Felicidade adiada: eu vou ser feliz quando...

01 Maio, 2020
Há quem postergue sua felicidade até o dia em que vai conseguir um trabalho melhor, ou alcançar o corpo ideal com 10 quilos a menos. No entanto, quem coloca uma pausa na sua vida sonhando com o amanhã ideal acaba correndo atrás de um objetivo que se afasta cada vez mais.
 

A felicidade adiada faz com que a mente funcione de um modo que muitos de nós conhecemos bem. São situações nas quais dizemos a nós mesmos: “a minha vida vai ser muito melhor quando eu mudar de trabalho”, ou “eu vou poder fazer essas coisas que eu gosto tanto quando eu estiver de férias”, e ainda “quando eu for aprovado nessa prova eu poderei ver aquela pessoa da qual sinto tantas saudades…”

Por que fazemos isso? Por qual motivo nosso cérebro sonha com a ideia de que tudo será melhor quando alcançarmos ou conseguirmos uma determinada coisa? E ainda, qual é o mecanismo que faz com que imponhamos para nós mesmos o adiamento do bem-estar, dando preferência para outras coisas? Muitos dirão que esse comportamento é puramente uma exigência pessoal muito dura, outros que tais ações definem de um modo muito eficaz o que é a autossabotagem.

Colocar a felicidade em pausa, pensando que o futuro trará coisas mágicas e perfeitas, é uma forma de confabulação. É esquecer o presente enquanto a luz do amanhã ideal nos deixa cegos.

O “se eu tivesse mais dinheiro seria mais feliz” e o “até eu emagrecer eu não vou para a praia” erguem muros invisíveis atrás dos quais distorcemos por completo o autêntico significado da palavra felicidade.

Aprofundemos o assunto a seguir.

Sonho com o tempo
 

Felicidade adiada, um erro de cálculo que nos faz perder a saúde

Vivemos usando um artifício gramatical, no qual a maioria dos nossos pensamentos e desejos vem precedidos pela palavra se. Se eu tivesse mais dinheiro tudo estaria bem, se eu conseguisse essa promoção teria mais status e demonstraria tudo que sou capaz, se eu fosse mais bonito encontraria um namorado… Cada uma das frases que construímos com esse tipo de conjugação é uma forma inútil de sofrimento, capaz de matar as raízes do bem-estar.

A psicologia define essa realidade como síndrome da felicidade adiada. Esse termo explica um comportamento no qual o ser humano está sempre à espera de uma circunstância específica. Que fique claro que, em algumas ocasiões, essa espera é justificada, principalmente quando estamos investindo tempo e esforço com a finalidade de obter algo concreto. Um exemplo desse último caso seria eu vou limitar minha vida social agora para estudar porque tenho uma meta de ser aprovado em um concurso.

Nesses casos, postergar certas coisas tem uma explicação e um fim razoável. Não obstante, a síndrome da felicidade adiada se dá quando a finalidade não é razoável nem lógica. São aqueles argumentos que vão contra eles mesmos e, além disso, que alimentam o mal-estar e o sofrimento. Um exemplo seria começar a segunda feira já pensando no final do semana. Outro, quem acha que tudo ficará bem quando perder peso, quando fizer uma mudança na aparência física.

 

Quem adia e posterga faz isso porque não aceita ou não é feliz com o momento presente, porque não percebe e não sabe aproveitar o potencial do aqui e agora, de onde a pessoa está, seu maravilhoso ser.

Por que postergamos a nossa felicidade?

Apesar do termo felicidade ser bastante difundido, do ponto de vista psicológico ele não é muito fácil de definir. Quer dizer se aceitar, gostar de si mesmo, estar bem consigo mesmo e com o que se possui no momento. É ter uma vida com significado, com uma boa rede de apoio social e recursos mentais eficazes para enfrentar as dificuldades. Nada além disso.

A felicidade adiada esconde, na realidade, uma série de fatos muito concretos:

  • Insatisfação com o que se possui e com o que se tem. A pessoa quer de forma constante algo que está faltando e que considera melhor.
  • Por trás dessa necessidade de colocar a felicidade em pausa esperando a hora em que algo melhor virá, há medo. É um medo de enfrentar o que está faltando. E ao mesmo tempo é insegurança de não se atrever a mudar o que desagrada. Tudo isso deve ser resolvido aqui e agora, com responsabilidade.
Garota segurando flor no campo
 

Felicidade adiada, correr atrás de uma cenoura que nunca será alcançada

Clive Hamilton, professor de filosofia da Universidade Charles Sturt, da Austrália, escreveu um livro chamado “The deferred happiness syndrome” (síndrome da felicidade adiada), no qual explica algo muito interessante. Segundo esse professor, é a própria sociedade de hoje em dia que nos transforma em burros que andam atrás de uma cenoura amarrada em suas cabeças que nunca é alcançada.

Estamos sempre correndo atrás de algo intangível que raras vezes é alcançado, mas que está sempre sendo almejado. E o desejamos porque não somos felizes. A causa desse mal-estar pode ser o trabalho, as condições em que vivemos, a sociedade de consumo que faz com que nós acreditemos, sem descanso, que precisamos de determinados bens materiais para sermos felizes – um telefone melhor, uma peça de roupa de uma marca específica ou um carro novo.

Outro fator é o tempo escasso que nos resta para ser e estar. Para nos reencontramos com nosso interior, com nossos interesses, com as pessoas que amamos… Segundo o doutor Hamilton, deveríamos ser um pouco mais ousados, atrever-nos a tomar novas decisões para alcançar o bem-estar e levar uma vida mais próxima dos nossos gostos e necessidades. Temos que parar de correr e de pensar no amanhã, para pararmos e olharmos para nós mesmos no momento presente…