A falácia ad hominem: quando atacam sem argumentos

A falácia ad hominem é uma forma de abuso. Ocorre nas conversas em que, depois de deixarmos claros nossos argumentos e nossas ideias, somos atacados não pelo que dissemos, mas por quem somos; seja pelo nosso biotipo, gênero, raça ou personalidade.
A falácia ad hominem: quando atacam sem argumentos
Valeria213

Escrito e verificado por a psicóloga Valeria213 em 15 Novembro, 2021.

Última atualização: 15 Novembro, 2021

A falácia ad hominem, na lógica, caracteriza aquelas situações nas quais alguém decide nos atacar não pelos argumentos que expomos ou defendemos, mas por quem somos. A mensagem comunicada se torna menos importante que nosso biotipo, gênero, personalidade, religião ou qualquer aspecto alheio ao próprio argumento.

“Foi o Alexandre que disse isso? Então, deve ser uma verdadeira falsidade só por ter vindo dele”. Comentários assim representam, sem dúvida, uma realidade vista em vários contextos. Representam intenções desrespeitosas que servem para desacreditar quem defende uma ideia, desviando o foco da atenção para algum aspecto irrelevante que nada tem a ver com a situação em si.

Dessa forma, muito além do que imaginamos, a falácia ad hominem é uma estratégia retórica e, ao mesmo tempo, poderosa e eficaz. Mais ainda, estudos como os realizados por Ralph M. Barnes e Heather M. Johnston, da Universidade de Montana, nos Estados Unidos, nos indicam que os ataques argumentativos das falácias ad hominem são tão efetivos quanto ataques que sejam baseados em evidências.

Se é assim, o motivo é simples: o impacto criado. Sabemos, por exemplo, que ela é comumente utilizada nos meios políticos, bem como em contextos jurídicos e até mesmo em campanhas publicitárias. O objetivo é sempre o mesmo: desacreditar quem está à nossa frente, daí a raiz latina do significado: ad hominem, contra o homem.

Há diferentes tipos de falácia ad hominem, que constituem três tipos de abusos ou ataques pessoais: a falácia ad hominem abusiva, a circunstancial e a ad hominem tu quoque.

Pessoas se comunicando

A necessidade de refletir um tipo de abuso

Trudy Govier, filósofa reconhecida da Universidade de Lethbridge, no Canadá, e autora de vários trabalhos sobre lógica e argumentação nos indica algo importante: em primeiro lugar, devemos entender o que é uma falácia.

Trata-se de um erro de raciocínio, uma falha que ocorre quando tecemos argumentos que parecem ser críveis, mas que na realidade são completamente falsos. As falácias podem ser cometidas por erros involuntários ou por uma intenção expressa de manipular e dissuadir os outros.

Por outro lado, é interessante saber que a falácia ad hominem vem sendo utilizada desde a Antiguidade, mas com um sentido que era diferente do atual. Por exemplo, Galileu a usava com frequência, assim como John Locke e São Tomás de Aquino. Porém, nestes casos, essa falácia representava uma tentativa de fazer o oponente ver que suas ideias estavam erradas. A intenção não era desacreditar o oponente, mas fazê-lo ver seu próprio erro.

Curiosamente, foi a partir do século XIX que esse princípio da lógica começou a mudar. Essa mudança contemplou um comportamento nocivo que é frequentemente apreciado: quando se ataca alguém não para que o indivíduo enxergue a contradição de seus argumentos, mas porque se busca desacreditá-lo a todo custo. Para fazer isso, o foco da atenção é desviado para aspectos superficiais, inúteis e muitas vezes sem sentido.

Isso claramente é uma forma de abuso, uma maneira de causar dano ao outro.

Mulher acusando a outra

Tipos de falácias ad hominem

Nas campanhas políticas, os ataques ad hominem são tão comuns quanto esperados. Um exemplo disso foi o que ocorreu na campanha presidencial dos EUA em 1800, quando John Adams foi chamado de “tonto, hipócrita, grosseiro e opressor sem princípios”. Seu rival, Thomas Jefferson, foi descrito como “um ateu incivilizado, antiamericano e fantoche dos franceses ímpios”.

Outro exemplo: um dos estratagemas mais recorrentes de Donald Trump é justamente a falácia ad hominem. Dessa forma, é comum que ele recorra a este princípio para desacreditar o indivíduo da forma mais infundada, em vez de refutar os argumentos de seus adversários com um mínimo de lógica ou evidências (lembremos, por exemplo, de como ele atacou um jornalista portador de necessidades especiais do New York Times, concentrando-se apenas nessa condição do indivíduo).

É importante ressaltar que podemos diferenciar três tipos deste princípio da lógica argumentativa. Eles são os seguintes:

Falácia ad hominem abusiva

A falácia ad hominem tem o propósito de causar danos diretos à pessoa que argumenta uma ideia. Há nesse esforço a humilhação e o desejo de machucar o outro. Um exemplo deste tipo de falácia pôde ser visto na ocasião em que Donald Trump zombou do jornalista do New York Times.

Outro exemplo é o seguinte:

Pertenço a um partido ecologista porque me preocupo com o meio ambiente.

Você é de um partido ecologista só porque está na moda, não possui valores nem caráter e se deixa levar apenas pelas tendências atuais.

Ad hominem circunstancial

Na falácia ad hominem circunstancial, há a tentativa de atacar uma pessoa por conta da circunstância na qual se encontra (seja ela verdadeira ou não). Estes seriam alguns exemplos:

  • Não podemos aceitar os argumentos de tal político porque ele foi financiado pelos russos;
  • É melhor não confiar neste médico porque ele tem sobrepeso;
  • Não podemos assistir aos filmes do Tom Cruise porque ele faz parte da cientologia.
A falácia ad hominem

Falácia Ad hominem tu quoque (e você também)

A falácia ad hominem também é conhecida como a falácia da hipocrisia. Trata-se de atacar alguém buscando suas próprias contradições, não importando se são reais ou inventadas. Este seria um exemplo simples:

⇒ “Você está me dizendo para parar de fumar? Não faz muito tempo que você fumava dois maços por dia!”

Por fim, como podemos ver, esses tipos de argumentações abusivas são feitas com excessiva frequência em muitos dos nossos contextos. O pior de tudo é que elas possuem efeito, geram impacto e, além de danificar a imagem de quem as recebe, só servem para exaltar quem as emite: as pessoas que usam e abusam de falácias.

Dessa forma, sempre que formos falar ou discutir com alguém, é importante focar exclusivamente nos argumentos que as pessoas emitem. Deixemos de lado aspectos pessoais, circunstâncias e outros tipos de realidades que não têm a ver com o assunto.

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  • Brinton, A. (1985). Una visión retórica del ad hominem . Revista Australasia de Filosofía 63, 50-63.
  • Chaim Perelman y L. Olbrechts-Tyteca, Tratado de la argumentación, Madrid, Gredos, 1989.
  • Walton, D. (1998). Ad hominem arguments. University of Alabama Press.