A história de Saroo: 25 anos para voltar para casa

04 Setembro, 2020
Apesar da tecnologia avançada e do controle que ela permite, o desaparecimento de crianças continua sendo um problema significativo. A história de Saroo fala sobre essa questão e mostra até onde ela pode chegar.
 

A história de Saroo parece ter saído da ficção; na verdade, se tornou um filme de sucesso chamado Lion – Uma Jornada Para Casa. O mais bonito de tudo é que, como às vezes acontece no cinema, esse jovem teve que passar por situações dramáticas e comoventes, mas tudo terminou com um final feliz.

A incrível aventura de Saroo começou em uma pequena cidade na Índia chamada Khandwa. Naquela época o menino tinha 5 anos e fazia parte de uma família muito humilde. O pai os havia abandonado para ir viver com outra mulher; a mãe, Ganesh, tinha que ganhar a vida como operária de construção, mas sua renda não era suficiente para sustentar a família.

No total, eram três filhos, contando Saroo. O filho mais velho, Guddu, tinha 10 anos e fazia pequenos trabalhos para ajudar a mãe. Muitas vezes ele foi contratado para varrer os vagões dos trens. Depois, havia Saroo, que em várias ocasiões acompanhava seu irmão mais velho no trabalho; a mais nova era uma menina que estava começando a andar.

“Nós só nos separamos para nos reencontrarmos”.
-John Gay-

O momento fatídico da vida de Saroo

No dia que marcou a história de Saroo para sempre, os dois irmãos saíram para trabalhar varrendo vagões na estação de trem de Burhanpur. O dia foi exaustivo e o pequeno Saroo estava tão cansado que se sentou em um dos bancos da estação e acabou adormecendo. Aquele cochilo mudou sua vida para sempre.

Quando ele acordou, não viu seu irmão mais velho em lugar nenhum. Então, começou a gritar seu nome, mas ele não apareceu. O menino viu um trem em frente à estação e, sabendo que seu irmão Guddu estava varrendo os vagões, entrou para procurá-lo. Guddu não estava lá e ninguém respondia aos seus chamados. O trem partiu para Calcutá e a vida de Saroo foi dividida em duas.

 

Enquanto isso, em casa, a mãe aguardava a chegada dos dois filhos, mas eles nunca mais voltaram. Por conta própria, ela começou a investigar, nas horas vagas, o que havia acontecido. Dois meses se passaram e ela soube que Guddu, o filho mais velho, havia sido encontrado morto. Ele estava em um trilho e um trem partiu seu corpo em dois.

Um pesadelo em Calcutá

Saroo chegou a Calcutá 14 horas depois de embarcar no trem. Ele nem sabia falar bem e também não sabia o nome da cidade onde morava. Então, quando chegou na estação, queria pegar um trem de volta, mas era impossível. Ele ficou naquela estação, dormindo entre caixas e comendo restos do lixo.

Havia uma gangue que sequestrava menores de rua e tentou sequestrá-lo. Ele correu o máximo que pôde e conseguiu escapar, mas não queria voltar para a estação.

As memórias daqueles dias são de fome e angústia. Não fica muito claro como tudo aconteceu, mas um adolescente acabou levando-o para uma delegacia. De lá, ele foi enviado para um orfanato que tinha regras muito rígidas.

Eles tentaram encontrar sua família, mas foi impossível. Algum tempo depois, ele entrou em um programa de adoção e teve a sorte de ser adotado por uma família australiana junto com outro menino da Índia, que também não tinha recursos financeiros. Sua vida mudou completamente quando ele viajou para a Tasmânia com seus novos pais.

Saroo quando era criança
 

O desfecho da história de Saroo

Saroo não conseguia esquecer o passado que havia deixado para trás. Ele ainda se lembrava de seu irmão mais velho, sua mãe e sua irmã mais nova.

Quando ele estava na faculdade, um grupo de amigos e sua namorada decidiram ajudá-lo a encontrar uma informação crucial: a cidade de onde ele vinha. Eles fizeram os cálculos para as cidades que ficavam a 14 horas de Calcutá e começaram a pesquisar no Google Earth.

Outros cinco anos se passaram até que, um dia, Saroo viu uma torre de água no computador que parecia familiar. Ele explorou os lugares próximos e algo em suas memórias começou a se ativar. Depois, reconheceu uma estrada e uma ponte. Disse que saltou de alegria naquele momento, porque aí teve a certeza de que ali estava a sua origem.

O próximo passo da história de Saroo era viajar para sua pequena cidade e começar a procurar. Por intuição, ele chegou na casa de sua mãe, mas ninguém mais morava lá. Apesar de ter esquecido sua língua nativa, ele conseguiu reunir informações e finalmente, um dia, chegou à porta do local onde sua mãe morava.

Ela o observou por alguns minutos e, então, o reconheceu. Saroo conta que esse reencontro, após 25 anos, foi o momento mais feliz da sua vida.

Pouco depois ele soube que seu nome não era “Saroo”, e sim “Sheru”; ele não sabia pronunciá-lo corretamente quando era pequeno. O nome “Sheru” significa ‘leão’. Um ano depois, ele voltou ao local com sua mãe adotiva e completou aquele ciclo de pontas soltas e abraços tão esperados.

 

Somavía, J. (2000). “Los niños perdidos. UNICEF: El desarrollo de las Naciones. Ginebra: UNICEF, 27-30.