Hercule Poirot: o detetive que nos ensinou a usar as células cinzentas

02 Maio, 2020
Hercule Poirot é o eterno detetive belga que conseguiu cativar inúmeros leitores de todos os cantos do planeta. Pitoresco e engraçado, conseguiu brincar com os leitores e mostrar que, utilizando as nossas células cinzentas, podemos nos tornar grandes detetives.

Quando pensamos nos romances policiais, frequentemente os associamos aos romances britânicos do início do século XX. Inevitavelmente, nos vêm à mente os seus protagonistas, como Sherlock Holmes, mas o detetive Hercule Poirot não fica muito atrás. Este último homenzinho belga é o tema deste artigo.

Agatha Christie foi a encarregada de dar vida a esse personagem único. Hercule Poirot fez a sua primeira aparição no romance O Misterioso Caso de Styles (1920). A partir desse momento, ele se tornou um dos personagens mais recorrentes da escritora, chegando a protagonizar 33 romances e cerca de 50 contos.

A rainha do crime mantinha uma relação de amor e ódio com o seu personagem; sobre ele, chegou a dizer: “Por quê? Por que eu tive que dar vida a essa pequena criatura detestável, grandiloquente e tediosa? No entanto, confesso que Hercule Poirot venceu. Agora sinto um certo carinho que, embora me custe, não posso negar”.

A fama de Christie cresceu e, ao mesmo tempo, personagens como Poirot e Miss Marple se tornaram muito conhecidos. Alguns de seus livros foram classificados como os melhores do gênero e seu trabalho foi traduzido para mais de 100 idiomas, tornando-a a autora mais traduzida do mundo. As vendas a colocam apenas abaixo de autores como Shakespeare e de obras como a Bíblia e Dom Quixote.

O sucesso com o público nem sempre está ligado à aprovação da crítica; por esse motivo, para muitos, o trabalho de Agatha Christie não deve ser classificado como literatura, mas como subliteratura ou paraliteratura. Em outras palavras, uma literatura projetada para o público de massas. Não há dúvida de que se trata de uma autora facilmente identificável e, em particular, isso se deve a Hercule Poirot.

“A verdade tem o hábito de se revelar”.
– Hercule Poirot –

Descobrindo o detetive Hercule Poirot

Conan Doyle, pai de Sherlock Holmes, era um dos autores favoritos de Agatha Christie. Em seus primeiros romances, identificamos um Poirot que segue a tradição de Sherlock de Doyle e Auguste Dupin de E.A. Poe. No entanto, com o tempo, Christie conseguiu dotar o seu personagem de uma identidade própria, longe de suas influências e dissociando-se da tradição de Doyle.

Não seria justo comparar Poirot com outros detetives do gênero ou tentar encaixar sua sombra no perfil de Holmes. Pelo contrário, ele merece uma análise separada. Poirot é um personagem facilmente reconhecível pelo público, possui um grande número de características distintas que o tornam único e o transformam em um detetive excepcional e peculiar; detestável e adorável ao mesmo tempo.

O detetive Hercule Poirot

Um detetive perfeccionista e cheio de manias

Vaidoso, perfeccionista, metódico, extremamente organizado, um amante das formas quadradas e da simetria, um maníaco e, sobretudo, belga, muito belga. Christie concedeu a nacionalidade de Tintin ao seu detetive como resultado do seu contato com refugiados belgas durante a Primeira Guerra Mundial.

Esse perfeccionismo que caracteriza Poirot se reflete na sua aparência física. Hercule Poirot é descrito como baixinho, rechonchudo, com um bigode pontudo e peculiar. O seu bigode é tão perfeito e bem cuidado que chega a ser engraçado. Tudo nele é perfeitamente calculado, até um pouco de poeira em suas roupas o perturbaria, e não há nada que o incomode mais do que um quadro ligeiramente torto.

Um número interminável de manias e extravagâncias levará Poirot a situações verdadeiramente cômicas, que aliviam a estrutura trágica e macabra pela qual o personagem se move. Essa ideia do risível em Poirot rompe, de alguma maneira, com o tema do tolo burlesco; se afasta do homem desajeitado e bonachão que produz risadas, como Sancho Panza. Poirot é um detetive extremamente inteligente, capaz de desmascarar os assassinos mais atrozes somente com a observação e a ajuda de suas “pequenas células cinzentas”. Ninguém consegue escapar de Poirot, um detetive capaz de entrar na psicologia do crime.

Poirot e o crime

A sua obsessão pela perfeição o leva a buscá-la em qualquer situação, mesmo na cena do crime. As obras de Agatha Christie seguem a mesma estrutura: apresentação dos personagens, o crime, investigação e resolução. Os personagens tendem a ser de classes mais altas, os espaços são reduzidos e os crimes motivados por paixões ou dinheiro. Poirot resolve os crimes sem se sujar, mantendo a ordem e a calma, observando e questionando, usando a psicologia e a razão. 

Desse modo, ele mergulha nas mentes dos criminosos, se conecta com o leitor e com a psicologia. Christie propõe um jogo: ela deixa todas as peças distribuídas ao longo do livro e nós, como Poirot, devemos organizá-las para que tudo faça sentido. Foi assim que Agatha Christie conseguiu combinar as chaves do “o que o público gosta” e “o que vende”; Ela soube como se conectar com o público, mas não tanto com os críticos.

Hercule Poirot no cinema

Esse tipo de obra, com uma estrutura simples e temas atraentes, costuma ser levado para o cinema. Portanto, não surpreende que tenhamos visto vários atores usando o bigode pontudo do detetive belga. Adaptar um romance de Christie geralmente é sinônimo de sucesso nas bilheterias, mas na realidade, é uma faca de dois gumes que só pode ser um sucesso ou se tornar um fracasso completo.

Por que fracassaria uma versão cinematográfica de um personagem tão conhecido e amado? Precisamente por causa da sua fama, sua singularidade e a facilidade que temos para reconhecer o personagem. Se na tela o Poirot que vemos difere demais do detetive dos livros, o sentimento será de profunda rejeição.

Foi o que aconteceu com o pobre Kenneth Branagh em 2017, com seu Assassinato no Expresso do Oriente. Se você não leu o livro, o filme pode ter o seu encanto, mas se você já conhece o personagem, o detetive de Branagh parecerá tudo, menos Hercule Poirot.

Hercule Poirot no cinema

Muita ação, muitas licenças e, acima de tudo, um Poirot muito ágil, magro e sem credibilidade. Poirot nunca teria recorrido à violência, nunca teria se envolvido em situações com muita ação. Ele é um personagem metódico, calmo e descontraído, como os romances de Agatha Christie. Da mesma forma, os fatos narrados em Assassinato no Expresso do Oriente ocorrem em um espaço pequeno e claustrofóbico, com pouca ação e muito diálogo.

Um personagem singular

A chave do trabalho de Christie é descobrir progressiva e dedutivamente, percorrer pequenos espaços bem decorados e luxuosos… Algo que, talvez, não se encaixe muito no cinema de massa do século XXI e, por esse motivo, a versão de Branagh não agradou. Ao mesmo tempo, a sombra de outra adaptação pesava na memória de muitos, a versão de 1974 em que Albert Finney incorporava um grande Poirot.

Talvez a passagem do tempo não tenha favorecido esse detetive. Portanto, ficamos com as interpretações clássicas de Peter Ustinov e, é claro, com o magistral David Suchet, que há anos dá vida a Poirot na televisão. Não é ruim reinventar uma obra, mas diante de personagens tão singulares, pode não ser um grande sucesso. Às vezes, é melhor manter uma boa recordação do que tentar preencher com luzes um local que já é bem iluminado.

Agatha Christie sempre quis acabar com o personagem que a projetou para o sucesso: o insuportável e adorável detetive Hercule Poirot. Por esse motivo, escreveu Cai o Pano, para “assassiná-lo”. A escritora manteve o trabalho em uma gaveta durante anos até que, quando chegasse a hora, as células cinzentas de Hercule Poirot descansassem para sempre. A sua popularidade e o impacto da sua morte foram tão intensos que o New York Times publicou o único obituário da sua história dedicado à morte de um personagem.

“A solução para todos os mistérios se encontra nas pequenas células cinzentas do cérebro”.
– Hercule Poirot –