Uma história budista sobre a paciência e a quietude mental

abril 17, 2019
Às vezes, a ação não é a melhor opção, especialmente se for fruto de um impulso. Porque saber esperar e ter paciência também tem seus frutos.

Temos o mau hábito de querer quase tudo instantaneamente, de fazer as coisas imediatamente. Preferimos mudar de opção em vez de ter paciência. Somos mais dispostos a desistir do que a nos esforçarmos, especialmente se os frutos precisarem de tempo para amadurecer.

Ficamos incomodados em adiar a satisfação de nossos desejos, ter que esperar… Nossa mente começa a nos bombardear, através de preocupações e expectativas, para acelerar o ritmo dos acontecimentos.

Assim, vivemos depressa e com muito ruído, tanto interno quanto externo. Vagando de um lugar para o outro, sem nenhum caminho além daquele que marca nossa necessidade de satisfação imediata.

A isto devemos acrescentar o burburinho da nossa voz interior, porque o pensamento parece estar presente em tudo o que fazemos. É como se, de alguma forma, fôssemos viciados nisso. Adoramos pensar, criar hipóteses e nos deixar ser apanhados nos labirintos e círculos viciosos de nossas crenças.

Ignoramos, talvez, a coisa mais importante: como sair dessas armadilhas autoimpostas, como nos libertar de nossas armadilhas mentais. A história budista que se segue nos dá a resposta.

“A mente é um excelente instrumento, se usada corretamente. No entanto, se usada incorretamente, se torna muito destrutiva. Mais precisamente, não se trata tanto de usar a mente erroneamente: você geralmente não a usa, mas ela usa você. Essa é a doença. Você acredita que você é a sua mente. Essa é a decepção. O instrumento tomou conta de você”.
-Eckhart Tolle-

Mulher cobrindo seus olhos

A história budista

Buda e seus discípulos decidiram empreender uma jornada durante a qual atravessariam vários territórios e cidades. Um dia, no qual o sol brilhava com todo o seu esplendor, viram ao longe um lago e pararam para matar a sede. Na chegada, Buda se dirigiu ao seu discípulo mais jovem e impaciente:

– Tenho sede. Você pode me trazer um pouco de água daquele lago?

O discípulo foi até o lago, mas quando chegou percebeu que um carro de bois começou a atravessá-lo e a água, pouco a pouco, ficou turva. Após esta situação, o discípulo pensou “não posso dar ao mestre esta água barrenta para beber”. Então ele voltou e disse a Buda:

– A água está muito lamacenta. Não acho que podemos bebê-la.

Passado um tempo, aproximadamente meia hora, Buda pediu novamente ao discípulo que fosse ao lago e lhe trouxesse um pouco de água para beber. O discípulo fez isso. No entanto, a água ainda estava suja. Ele retornou e com um tom conclusivo informou o Buda da situação:

-A água daquele lago não pode ser bebida, é melhor caminharmos até a cidade para que seus habitantes possam nos dar de beber.

Buda não respondeu, mas também não fez nenhum movimento. Ele permaneceu lá. Depois de um tempo, ele pediu ao discípulo para retornar ao lago e trazer água para ele. Este, como não queria desafiar seu mestre, foi até o lago; é claro que ficou furioso, pois não entendia por que tinha que voltar se a água estava lamacenta e não podia ser tomada.

Ao chegar, ele observou que a água mudou de aparência, parecia boa e estava cristalina. Então, ele pegou um pouco e a levou para Buda. Ele olhou para a água e disse ao seu discípulo:

– O que você fez para limpar a água?

O discípulo não entendeu a pergunta, ele não tinha feito nada, era evidente. Então, Buda olhou para ele e explicou:

– Você esperou e a deixou parada. Desta forma, a lama se assenta sozinha e você tem água limpa. Sua mente também é assim! Quando está perturbada, você só tem que deixá-la parada. Dê-lhe algum tempo. Não seja impaciente. Pelo contrário, seja paciente. Você encontrará o equilíbrio. Você não precisa fazer nenhum esforço para acalmá-la. Tudo vai acontecer se você não se prender a isso.

A arte da paciência para silenciar a mente

Paciência. Esse é o segredo desta história budista. A arte de saber esperar, de respeitar os tempos e de parar quando a ocasião merece – ou precisa -, acima de tudo, de nossos pensamentos. De fato, quanto mais sobrecarregados estamos e maiores se tornam as teias de aranha formadas por nossas crenças, mais precisamos parar.

Mulher de olhos fechados

Não fazer nada, dar tempo ao tempo e esperar é uma boa opção para acalmar a mente agitada ou mente de macaco, como os budistas chamam. Essa que salta de pensamento em pensamento de forma agitada, até que estejamos exaustos e confusos.

Se nos deixarmos levar pela impaciência, raiva, estresse ou frustração, além de nos sentirmos mal, certamente acabaremos tomando decisões precipitadas, resultado de nossos impulsos. O melhor é tomar alguns minutos para respirar, afastar-se emocionalmente do que aconteceu e entrar em contato consigo mesmo. Porque só assim conseguiremos esse estado de quietude mental, como indicado no final da história budista.

Às vezes, não se trata tanto de agir ou fazer algo com urgência, mas de estar em calma e não se deixar levar pelo barulho do imediatismo e do prazer; isto é, aquietar as águas de nossas mentes e esperar o tempo que for necessário. Porque quando acalmamos nossa mente e alcançamos essa quietude mental, as emoções trabalham com nossos pensamentos e somos capazes de adotar outros olhares, outras perspectivas.

“Trata-se de sentar-se em silêncio, observando os pensamentos passando por você. Simplesmente observando, não interferindo, não julgando, porque no momento em que você julga, perde a observação pura. No momento em que você diz ‘isso é bom, isso é ruim’, pulou no processo de pensamento”.
-Osho-