A inteligência executiva

março 7, 2019
A inteligência executiva é um novo paradigma que nos permite compreender a adaptação do indivíduo ao meio que o rodeia.

Muitas vezes, quando pensamos em inteligência, vem à nossa mente a imagem da inteligência acadêmica. Ou seja, um bom aluno que tira notas altas, uma pessoa que tem um diploma universitário ou um cientista que se dedica à pesquisa. No entanto, essa maneira de ver a inteligência não inclui tudo que esse processo psicológico envolve. Hoje, falaremos especificamente sobre a inteligência executiva.

Sabemos que há múltiplas inteligências e que as entendemos como a capacidade de interpretar a informação que nos chega do exterior, integrá-la com nossas vivências interiores e dar a melhor resposta às condições que enfrentamos.

Os psicólogos entendem a inteligência como muito mais do que o QI, identificando-a com a capacidade de adaptação do indivíduo ao meio no qual se encontra. Ou seja, a inteligência executiva é a capacidade de saber tomar decisões, frear nossos impulsos, refletir sobre o que sentimos e o que pensamos, saber planejar nossas ações e dirigir nossa atenção.

Todas essas habilidades juntas compõem grandes traços que chamamos de inteligência executiva. Neste artigo, explicaremos de maneira fácil o que é a inteligência executiva e também como você pode potencializá-la.

Bases biológicas da inteligência executiva: o lobo frontal (executivo central)

Em primeiro lugar, vale destacar que ao buscar informação sobre as bases biológicas da inteligência executiva, é muito provável que encontremos o termo funções executivas. Isso acontece porque a inteligência executiva foi estudada de maneira separada, habilidade por habilidade ou função por função, e é por isso que os artigos científicos sobre a mesma costumam falar de funções executivas e não de inteligência. No entanto, o termo inteligência executiva é correto e faz referência ao uso de todas as funções em seu conjunto.

Assim, estudar esse tipo de inteligência no plano fisiológico direciona nosso foco ao lobo frontal, especialmente o nosso córtex pré-frontal (controle de impulsos e tomada de decisões). Digamos que é o lobo frontal que dirige e governa o resto das funções conscientes do nosso cérebro.

Sabemos tudo isso porque as pessoas que sofrem acidentes vasculares cerebrais, ou mesmo acidentes neuronais no lobo frontal, perdem suas funções executivas, ou estas ficam muito prejudicadas.

Lobo frontal no cérebro

A literatura científica possui vários casos documentados de como uma lesão no lobo frontal provoca problemas como distração contínua, incapacidade de planejar sequências rotineiras da vida normal, lembrar-se do que estava fazendo e por quê, e sobretudo saber frear impulsos.

Nesse sentido, é muito conhecido o caso de Phineas Gage (Ratiu et al., 2004), que teve parte de seu lobo frontal danificado devido a um acidente. Phineas permaneceu com vida, mas perdeu aquilo que o tornava mais humano: a inteligência executiva.

“A inteligência executiva é a capacidade de saber tomar decisões, frear nossos impulsos, refletir sobre o que sentimos e o que pensamos, saber planejar nossas ações e dirigir nossa atenção”.

Quais habilidades compõem a inteligência executiva?

Autocontrole e saber lidar com os impulsos

O autocontrole é um dos principais componentes da inteligência executiva. O lobo frontal (córtex pré-frontal, próximo das órbitas dos olhos) é responsável por regular nossos comportamentos, avaliar as possíveis consequências de nossos atos e, assim, dizer o que fazer em cada situação.

Em outras palavras, o peso da educação e a pressão cultural recai no lobo frontal e faz parte da inteligência executiva. Esta é uma das hipóteses consideradas para explicar que as pessoas com diagnóstico de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade sejam tratadas com estimulantes que fazem com que seu lobo frontal trabalhe mais.

A regulação de nossos comportamentos é parte da inteligência executiva, saber ficar calado no momento correto e ser capaz de frear um impulso, pelo qual se nos deixarmos levar seremos prejudicados, é inteligência executiva. Este tipo de inteligência está associado à capacidade de saber quando agir e quando é melhor “não fazer nada”.

Assim, a inteligência executiva está associada à capacidade de controlar a impulsividade, e é por isso que uma maneira de treinar este tipo de habilidade é se propor a melhorar o autocontrole. Por exemplo, quando sentir um impulso de fazer algo (comprar, beber ou comer alguma coisa), o simples fato de parar dois segundos e dizer a si mesmo “O que você vai fazer e por quê?” pode ajudar muito a ganhar autocontrole e melhorar este componente da inteligência executiva. Desse modo, você vai conseguir treinar sua capacidade de autorregulação e, portanto, estará trabalhando para ter uma melhor inteligência executiva.

Memória de trabalho

A memória de trabalho foi conceitualizada por Baddeley (1974) e se refere a um processo mais amplo do que a função de armazenamento do conhecimento. A memória de trabalho é o tipo de memória que utilizamos para desenvolver raciocínios, lembrar de coisas a curto prazo, e é a que nos permite elaborar planos de ação e tomar decisões.

Digamos que é o tipo de memória que nos computadores chamamos de processador ou CPU. A memória de trabalho nos permite lidar com grande quantidade de informações ao mesmo tempo e, assim, analisar tudo junto para saber o que fazer, como nos sentimos e quais são os próximos passos a seguir.

Por que a memória de trabalho faz parte da inteligência executiva? Porque ela nos permite estabelecer relações entre diferentes elementos e, em função deles, tomar decisões. Assim, é a memória de trabalho que permite integrar informações, raciocinar e chegar a uma conclusão, incluindo informações de diferentes naturezas. Desse modo, uma forma de potencializar sua memória de trabalho pode ser fazer cálculos mentais.

Planejamento e tomada de decisão

Parte da inteligência executiva é ser capaz de tomar decisões de maneira ponderada no menor tempo possível. Um processo inteligente de tomada de decisão avalia os prós e os contras de cada possibilidade. Ao mesmo tempo, o faz em um nível de profundidade que permite que seja ideal. Uma pessoa com boa inteligência executiva sabe como decidir e faz isso de maneira oportuna e adequada.

O processo de tomada de decisão que realizamos a partir da inteligência executiva implica uma grande capacidade de considerar um cenário além da realidade e de nos movermos mentalmente nos diferentes cenários possíveis.

Por outro lado, também encontramos habilidades de planejamento como um componente da inteligência executiva. A inteligência executiva é responsável por elaborar planos e estratégias para atingir metas por meio do componente do planejamento.

Ser capaz de planejar é uma habilidade indispensável para várias atividades da vida diária. Além disso, é necessária em momentos-chave, como no estudo, na procura de emprego, para se tornar independente ou formar uma família. Para todas essas situações, usamos nossa inteligência executiva e, portanto, é muito útil fazer exercícios que promovam o planejamento e a criação de estratégias.

“Parte da inteligência executiva é poder tomar decisões de maneira ponderada, mas ao mesmo tempo no momento certo”.

Mulher segurando uma nuvem

Flexibilidade cognitiva

Uma inteligência executiva desenvolvida nos permite ajustar nossas ideias às mudanças que vivemos em nossa realidade. Neste sentido, os psicólogos sabem que é muito saudável mudar de opinião, porque a mudança de opinião é um sinal de flexibilidade cognitiva, e isso nos permite adaptar o que pensamos ou tínhamos planejado às circunstâncias do momento.

Além disso, ser flexível no nível cognitivo está relacionado a uma maior capacidade de gerenciar a frustração, pois graças a essa flexibilidade, somos capazes de mudar a maneira como tentamos alcançar um objetivo sem mudar o objetivo.

Da mesma forma, as pessoas que são altamente inteligentes no nível executivo têm uma grande capacidade de se adaptar à adversidade, e isso se deve à sua grande flexibilidade cognitiva. Em outras palavras, queremos dizer que se você tem um plano e as coisas não saem como o esperado, você mantém o objetivo e muda o plano.

Para ter uma melhor flexibilidade cognitiva e, portanto, melhorar sua inteligência executiva, você pode realizar exercícios que fazem você sair da sua zona de conforto, mudar os passos de sua rotina diária e expandir seus interesses pessoais. Quanto mais diferentes forem os estímulos que sua mente recebe, mais flexibilidade você poderá ter.

Raciocínio ou pensamento abstrato

Este componente da inteligência executiva talvez seja o que mais nos distingue como seres humanos. Graças a ele, podemos pensar em termos abstratos, “coisas” que não existem no mundo físico, mas que existem no mental ou emocional e, por sua vez, também podemos pensar sobre o que pensamos (metacognição). O raciocínio abstrato é o que nos permite trabalhar sobre nossas emoções, sentimentos, dúvidas, medos e outros aspectos psicológicos.

Além disso, a inteligência executiva nos permite dar um sentido às nossas vidas, o que alimenta nossa saúde mental. É o raciocínio abstrato que nos ajuda a sentir que a nossa existência vale a pena, o que nos leva a pensar que temos que aproveitar cada minuto que passamos acordados. Sem essa capacidade de raciocínio abstrato, teríamos uma vida excessivamente pragmática e vazia de sentido. Por outro lado, para melhorar o raciocínio abstrato, você pode treinar sua capacidade de introspecção, além de estudar e ler sobre temas relacionados à filosofia e à arte.

Por fim, lembre-se de que a inteligência executiva é uma maneira diferente de compreender a inteligência em si. O maior benefício dessa abordagem é que ela permite um treinamento de seus diferentes componentes e repercute na qualidade de vida das pessoas. Em outras palavras, a inteligência executiva faz parte de um novo paradigma voltado a melhorar a adaptação do indivíduo ao mundo ao seu redor. Siga em frente e treine sua inteligência executiva!

  • Baddeley, A. D. & Hitch, G. (1974). Working memory. Psychology of Learning and Motivation, 8, 47–89.
  • Ratiu, P., Talos, I.F., Haker, S., Lieberman, D. & Everett, P. (2004). The tale of Phineas Gage, digitally remastered. Jounral of Neurotrama, 21(15), 637-643.
  • Marina, J. A. (2012). La inteligencia ejecutiva. Editorial: Ariel.