A ira transformadora: o arquétipo feminino 

· outubro 18, 2018

Os arquétipos são elementos recorrentes do inconsciente, predisposições da psique humana que correspondem a padrões emocionais, comportamentais e cognitivos. Estes padrões determinam nossa forma de processar sensações, preocupações e símbolos. Além disso, representam diferentes papeis e são de caráter onírico e universal. Neste artigo, vamos tratar do arquétipo feminino e sua essência, a Ira Transformadora.

Para começar, nós devemos saber que tais elementos foram repetidos diversas vezes nos mitos, nas lendas, nas religiões, nos sonhos e na arte durante toda a história. São modelos simbólicos coletivos através dos quais são expressadas uma série de experiências comuns a todos nós.

São desenvolvidas no entorno cultural, não no individual, e são parcialmente herdadas. Expressamos tais arquétipos através de reações emocionais, em nosso comportamento e em nossas projeções aos demais, embora não sejamos sequer conscientes de tê-los ativados. Foi o psiquiatra e psicanalista Carl Jung quem propôs esta construção em seu livro ‘Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo’.

“Uma tendência inata em gerar imagens com intensa carga emocional que expressam a primazia relacional da vida humana.”
-Carl Jung-

Os arquétipos femininos

Nos anos 80, a psiquiatra e analista Jean Shinoda Bolen rompeu com os rígidos esquemas relacionados à mulher que os enfoques psicanalistas tinham, com seu livro “As deusas de cada mulher”. Seu trabalho transformou drasticamente a psicologia feminina ao descobrirmos os esquecidos arquétipos de deusas recuperadas da mitologia universal.

Dentre o amplo elenco de deusas arquetípicas, algumas delas, especialmente as vinculadas à sabedoria, parecem se ativar em nós quando alcançamos a idade madura. Entre todas estas deusas, duas delas são as minhas favoritas. É delas que vou falar neste artigo.

Tenho certeza de que muitas de vocês vão reconhecer este potente arquétipo já ativo em sua psique. Parece que as mulheres se tornam mais radicais contra as injustiças à medida que ficam mais velhas e, de certo modo, muito mais sábias.

Os arquétipos femininos

As deusas da Ira Transformadora: Sekhmet e Khali

As deusas da Ira Transformadora são mulheres capazes de expressar sua raiva. Elas não a negam nem reprimem, nem a dirigem contra elas mesmas. São deusas ferozes, protetoras, de instinto selvagem, mas cada vez mais capazes de se transformar em seres fortes e serenos.

Estas duas divindades eram convidadas para lutar contra os demônios do mundo e para vencer as forças malignas quando nenhuma outra divindade podia enfrentá-los.

Eram deusas guerreiras que, no campo de batalha, inclinavam a balança entre a vida e a morte. Nas duas, acontece uma batalha interior entre a natureza divina e a demoníaca. Sekhmet quase destruiu a raça humana e Khali voltou da batalha com os demônios presos a sua saia.

Ambas têm um aspecto aterrorizante e podem criar vida, conservá-la e destruí-la. Conhecem, por experiência, os horrores do mundo, e se mostram ferozes ao defender uma causa. São as protetoras dos valores, decididas a mudar as coisas para melhor.

O que simbolizam

O arquétipo das deusas da Ira Transformadora simboliza a indignação e a raiva diante de situações pessoais ou sociais injustas. Representa o estado de cólera diante da intolerância e de fúria pela indiferença diante do sofrimento de qualquer ser.

É na idade madura que as mulheres reconhecem muitas dessas situações e reagem dando um soco na mesa e dizendo: Chega! Quando nos vemos dispostas a fazer algo para mudar, o arquétipo é ativado em nós.

As energias arquetípicas da Ira Transformadora são a representação da feroz compaixão feminina. Mulheres enfurecidas em protesto contra o que é inadmissível. É uma ruptura com o desvio de olhar, com o se conformar com as coisas. É o ponto de inflexão que atravessamos quando sabemos que as coisas não podem continuar assim.

A mulher e os arquétipos femininos

Equilibrando com sabedoria

A Ira Transformadora é um arquétipo muito poderoso, por isso é preciso saber detectá-lo e controlá-lo quando ele está em funcionamento. Uma vez ativado, proporciona uma energia que pode ser devastadora para aqueles que nos cercam e, pior ainda, para nós mesmas.

A Ira deve ser equilibrada com a sabedoria para que se transforme em Ira Transformadora e funcione na direção correta. Não se trata de reprimir nossa raiva, nem de escondê-la ou negá-la, como fomos ensinadas a fazer desde pequenas. Mas é necessário equilibrá-la.

A sabedoria da experiência nos proporciona conhecimento suficiente para saber conter o primeiro impulso de devolver o insulto. O olho por olho nos leva a uma sucessão de violência e nos torna hostis e obsessivas.

É necessário canalizar a raiva e transformá-la em atos organizados e dirigidos sabiamente para mudar um acontecimento, uma situação ou uma injustiça. Trata-se de colocar as mãos à obra e traçar um plano que nos leve ao nosso objetivo. Sem esta sabedoria, a raiva só se transforma em cólera.

O objetivo da Ira Transformadora é o de dirigir os corações furiosos para melhorar suas próprias vidas e para criar um mundo melhor e mais justo.