Guardarei este pequeno momento para você, até que pare de doer

· agosto 30, 2015

Perdoe-me. Mas não era você.

Você não era minha inspiração. Meu hoje e meu amanhã.

Meu desejo de rir. Meu brilho. Minha luz.

Não era você quem tirava o melhor de mim, desde o fundo da minha escuridão. Não era você quem me levava diariamente ao céu escuro, para acariciar as estrelas.

É que não era você… ou você não queria ser.

E durmo, imaginando esse céu estrelado. Voo desde a minha cama fora de ti, de mim, de minhas lembranças.

Amanhã será outro dia.

A cama está vazia. Muito grande. Muito espaço. E o mais triste é que sempre esteve assim, mesmo que você me acompanhasse nesta noite ou não.

Faço um esforço e me levanto para não olhar esse espaço vazio e escuro.

Um cheirinho de café invade a cozinha. Cheira bem, me reconforta.

Trato de memorizá-lo. Nem sequer tenho uma lembrança nítida. Imagens se aglomeram na minha cabeça a um ritmo frenético. Um beijo no pescoço. Às pressas. Começo a me lembrar…

Que não era você quem me chamava de “princesa” pelas manhãs, e me rasgava um sorriso entre todos aqueles bocejos.

Quem confiava em mim. Quem me disse até sempre. Estou com você. Quem, com um sorriso seu, me presenteava dois mil amanheceres.

Tampouco era eu quem te pedia.

Você nunca foi minha aposta. Meu desejo de me desafiar. Minha luta.

Talvez não fosse eu quem queria lutar…

Perdoe-me.

Adiciono açúcar ao café. Não sei porque faço isso. Habitualmente, gosto do amargo. Talvez hoje eu precise de uma trégua. Como uma espécie de presente. Lembrar gasta muitas energias. Mexo e espero que não queime tanto.

Penso e fecho os olhos. Não lembro de calor… lembro do frio.

Não era você quem fazia meu corpo e minha cama estremecer a cada noite. Sem me importar com as olheiras. Ou o sono.

Não era você quem, num dia de chuva, me empurrava para a rua e me embebia de cheiros e sensações.

Odeie-me. Insulte-me. Talvez isso seja o mais emotivo que tenha saído de você durante todo esse tempo. Algo com uma carga emocional vulcânica. Algo que mova esse seu coração frio. Foi você quem congelou esse coração.

Éramos dois e não um. Possivelmente, era aí onde estava nosso erro. Não é o momento de olhar para trás e nos perguntarmos quem teve culpa de quê. Certamente eu. E perdoe-me, mas é que não era você.

momento

Um gole de café. Temperado. E não tão amargo. Saboreio e me lembro… sabor de nada. Sabor de desilusão, de desencanto, de rotina.

De passeios acompanhados pelo simples fato de não estar sozinho. A um hoje contigo e um amanhã também. As circunstâncias acontecidas, razões ignoradas.

Essas são as piores. As razões que não queremos escutar.

Redemoinho de ruídos. Pessoas, copos. Mais pessoas e mais copos. Até que o corpo chegue a seu limite e dormimos sem pensar. Sem pensar sobre você e eu, não em um “nós”.

É que as ressacas acompanhadas são menos ressacas. Talvez, por isso, tenhamos aguentado tanto. Quem sabe.

Me sobra pouco café, apenas um longo gole, ou dois menores. E tudo trata-se disso. De escolhas depois de tudo… e não sei o que fazer com o café. Eu nunca soube.

Talvez jogue a xícara no chão e ela se quebre em mil pedaços. Mais tarde recolherei os cacos de cerâmica quebrada e limparei o café derramado.

Porque não era você a minha alegria, o meu sonho. Meu cantinho favorito.

Você não era a minha vontade de chegar em casa e desaparecer pelo mundo por algumas horas ao seu lado.

Perdoe-me. Fazer escolhas nunca foi meu forte. Amanhã tomarei outro café. E guardarei esse pequeno momento para você. Até que não doa.

Guarde você as lembranças, porque já não cabe mais nada na minha cabeça.

No fundo sempre soubemos.

Que não era eu nem você.