Helene Deutsch, o feminino na psicanálise

Helene Deutsch foi a primeira na história da psicanálise a se referir especificamente à psicologia feminina. A sua obra e a sua vida inspiraram inúmeras autoras que, como Simone de Beauvoir, queriam abrir o caminho para o feminismo.
Helene Deutsch, o feminino na psicanálise

Última atualização: 12 Março, 2021

Helene Deutsch foi a primeira mulher na história da psicanálise a se dedicar ao estudo da psicologia feminina e a primeira a dirigir a Associação Psicanalítica de Viena. Suas contribuições reduziram o excessivo enfoque masculino que a psicanálise teve até então e serviram de subsídio para a obra posterior de Simone de Beauvoir.

Helene Deutsch é considerada uma das melhores professoras da história da psicanálise. Ela treinou um número importante de psicanalistas com notável sucesso. Como mulher, rebelou-se contra os mandatos do seu tempo e sempre demonstrou possuir vontade e caráter para viver de acordo com seus próprios critérios e padrões.

“As portas fortificadas da igualdade realmente se abriram para as mulheres modernas, mas às vezes eu digo a mim mesma, não é isso que eu quis dizer com liberdade, é apenas progresso social."
-Helene Deutsch-

Seus contemporâneos a definiram como uma mulher extremamente bela e inteligente. A essas virtudes devem ser acrescentadas sua disciplina e perseverança proverbiais. Ela não só era famosa entre seus colegas europeus, mas também escreveu várias das páginas mais importantes da psiquiatria nos Estados Unidos.

Helene Deutsch, uma mulher independente

Helene Deutsch, uma mulher independente

Helene Deutsch era a mais nova de quatro filhos, nascida em 1884 em uma pequena cidade chamada Przemyśl, que até então fazia parte do Império Austro-Húngaro, e hoje pertence à Polônia.

Ela veio de uma família judia de mente bastante aberta; sua família não hesitou em lhe dar acesso ao ensino particular em casa numa época em que era incomum as mulheres estudarem.

Seu pai era advogado e Helene era sua filha preferida. Sua mãe, por outro lado, era uma mulher autoritária e distante, que não expressava afeto pela filha. Embora Helene Deutsch fosse uma criança brilhante, sua personalidade era depressivaIsso se devia à frieza de sua mãe e ao fato do seu irmão mais velho ter tentado estuprá-la.

Aos 16 anos, ela se tornou amante de Herman Liebermann, um homem muito mais velho que ela, que também era casado. Isso causou um grande escândalo familiar e social; no entanto, Helene mal prestou atenção.

Seu amante era um líder proeminente da social-democracia e tinha um relacionamento turbulento com ela. Ela o seguiu quando ele foi eleito para o Parlamento em Viena. Nessa cidade, Helene Deutsch conheceu Rosa Luxemburgo, mulher que serviu de modelo para avançar seu pensamento e seus estudos.

Estudos e desafios

Em 1907, Helene Deutsch começou a estudar Medicina na Universidade de Viena. Naquela época, havia apenas sete mulheres na faculdade e Helene era uma delas.

Logo depois, ela encerrou seu relacionamento com Libermann e se mudou para Munique para se especializar em psiquiatria sob a direção de Emil Kraepelin. Em 1912 obteve o diploma e, quase simultaneamente, começou a despertar seu interesse pela psicanálise.

Naquele mesmo ano, ela se casou com Felix Deutsch, um interno que serviu como médico pessoal de Sigmund Freud. Helene começou a trabalhar como assistente médica na clínica psiquiátrica da Universidade de Viena, onde foi designada para a seção feminina. Essa experiência na clínica desencadearia todo o seu estudo posterior. A partir desse momento, Helene decidiu mergulhar no estudo da psicologia feminina.

Helene Deutsch começou a psicanálise com Sigmund Freud, mas depois de um ano, ele indicou que esta deveria ser interrompida, pois não encontrou sinais de neurose nela. Posteriormente, uma nova análise foi feita, desta vez com Karl Abraham em Berlim. Em 1917 ela teve seu único filho, Martin, que mais tarde se tornou um físico proeminente.

Mulher de olhos fechados

As contribuições de Helene Deutsch

Helene Deutsch nunca foi uma dissidente da psicanálise clássica. Ela assumiu os conceitos essenciais da teoria, mas trazendo uma abordagem diferente.

Ela tentou aplicar todos esses conceitos especificamente à psicologia feminina, tornando-se a primeira psicanalista a escrever um livro sobre o assunto. Principalmente, ela enfatizou o estudo do narcisismo, procurando ver como ele se expressava ou se manifestava em homens e mulheres.

Além disso, Helene ousou abordar questões relacionadas ao erotismo feminino e abriu a psicanálise para um novo campo que, até então, não havia sido tratado: a maternidade.

Ela instigou Freud a explorar mais a psicologia feminina e deu uma interpretação construtiva para a suposta passividade feminina, que definiu como uma introspecção que facilita a intuição.

Junto com sua família, Deutsch imigrou para os Estados Unidos em 1935. Ela se estabeleceu em Boston, onde começou a trabalhar como psiquiatra adjunta no Hospital Geral de Massachusetts.

Sua obra Psicologia das Mulheres tornou-se um dos clássicos indispensáveis ​​do pensamento feminista. Seu marido morreu em 1964 e ela em 1982, com 97 anos. Seu nome e sua obra sempre foram muito valorizados nos Estados Unidos e na Europa.

Helene Deutsch mostrou ao mundo que as mulheres podem ter um bom desempenho em qualquer área, que não são tão diferentes dos homens, e tentou abrir o caminho para a psicologia feminina. Um campo de estudo que, como é normal no mundo dos homens, dificilmente era explorado.

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  • Vallejo Orellana, R. (2002). “Helene Deutsch, pionera en el acercamiento a la psico (pato) logía de la mujer desde la perspectiva psicoanalítica”en Revista de la Asociación Española de Neuropsiquiatría, (83), 93-107.