Fobias alimentares: ter medo de comer e não de engordar

Você sabe em que consistem as fobias alimentares? Elas podem ter consequências graves e limitar significativamente a vida das pessoas afetadas. Continue lendo para conhecê-las.
Fobias alimentares: ter medo de comer e não de engordar

Última atualização: 23 Dezembro, 2020

Quantos tipos de fobias você conhece? Provavelmente, se pensarmos bem, descobriremos que existem centenas de tipos de fobias, algumas mais frequentes do que outras. Fobia de cachorro, de escuro, de altura… São fobias que conhecemos ou que até mesmo já sofremos em algum momento. No entanto, existe um tipo de fobia muito menos conhecida e incapacitante: as fobias alimentares.

As fobias alimentares são uma família de fobias que variam desde o medo de experimentar novos alimentos ao medo de engolir alimentos, passando pelo medo de comer certos tipos de alimentos por medo de sofrer uma intoxicação. A comida é uma necessidade primária, portanto, se for alterada, pode ter consequências graves.

Que tipos de fobias alimentares são conhecidas? Elas estão relacionadas a outros transtornos alimentares, como a anorexia nervosa? Quais são as consequências? A seguir, respondemos a essas e outras perguntas.

Que tipos de fobias alimentares existem?

Em primeiro lugar, o que são as fobias?

As fobias são reações de medo irracional a estímulos inofensivos ou a estímulos que não são tão inofensivos, mas que estão sob controle, por exemplo, porque a pessoa tem os recursos necessários para lidar com eles.

As respostas fóbicas são inadequadas e podem afetar o dia a dia das pessoas, exigindo cuidados e tratamento. Isso é ainda mais importante quando a fobia afeta uma necessidade fisiológica básica, como a alimentação.

As fobias geralmente aparecem desde a infância ou adolescência e são adquiridas através do aprendizado. A experiência direta com o estímulo fóbico e a aprendizagem vicária (pela observação de outras pessoas) são as principais formas de adquirir fobias. Por exemplo, ter engasgado com um amendoim pode ser o suficiente para adquirir a fobia de comer amendoim.

Por outro lado, existe um efeito muito curioso, o efeito Garcia, que está relacionado ao medo de sofrer uma intoxicação alimentar. Esse efeito explica por que rejeitamos sistematicamente alimentos (ou sabores semelhantes a esses alimentos) que nos fizeram sentir mal em algum momento.

Quando sofremos de intoxicação alimentar ou um alimento nos faz mal (mesmo que de forma moderada), ocorre uma aversão condicionada ao paladar, provocada pelo emparelhamento de um determinado sabor com uma sensação desagradável.

Existem muitos tipos diferentes de fobias, mas neste artigo vamos nos concentrar nas fobias alimentares acima mencionadas. O que são e que tipos existem?

Entrando no assunto: as fobias alimentares

As fobias alimentares são uma família de fobias relacionadas a diferentes aspectos dos alimentos. O medo de experimentar novos alimentos, o medo de engoli-los, o medo de ser intoxicado, o medo de comer um determinado grupo de alimentos… Como na maioria das fobias, as fobias alimentares geralmente são adquiridas através da aprendizagem.

A principal consequência é a evitação ativa do estímulo fóbico, o que pode levar a uma restrição exagerada da ingestão e, consequentemente, à desnutrição e a um quadro grave de baixo peso.

Neofobia alimentar: medo de alimentos novos ou desconhecidos

A neofobia é a fobia e recusa em experimentar novos alimentos. Literalmente significa ‘medo de experimentar comidas desconhecidas‘. A neofobia é um fenômeno muito comum na infância, principalmente por volta dos 2-3 anos, e tende a desaparecer após os 5 anos, embora em alguns casos possa persistir na idade adulta.

Existe uma explicação evolutiva para este fenômeno. A neofobia pode ser considerada um mecanismo de defesa, pois em épocas bem anteriores, em que as pessoas coletavam seus próprios alimentos, não rejeitar um novo alimento poderia colocá-lo em risco de intoxicação ou morte.

Portanto, crianças de 2 a 3 anos que rejeitam alimentos não são “comedores ruins”, mas estão se adaptando a novos sabores e texturas que vão tolerando aos poucos (com algumas exceções).

Existe uma predisposição genética para esse tipo de fobia. Estima-se que 78% dos casos de neofobia alimentar sejam hereditários. Além disso, a aprendizagem tem um papel fundamental. As crianças aprendem, em grande medida, observando modelos (pais, irmãos mais velhos). Portanto, é de se esperar que, se em casa elas observam como seus modelos se recusam a provar os alimentos, elas repitam o comportamento por acreditarem ser o correto a fazer.

Menina recusando alimentos

Fagofobia: medo de engolir alimentos

A fagofobia consiste na fobia de engolir alimentos provocada por um medo irracional de engasgar ou sufocar ao engolir. Ao contrário da neofobia, pode ocorrer em qualquer idade e geralmente está associada a um episódio de engasgo.

É lógico pensar que, se estivemos a ponto de nos engasgar com um determinado alimento uma vez, o rejeitemos para não termos que passar pela mesma coisa novamente. O problema é que esse medo pode ser generalizado para outros alimentos e limitar muito a variedade de comida que a pessoa ingere. Ela pode acabar desenvolvendo uma fobia de engolir todos os tipos de alimentos, até mesmo líquidos.

Quando a fobia está relacionada aos alimentos sólidos, a pessoa pode começar a comer alimentos líquidos ou triturados, passando para alimentos facilmente quebradiços e mastigáveis, até chegar a alimentos sólidos de menor ou maior consistência.

Caso a fobia esteja relacionada a líquidos, pode-se começar pelo uso de espessantes e gelificantes que alteram a textura dos líquidos para manter a hidratação do corpo. Progressivamente, a proporção de espessante pode ser diminuída.

Cibofobia: medo de intoxicações ou reações alérgicas

A cibofobia está mais relacionada à segurança alimentar do que ao medo de comer um determinado tipo de alimento. Consiste no medo de sofrer uma possível intoxicação alimentar ou uma reação alérgica. Isso leva os pacientes a verificar minuciosamente o estado dos alimentos antes de ingeri-los, bem como as datas de validade.

Essa fobia está intimamente relacionada ao efeito Garcia, que mencionamos anteriormente. Geralmente está intimamente associada à intoxicação alimentar ou reação alérgica após a ingestão de um determinado tipo de alimento. Porém, embora a fobia, a princípio, pudesse ser circunscrita a um alimento específico, o medo pode ser generalizado para diferentes alimentos de uma mesma família.

Outras fobias alimentares

A micofobia é o medo de consumir fungos ou cogumelos devido à possibilidade de intoxicação. O curioso dessa fobia é que ela não se limita à ingestão de cogumelos, mas pode ser generalizada e causar aversão e medo ao simples fato de vê-los ou tocá-los.

Por outro lado, a lachanofobia é definida como o medo de vegetais. Esse medo pode estar associado a um único vegetal específico ou a uma família inteira de vegetais.

Está intimamente associada a situações traumáticas vivenciadas na infância, relacionadas à ingestão forçada desses alimentos. Por exemplo, ter sido forçado a comer apesar de ter náuseas ou ter que comer o espinafre do jantar anterior no café da manhã. Também pode estar relacionado ao fato de ter encontrado um inseto nos vegetais.

Mulher sem vontade de comer

Fobias alimentares vs. transtornos alimentares

Como vimos, as fobias alimentares, embora comecem associadas a um alimento específico, podem ser generalizadas para outros. Isso pode limitar, além da variedade de alimentos consumidos, a qualidade da dieta em geral, podendo levar a uma perda de peso exagerada.

Esse baixo peso é comum em alguns transtornos alimentares, como a anorexia nervosa. Nesse sentido, a perda de peso é provocada por uma redução deliberada na quantidade e variedade dos alimentos ingeridos, como forma de controlar o peso.

E aqui está a principal diferença. Enquanto nas fobias alimentares o medo se centra em aspectos intimamente relacionados com a própria comida, como a família a que pertencem ou o seu estado de conservação, na anorexia nervosa o medo se centra no medo patológico de ganhar peso.

É por isso que é importante explorar bem o que pode estar por trás do baixo peso, que tipo de medo levou à perda de peso, visto que diferentes distúrbios exigem abordagens distintas.

Para finalizar, algumas observações sobre o tratamento

A intervenção na anorexia nervosa se concentra na reabilitação nutricional de forma a garantir a estabilidade biológica da pessoa, antes de ir para o trabalho cognitivo, distorção da imagem corporal, crenças supervalorizadas em relação ao peso corporal, etc.

No caso das fobias alimentares, se as consequências são graves e se permanecem com a pessoa há muito tempo, pode ser necessário restabelecer o peso como primeira medida. Porém, tratamento da fobia em si deve ser mais voltado para favorecer o contato progressivo com o estímulo fóbico para tentar descondicionar a fobia.

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