Ilusão da transparência: estou mal e você não percebe

A ilusão da transparência: estou mal e você não percebe

março 28, 2018 em Emoções 156 Compartilhados
Ilusão da transparência: estou mal e você não percebe

Há muitas pessoas que sofrem com a ilusão da transparência. Elas pensam que toda sua tristeza, emoções e desespero são visíveis a olho nu e que os outros são obrigados a adivinhá-los e capturar suas necessidades. Mas nem sempre somos um livro aberto e, portanto, se realmente precisamos de algo, não há escolha: temos que ser assertivos.

Este fenômeno pode nos soar familiar. Na verdade, a maioria de nós já o experimentou de muitas e variadas formas. Por exemplo, quando falamos em público, é comum dizermos a nós mesmos que “certamente todos estão vendo o quão nervoso eu estou”, quando na realidade o público não notou qualquer dificuldade de oratória.

“A ilusão da transparência diz que existem pessoas capazes de acreditar que seus estados internos são evidentes para os outros, que são espelhos que mostram perfeitamente o que acontece em seu íntimo…”
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Além disso, há momentos em que chegamos em casa depois de um dia ruim, um dia como aqueles em que a Lei de Murphy é cumprida em todas as suas declarações. No entanto, nosso parceiro, a nossa família ou as pessoas que nos cercam não conseguem ver em nós uma única marca, nem uma única nuance desse terrível dia.

Nós não somos todos tão transparentes quanto acreditamos ser. Além disso, nossos universos internos nem sempre são telas de televisão ou espelhos que refletem o caos emocional no qual às vezes nos encontramos. No entanto, o fato de não ser assim não deve nos desesperar ou nos irritar. Os outros não têm a obrigação de examinar nossos rostos diariamente para “adivinhar” se estamos bem ou estamos mal.

O ideal e o saudável é que sejamos capazes de comentar naturalmente: “mas que dia ruim eu tive hoje”. No entanto, há pessoas que se irritam e ficam chateadas se as outras não conseguem ler o que está acontecendo, ver magicamente o que as preocupa sem precisar se comunicar…

Homem enfrentando conflito interno

A ilusão da transparência: veja o quanto estou sofrendo!

Carlos e Eva vão comemorar seu aniversário hoje à noite; eles estão namorando há dois anos e reservaram uma mesa em um bom restaurante. No entanto, apenas quando eles estão prestes a sair, Eva percebe que Carlos está levando muito tempo no banheiro. Preocupada, bate na porta e pergunta se está tudo bem. Segundos depois, ele sai e diz que não quer jantar, que não está com vontade.

Eva, preocupada, pergunta o que está acontecendo. Depois de muitas hesitações e reticências, seu parceiro indica que não se sente bem, que não tem coragem de comemorar o aniversário porque ele não acredita que a relação esteja indo bem, porque ela não percebe nada do que acontece com ele. Eva, perplexa, quase angustiada, pergunta o que está acontecendo com ele. “As coisas não estão indo bem no trabalho. É possível que eu seja demitido, eu estou vivendo uma situação angustiante há dois dias e você nem sequer percebeu”.  

A resposta de Eva depois de ouvir isso é simples: “Mas por que você não me contou nada?” Esta situação, por mais impressionante que seja, é mais comum do que pensamos. Aqui não há apenas um claro problema de comunicação, existe um viés cognitivo muito perigoso que nos encoraja a acreditar que os outros podem discernir nossos estados emocionais apenas olhando para nós, como se tivéssemos um radar, um detector infalível de problemas.

Mulher e marido emburrados

Seguindo o exemplo, temos Carlos, uma pessoa que durante vários dias carregou suas preocupações sozinho, junto com sua clara ilusão de transparência. Ele estava tão ciente de sua angústia emocional que deu por certo que sua parceira a veria também e, por mais que a gente se empenha, isso nem sempre acontece.

Nem todas as pessoas dão pistas claras sobre o que lhes acontece. Além disso, há aquelas que acumulam ainda mais tensão e angústia quando percebem que os outros não notam o quão mal estão por não lerem em seus rostos a origem de suas desgraças.
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Você não é um espelho; se quer ou precisa de algo, aprenda a se comunicar

Sabemos que a empatia, a linguagem não verbal e a conexão que temos com as pessoas que amamos nos permitem notar outras necessidades ou realidades internas que não precisam ser expressas em palavras. Agora, às vezes isso pode falhar, e pode acontecer por razões muito diferentes.

Pode-se ler uma emoção, mas não um problema subjacente. Pode-se perguntar “o que está acontecendo com você” e receber um “nada”. A ilusão da transparência é acrescentada, em muitos casos, à falta de eficácia comunicativa e imaturidade emocional. São cavalos de Troia que são frequentemente instalados em relações afetivas e que devemos aprender a gerenciar com maturidade.

Silhueta de casal

Como trabalhar nossa ilusão da transparência

É importante ressaltar que todos, em maior ou menor grau, podem aplicar a ilusão da transparência no dia a dia e nas formas mais variadas. Quando se trata de relacionamentos, é uma dinâmica comum porque, de alguma forma, “precisamos que a outra pessoa adivinhe” o que está acontecendo com a gente, o que está faltando e do que precisamos.

Queremos uma união tão íntima que esquecemos que o amor não dá poderes psíquicos nem mentais e nem sobrenaturais. Não podemos adivinhar tudo o que a outra pessoa pensa e sente. Portanto, devemos levar em conta essas considerações.

  • Não devemos presumir que a outra pessoa tem a “obrigação” de saber o que nos acontece a cada momento.
  • Uma relação afetiva de qualidade se baseia na afirmação, na capacidade de expressar de forma aberta o que sentimos, o que precisamos, o que nos incomoda ou o que nos prejudica.
  • As pessoas não são tão transparentes quanto pensamos, nem nossos parceiros são sempre tão receptivos à intuição de nossos estados emocionais como pensamos. Às vezes a rotina e o trabalho nos deixam menos “perceptivos”, mas isso não significa que não estamos interessados ​​ou que amamos menos.
  • Toda preocupação deve ser expressa e comunicada no momento presente. O que se guarda hoje, amanhã se torna maior e muito mais problemático.

Para concluir, visto que é muito possível que essas situações nos sejam familiares, não hesitemos em trabalhar nesses aspectos para reduzir, sempre que possível, este viés cognitivo comum que é a ilusão de transparência.

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