A heurística do afeto: como sentimos e como pensamos

16 Junho, 2020
Em um mundo cheio de pressa, as emoções mandam. Quase não há tempo para refletir, para pensar melhor, com calma e equilíbrio. Por isso, a heurística do afeto diz que grande parte das decisões que tomamos são orientadas com base no nosso humor.
 

A heurística do afeto diz que as emoções determinam grande parte dos nossos pensamentos e, consequentemente, das nossas próprias decisões. Algo assim tem uma grande relevância, por exemplo, no modo como nos alimentamos, como compramos e como reagimos diante das dificuldades cotidianas da vida, momentos em que nem sempre há tempo para refletir, para pensar melhor.

Em um mundo cheio de pressa, as avaliações baseadas meramente no emocional regem grande parte das nossas condutas. Todos nós gostaríamos, sem dúvida, de ter mais tempo para filtrar e processar grande parte das informações que recebemos. Seria incrível poder interromper o movimento do ponteiro dos segundos e parar o tempo para apreciar de maneira mais descontraída tudo ao nosso redor.

No entanto, isso nem sempre é possível. Por isso, muitas vezes formulamos respostas, seguimos comportamentos e realizamos escolhas em questão de segundos, sem que nada disso passe pela sala mental da análise ou pelo tapete da reflexão.

Especialistas no tema, como Daniel Kahneman, psicólogo cognitivo, Prêmio Nobel e especialista em tomada de decisões, nos mostram um aspecto interessante.

Quando pensamos rápido, muitas vezes não pensamos bem. E não o fazemos por uma razão simples: porque também não nos sentimos bem, porque nosso estado de espírito não está, em todos os casos, o mais favorável. Afinal de contas, as pessoas não podem escolher como querem se sentir, e quando as emoções mais complexas assumem o controle, a realidade se complica.

 

 “Nada é tão grave quanto parece quando você pensa com calma”.
-Daniel Kahneman-

Mulher pensando de olhos fechados

O que é a heurística do afeto?

A heurística do afeto nos lembra de que o mundo das emoções é mais poderoso do que podemos acreditar em um primeiro momento. De fato, os neurocientistas não estão errados quando afirmam que o ser humano é, acima de tudo, uma criatura emocional que, um belo dia, aprendeu a pensar.

Antonio Damasio, neurobiólogo cognitivo reconhecido por seu trabalho como divulgador, nos explica em A estranha ordem das coisas que as emoções, entendidas basicamente como marcadores somáticos, influenciam grande parte do nosso raciocínio. Assim, e embora às vezes tomemos como certo que “controlando o pensamento dominamos as emoções”, a coisa não é tão simples quanto parece.

Heurísticas afetivas: respostas rápidas diante das necessidades cotidianas

Uma heurística é um atalho mental. É uma estratégia que utilizamos para resolver um problema pontual de maneira rápida e mais simples possível. Desse modo, entendemos que as heurísticas afetivas são respostas e escolhas que fazemos de forma inconsciente, baseando-nos em como nos sentimos no momento.

 

Essas avaliações baseadas apenas no afeto (não na reflexão) são rápidas e automáticas. Mas isso significa que qualquer decisão que tomamos com essas heurísticas está errada? A resposta é “não”. Assim como Slovic, Finucane, Peters e MacGregor (2002) explicam, as heurísticas afetivas também partem das nossas experiências.

Estes seriam alguns exemplos simples:

  • Quando tenho um dia ruim no trabalho, saio para fazer compras. Ajo dessa forma porque sei que em outras ocasiões isso fez com que eu me sentisse bem, e essa sensação é agradável. No entanto, há um risco envolvido ⇒ vou acabar comprando coisas de que não necessito.
  • Sou recrutador em uma empresa. Tenho que escolher um candidato entre todos que entrevistei no mesmo dia. Vou escolher aquele que me transmitir mais confiança, independentemente da sua formação ou experiência, porque em outras ocasiões isso me trouxe bons resultados.

Um estudo realizado pelo doutor Paul Slovic, da Universidade de Oregon, indica que esse tipo de julgamento baseado na heurística do afeto ocorre quando as pessoas não têm tempo para refletir ou quando nosso estado de espírito está muito baixo e não podemos pensar com clareza, de maneira mais reflexiva.

Escolha entre dois caminhos
 

O que acontece se eu tomar minhas decisões com base na heurística do afeto?

A heurística do afeto nos mostra que esse tipo de “atalho mental” media grande parte das nossas decisões, sejam grandes ou pequenas. Às vezes, não há dúvida, podemos agir acertadamente ao nos deixarmos levar por esse primeiro impulso, por essa impressão somática, como definida por Antonio Damasio.

No entanto, em uma boa parte das vezes, ao agir de maneira automática e puramente emocional, somos levados por comportamentos prejudiciais e até negativos para nós mesmos. Podemos, por exemplo, desenvolver algum transtorno da alimentação, comportamentos viciantes ou, simplesmente, tomar uma decisão da qual mais tarde vamos acabar nos arrependendo por completo.

Para evitar (ou, pelo menos, controlar) esse tipo de comportamento, não basta apenas excluir por completo o componente emocional da nossa mente. As pessoas são basicamente emoções e, portanto, não devemos separá-las. Em vez disso, devemos entendê-las, gerenciá-las, integrá-las e ter um domínio sobre elas.

O doutor Daniel Kahneman nos explica em seu livro, Rápido e devagar: duas formas de pensar, que deveríamos promover um pensamento mais lento e deliberativo para não nos deixarmos levar sempre pelo primeiro impulso. Equilibrar as emoções com o senso de lógica, passar o sentimento pelo crivo da reflexão adequada, sem dúvida vai nos ajudar a tecer decisões mais meditadas e, provavelmente, até mais acertadas. Devemos, pelo menos, tentar.

 
  • Kahneman, Daniel (2015) Pensar rápido, pensar despacio. DeBolsillo
  • Kahneman, Daniel (2005) Heuristics and biases. Cambridge University
  • Kahneman, D., & Frederick, S. (2002). Representativeness revisited: Attribute substitution in intuitive judgment. In T. Gilovich, D. Griffin, & D. Kahneman (Eds.), Heuristics of intuitive judgment: Extensions and applications (pp. 49–81). New York: Cambridge University Press.
  • Slovic, P., Finucane, M. L., Peters, E., & MacGregor, D. G. (2002). The affect heuristic. In T. Gilovich, D. Griffin, & D. Kahneman (Eds.), Heuristics and biases: The psychology of intuitive judgment (pp. 397-420). New York: Cambridge University Press.