Gustav Klimt e a busca pela verdade psicológica

30 Março, 2021
Alguns artistas poderiam muito bem ser psicólogos, porque têm pleno conhecimento da psique e da natureza humana. É isso que Gustav Klimt realmente queria mostrar nas suas pinturas.

Gustav Klimt nasceu em Viena em 1862. Ele é conhecido por ser o fundador do movimento de pintura conhecido como Secessão de Viena. Além disso, em 1983, abriu um estúdio independente especializado na execução de pinturas murais.

Enquanto suas primeiras obras tinham um estilo clássico típico da pintura acadêmica do final do século 19, o estilo mais maduro de Klimt surgiu em 1897 graças à fundação da Escola de Viena. Nele, Gustav, junto com outros pintores, conseguiu se rebelar contra a arte acadêmica, praticando um estilo muito decorativo semelhante ao Art Nouveau.

Assim, pode-se dizer que Klimt é essencialmente um artista dessa tendência pictórica, um movimento baseado na criação de uma arte nova, jovem e livre, mas acima de tudo real e verdadeira. Mas por quê? O que realmente escondem algumas das pinturas mais emblemáticas deste pintor?

“A arte é uma linha ao redor dos seus pensamentos.”
-Gustav Klimt-

Obras de Gustav Klimt
Baby (Cradle), Gustav Klimt

Art Nouveau, uma verdadeira arte

É isso que Klimt queria descobrir em primeiro lugar. A verdade é que esse artista se interessou pelo inconsciente, ou seja, queria entender tudo que o movia a pintar uma coisa e não outra. Aquelas forças ou motivos que o moviam internamente a pintar continuamente sobre a mesma coisa, com as mesmas cores e as mesmas formas e figuras.

Um artista interessado, primeiro, na psicologia da sua própria arte, para depois influenciar os processos mentais do espectador. De acordo com um artigo publicado pelo pesquisador e professor da Universidade de Columbia Erik Kandel, diretor do Instituto Kavli de Ciências do Cérebro, alguns artistas como Klimt falam em suas pinturas dos seus pensamentos, do cérebro de quem pinta, mas também de quem os observa e das motivações que os levam a fazê-lo.

Uma pesquisa, que este especialista registrou em um livro chamado The Age of Insight, visa esclarecer o que os pintores de mais de cem anos atrás podem nos ensinar sobre o cérebro. Um livro em que faz perguntas como: o que faz um artista pintar uma obra e não outra? Como o espectador responde?

Essas abordagens revelaram questões psicológicas e neurológicas em torno de como vemos e percebemos a arte, como pensamos e sentimos ou como criamos obras de arte.

Gustav Klimt e seu amor pela sexualidade feminina

Como Kandel relata, Gustav Klimt foi um pintor do inconsciente. Ele tinha uma compreensão notável da sexualidade feminina e foi capaz de enriquecer o nosso entendimento dela. Ele apreciava que as mulheres tivessem uma existência sexual independente da dos homens. Nesse sentido, entendeu que a sexualidade não é uma pulsão pura que sempre existe por si mesma, mas que pode se confundir com a agressão.

Klimt era apaixonado por biologia, lia Darwin e assistia às palestras e dissecações do médico austríaco Rokitansky. Klimt olhou através de microscópios e, dessa forma, passou a incorporar imagens de células e outras estruturas nas suas pinturas, de modo que todas as formas ovais das suas pinturas pretendiam representar óvulos, e as formas retangulares eram seus símbolos para os espermatozoides.

Tudo isso pode ser visto na pintura de O Beijo, mas muito explicitamente na pintura Danaë, na qual Zeus derrama uma chuva de moedas de ouro em Dânae. Os símbolos retangulares indicam que as moedas são, na verdade, espermatozoides, e ela é como uma máquina de reprodução.

Assim, à medida que o observador se move do lado esquerdo da tela para a direita, Danaë converte os espermatozoides retangulares e os óvulos circulares em embriões fertilizados, simbolizando a concepção.

Uma das pedras angulares do pensamento psicanalítico é que a maneira de explorar a mente inconsciente de outras pessoas é explorar primeiro a sua própria. Freud, naquela época, estudava a interpretação dos sonhos, e Klimt sonhava muito com mulheres, então pintava exclusivamente mulheres.

“Toda arte é erótica.”
-Gustav Klimt-

As respostas do espectador a uma obra de arte
Retrato de Adele Bloch-Bauer I, Gustav Klimt

As respostas do espectador a uma obra de arte

O amor pela arte está associado a uma série de sistemas cerebrais, mas influencia particularmente a dopamina, a substância cerebral que modula quase todos os componentes da apreciação de uma obra de arte. Um sistema que é recrutado por amor, vício, comida, sexo e, em geral, todos os reforços positivos e agradáveis.

O psicanalista e historiador da arte Ernst Kris e o historiador da arte Ernst Gombrich argumentaram que qualquer obra de arte é inerentemente ambígua: cada um de nós faz interpretações diferentes, as mesmas que guardamos na memória e usamos para continuar interpretando a realidade e também para gerar novas ideias.

Essa ideia estava em sintonia com a hipótese de que o cérebro é uma máquina de criatividade. Assim, de acordo com a pesquisa de Erik Kandel, se mostrarmos a alguém uma foto do seu objeto de amor, as células de dopamina serão ativadas. Se você for rejeitado em um relacionamento romântico e lhe for mostrada uma imagem do seu amor não correspondido, a resposta celular será ainda mais selvagem.