outras palavras, conseguiram minimizar o esforço para realizar muitas atividades cotidianas que antes exigiam mais energia e mais tempo. Por exemplo, obter informação. O boca a boca foi substituído pela grande imprensa e depois pela informação em tempo real da Internet.

“O conformismo é a forma moderna do pessimismo.”
-Antonio Escohotado-

Valeria a pena se perguntar se tudo isso realmente tornou a vida mais fácil. Talvez fosse mais correto dizer que agora ela é mais rápida e exige menos emprego de energia física. Mas a existência se tornou tão complexa que as doenças mentais são as que mais estão aumentando sua ocorrência. Ao mesmo tempo, foi instaurado o facilitismo como meio para enfrentar essa complexidade.

Da facilidade ao facilitismo

O propósito da industrialização e da informática não foi exatamente o de deixar a vida do ser humano mais fácil. Seu objetivo último é tornar a produção mais rápida e simples. Ela também acabou simplificando muitas tarefas da vida cotidiana, mas em essência não se voltava a isso. Boa parte desses avanços se explicam mais pelo conceito de dinheiro que pelo bem-estar.

Facilitismo

Seja como for, a verdade é que esse princípio de que tudo funcione facilmente se infiltrou na nossa consciência de diferentes maneiras. A pior dela é essa que nos leva a acreditar que o fácil e o rápido são atributos desejáveis. Em contrapartida, o complexo e o lento são negativos. Essa forma de pensar é o substrato do facilitismo.

Na sua expressão mais positiva e benéfica, a ciência e a tecnologia quiseram nos livrar das tarefas mecânicas e daquelas que exigem força bruta. Supõe-se que, ao agilizar tarefas, como lavar as roupas rapidamente ou transportar objetos muito pesados com mais facilidade, todos teríamos mais tempo disponível para nos dedicarmos a tarefas mais louváveis, que nos agregariam mais. Mas isso não se realizou, ou se realizou apenas em partes e para apenas algumas pessoas. O que aumentou foi a atitude de desprezo pelo esforço.

Cada vez usamos mais a tecnologia que nos facilita tanto a vida e, ao mesmo tempo, cada vez nos sentimos mais perdidos perante o abismo do tempo que vem à frente. Além disso, antes trabalhava-se durante muitas horas e hoje continuamos trabalhando o mesmo tanto ou até mais.

O facilitismo e a dignidade

Foi construído um falso ideal: eliminar os problemas. Foi popularizada a ideia de que não há nada positivo nos problemas. E pior ainda, muitas pessoas imaginam que existe de verdade uma vida sem dificuldades, um mundo sem obstáculos.

Elas acreditam até o ponto de acabarem se frustrando porque o dia em que os problemas desaparecem nunca chega. O grande paradoxo é que nunca antes tivemos a sensação de enfrentar tantos problemas. Quase tudo se transformou em uma dificuldade. Comer muito ou pouco. Ter trabalho ou não ter. Construir uma vida a dois ou não. E um etecétera muito extenso.

Facilitismo

Do ponto de vista psicológico, o facilitismo pode ter duas faces. Por um lado seria uma resposta defensiva ao que se sente como um acúmulo de problemáticas que não são resolvidas. Por outro lado, também poderia se tratar de uma atitude infantil, na qual o indivíduo deseja permanecer em uma condição que não exija sacrifícios, esforços ou responsabilidades, como quando era um bebê.

O que esse tipo de posicionamento não admite é o fato de que a realidade e a dificuldade andam de mãos dadas. Mas além disso, não compreendem que é exatamente a existência da dificuldade o que permite a uma pessoa e a toda a humanidade buscar, encontrar e evoluir. Até a invenção do fogo foi uma resposta a uma iniciativa que tinha como objetivo resolver um problema. Ao ser solucionado, foram estabelecidas as bases para que se desse um passo definitivo em direção ao homo sapiens.

Em geral, o facilitismo não faz mais que acumular e acrescentar problemas. Ele priva as pessoas da possibilidade de se testar, de se avaliar e assim aumentar a confiança em suas próprias capacidades.

Ela também as impede de desfrutar de uma das plenitudes da vida: se sentir digno do que se é, do que possui e do que se é capaz de fazer. Com certeza há dificuldades impossíveis de resolver sozinho, como a fome mundial. Mas também há muitas outras que são solucionáveis. O que falta é confiança em si mesmo. Ou amor próprio. Ou ambos.

Imagens, cortesia de Tatsuya Tanaka, John Holcroft.

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