História do gato malhado e da andorinha Sinhá - A Mente é Maravilhosa

A história do gato malhado e da andorinha Sinhá

novembro 5, 2016 em Livros 0 Compartilhados
A história do gato malhado e a andorinha Sinhá

A história do gato malhado e da andorinha Sinhá foi criada pelo escritor brasileiro Jorge Amado, já falecido. Como na maioria das fábulas, os seus protagonistas são animais com características humanas. Quase sempre a intenção dessas histórias é deixar um ensinamento ou moral: têm uma função didática e questionam algum aspecto da condição humana.

A estrutura narrativa dessa história está na oposição, ou seja, os seus protagonistas são confrontados a partir de posições subjetivas. No entanto, esse confronto ocorre em condições desiguais. Por exemplo, do ponto de vista social, esta situação poderia acontecer entre alguém da classe alta e alguém da classe baixa. Mas devido a um elemento narrativo imprevisto, a situação é trocada.

O gato malhado

A história em questão acontece entre o gato malhado e a andorinha Sinhá e se desenvolve em um parque muito arborizado e habitado por animais de várias espécies. Com o desenrolar da história percebemos que o tempo, com suas estações, cria uma atmosfera que influencia o humor dos personagens.

“É tão impossível avivar o fogo com a neve quanto apagar o fogo do amor com palavras”.
-Willian Shakespeare-

Jorge Amado descreve o gato malhado como alguém de meia idade, distante da juventude. “Não existia nos arredores nenhuma criatura mais egoísta e solitária que o gato malhado. Ele não tinha relações de amizade com os seus vizinhos e quase nunca respondia aos raros cumprimentos que por medo, e não por gentileza, alguns transeuntes lhe dirigiam.

Nada alterava o dia a dia do parque até que a primavera chegou com as suas cores alegres, aromas inebriantes e sonoras melodias. O gato malhado estava dormindo quando a primavera chegou, repentina e poderosa. Mas a sua presença era tão insistente e forte que o acordou do seu sono sem sonhos, abriu os seus olhos castanhos e esticou os braços”.

Neste novo estado primaveril, o gato malhado experimentou um estado de otimismo incomum. “Ele se sentia leve, queria falar sem compromisso, andar sem rumo e até mesmo conversar com alguém. Olhou em volta com seus olhos castanhos, mas não viu ninguém. Todos tinham fugido”.

No entanto, “no galho de uma árvore a andorinha Sinhá piava e sorria para o gato malhado. Enquanto isso, dentro dos seus esconderijos, todos os habitantes do parque olhavam espantados para a andorinha Sinhá”.

A andorinha Sinhá

Jorge Amado relata como era a outra protagonista da história: “Quando ela passeava, risonha e coquete, não havia nenhum pássaro em idade de casar que não suspirasse por ela. Era muito jovem ainda, mas onde quer que estivesse, todos os jovens do parque se aproximavam.

Ela ria com todos, mas não amava ninguém. Voava despreocupadamente de árvore em árvore pelo parque; era curiosa, gostava de conversar e era inocente de coração. Na verdade, não existia em nenhum parque da redondeza uma andorinha tão bela e gentil como a andorinha Sinhá”.

A andorinha conversou com o gato malhado e chegou até a insultá-lo, um fato que os demais habitantes do parque viram como uma sentença de morte para o pássaro. Seus pais a haviam proibido de se relacionar com os gatos, pois eles eram os predadores naturais dos pássaros. Mas ela ignorou o conselho e conversou com ele.

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Naquela noite, a andorinha “deitou suavemente a cabeça na pétala de rosa que lhe servia de travesseiro e decidiu continuar a sua conversa com o gato no outro dia: – Ele é feio, mas é simpático… – murmurou ao adormecer.

Quanto ao gato malhado, ele também pensava na arisca andorinha Sinhá. No entanto, havia algo que ele não possuía: um travesseiro. Além de feio e mau, o gato malhado era pobre e descansou a cabeça sobre os braços”.

A doença do gato

O gato estava muito cansado e achou que estava doente. Depois percebeu que tinha febre e foi buscar água do lago para se refrescar do ardor que sentia por dentro. E ali, nas águas do lago, ele viu o reflexo da andorinha Sinhá que o observava: “ele a reconheceu em cada folha, em cada gota de orvalho, em cada raio de sol do crepúsculo e em cada sombra da noite que se aproximava”. Quando ele conseguiu dormir, “sonhou com a andorinha e era a primeira vez que sonhava em muitos anos”.

O gato malhado não percebeu que havia se apaixonado; não conseguiu reconhecer os seus sentimentos. Quando era jovem havia se apaixonado muitas vezes, quase todas as semanas, mas nunca deu muita importância a esses sentimentos. Na verdade, ele tinha machucado muitos corações. Quando acordou, se lembrou que tinha sonhado durante toda a noite com a andorinha, mas decidiu não se preocupar com isso.

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No entanto, durante toda a primavera ele seguiu a andorinha Sinhá para conversar e nunca faltava assunto. Logo, começaram a passear juntos pelo parque; ele caminhava pelo parque e ela o acompanhava voando ao seu lado. Vagavam sem rumo e comentavam sobre a cor das flores e a beleza do mundo.

O gato malhado passou por uma transformação. Já “não ameaçava os outros seres vivos, não despedaçava as flores com suas patadas, não eriçava os pelos quando um estranho se aproximava, não repelia os cães eriçando os bigodes, os insultando entre dentes. Ele se tornou um ser suave e gentil, era o primeiro a cumprimentar os habitantes do parque, ele que antigamente não respondia aos cumprimentos que lhes dirigiam”.

O amor tem fronteiras?

No final do verão, a andorinha e o gato jantaram juntos. Enquanto conversavam, o gato não se conteve e lhe disse que se não fosse um gato, a pediria em casamento. “Naquela noite, a andorinha não retornou. O gato tentava entender o que estava acontecendo com ele e se debatia com sentimentos contraditórios. Envolto em tristeza e solidão, decidiu conversar com a coruja”.

No início, conversaram sobre vários assuntos sem importância. Mas a coruja era sábia e percebeu o que estava acontecendo. Sem esperar que ele perguntasse, ela lhe contou sobre os rumores que haviam no parque sobre os seus encontros com a andorinha.

Todos pensavam mal dele e isso o enfureceu. No final, a velha coruja deu a sua opinião: “Velho amigo, não há nada a fazer. Como você pôde imaginar que a andorinha o aceitaria como marido? Nunca houve um caso assim, mesmo que ela o amasse”.

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No entanto, quando o outono chegou, o gato malhado procurou novamente a andorinha. Ela estava séria e distante, já não sorria mais e não demonstrava a mesma simpatia de outros tempos. O gato não conseguia esconder que estava muito triste. No seu coração ressoavam as palavras da coruja e só conseguia passear com a andorinha em silêncio.

Nessa noite, o gato malhado voltou a ser o vilão de sempre. Ele perseguiu o pato preto, assustou o papagaio, arranhou o focinho de um cão e roubou e jogou fora os ovos do galinheiro. Todos os habitantes do parque espalharam a notícia e voltaram a temer o gato que parecia a encarnação da maldade.

O final da história

Depois de alguns dias, o gato recebeu uma carta da Andorinha Sinhá, graças a um pombo correio. Nele, ela dizia que uma andorinha nunca poderia se casar com um gato e que não deviam voltar a se ver.

No entanto, também acrescentou que nunca havia sido tão feliz como durante os passeios pelo parque com ele. Terminou o bilhete com uma declaração que lhe queimou o coração: “Sempre sua, Sinhá”. O gato malhado leu essa carta várias vezes até guardar tudo na memória.

Algum tempo depois, a andorinha apareceu sem aviso prévio. Ela estava tão linda e terna, como na primavera. Agia como se nada tivesse acontecido, como se a distância que os separava tivesse se diluído. O gato estava comovido, mas no final da tarde ele soube da verdade. “Ficaram juntos até que a noite chegou e então ela lhe disse que seria a última vez que ele a veria, porque iria se casar com um rouxinol. Por quê? Porque uma andorinha não pode se casar com um gato”.

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O gato malhado ficou arrasado com a notícia. Durante o casamento, ele não conseguiu aguentar e foi à festa. A andorinha, que conhecia o som dos seus passos, sabia que ele estava lá, deixou que uma das suas lágrimas fossem levadas pelo vento e caíssem nas mãos do gato.

“Isto iluminou o caminho solitário do gato malhado na noite sem estrelas. O gato tomou a direção dos caminhos estreitos que conduzem para a encruzilhada do fim do mundo”. Definitivamente, uma bela história que nos lembra da eterna tristeza dos amores impossíveis.

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