Interpretar silêncios, uma arte que quase ninguém conhece

março 5, 2020
Para interpretar os silêncios adequadamente, é importante nos sintonizarmos mais com a lógica do outro do que com nossos medos e fantasias. O silêncio sempre diz algo, mas em situações de conflito, é mais saudável recorrer às palavras.

Interpretar silêncios não é nada fácil. Eles nem sempre têm um significado e, quando têm, descobri-lo requer segurança em si mesmo e conhecimento sobre o outro. Por isso, na realidade, é uma verdadeira arte que põe à prova nossas inseguranças, nossos complexos e nossos desejos, explícitos ou implícitos.

Vamos partir da ideia de que nem tudo pode ser dito. Existem sentimentos ou experiências que vão além das palavras. Não encontram um caminho de expressão e, por isso, se tornam uma espécie de silêncio “cheio” de conteúdo. Não é esse tipo de silêncio que vamos abordar, pois correspondem simplesmente à impossibilidade de comunicar tudo.

O tipo de silêncio do qual vamos falar é aquele deliberado. Aquele silêncio em que uma pessoa pede uma resposta de outra e não a obtém. Interpretar os silêncios de alguém que não quer falar se transforma, então, em outra coisa. O silêncio é uma forma de dizer sem falar. O problema é: falar o quê? Vamos analisar mais detalhadamente.

“O silêncio é o ruído mais forte, talvez o mais forte de todos os ruídos”.
-Miles Davis-

Interpretar os silêncios de alguém que não quer falar

Para conhecer a arte de interpretar os silêncios, a primeira coisa que queremos destacar é que eles dão origem a uma situação assimétrica. Em um extremo da comunicação está alguém que exige uma expressão, uma resposta ou uma palavra. No outro polo, está quem fica em silêncio e tem o poder de corresponder ou não a essa expectativa. Isso, evidentemente, confere a esta última um poder sobre o outro.

Porém, a intenção do silêncio às vezes é positiva e às vezes não. É positiva quando ficar em silêncio é uma forma de tomar um momento para refletir ou quando pretende evitar uma situação constrangedora, por exemplo. E não é quando a intenção é ignorar as necessidades do outro ou ter prazer com a parcela de poder que isso produz, ou até esconder alguma coisa.

Para quem espera a comunicação, nunca é fácil interpretar os silêncios. Nesses casos, é muito fácil que venham à tona os medos, as inseguranças e os desejos não realizados. Quem teme ser rejeitado, por exemplo, pode interpretar o silêncio como um sinal de rejeição.

Quem deseja fervorosamente ser amado talvez pense que esse silêncio encerra uma estranha maneira de corresponder aos seus afetos. É fácil se confundir quando o outro fica em silêncio.

Mulher nervosa e preocupada

O silêncio como expressão de confusão

Com frequência, o que um silêncio expressa é confusão. Exige-se uma resposta ou uma palavra que o outro não tem. O outro não sabe como responder e, por isso, evita que suas palavras o comprometam em algo que talvez não seja exatamente o que quer dizer.

Nesse caso, o que prevalece é a insegurança e a dúvida no outro. Não é incomum que isso corresponda a uma forma de não “dar as caras”, de não responder pelos próprios atos. Em quem fica em silêncio, há dualidades que impedem a pessoa de construir uma mensagem coerente que ela possa comunicar.

Ficar em silêncio é um sinal de rejeição

Também existem aqueles silêncios que têm um componente de rejeição. O que o silêncio expressa nesses casos é que uma das partes não quer manter a comunicação com a outra. Não responde porque não tem interesse em manter uma cadeia comunicativa com quem exige a resposta ou a expressão.

Isso acontece com frequência quando alguém quer estabelecer ou manter uma relação amorosa com uma pessoa que não deseja a mesma coisa. Então, ficar em silêncio é uma forma de romper essa linha de comunicação que leva a um encontro amoroso. Também acontece em todos aqueles casos em que existe uma demanda que o outro não pode satisfazer.

Casal discutindo

Interpretar silêncios: dizer e não dizer

Interpretar os silêncios se torna uma faca de dois gumes quando deixamos que esses silêncios fiquem cheios de fantasmas. Para fazer isso corretamente, precisamos de empatia. Olhar para o outro em seu próprio contexto, conseguir nos colocar em seu lugar e nos aproximarmos do que ele quer expressar quando fica em silêncio. Nunca vamos ter uma resposta exata, mas é possível compreender a ideia geral.

Cada um tem o direito de falar ou calar se preferir. É importante compreender isso. Mas também é importante saber que falar sempre é saudável, particularmente em situações que envolvem uma semente de conflito.

Frente a situações problemáticas, é muito mais válido buscar e encontrar as palavras que melhor expressem o que sentimos e pensamos. Assumir posições, tão claras quanto possível, e comunicá-las. Se não tivermos uma resposta para o outro, o mais saudável é informar que não a temos.

  • Noelle-Neumann, E. (1995). La espiral del silencio. Barcelona: Paidós.