J.K. Rowling e o amor pelo erro - A Mente é Maravilhosa

J.K. Rowling e o amor pelo erro

junho 7, 2017 em Curiosidades 0 Compartilhados
J.K. Rowling e o amor pelo erro

Não é preciso nenhuma apresentação sobre quem é J.K. Rowling para a maioria das pessoas que estão lendo este artigo, mas como sempre existem os desavisados… ela é a autora de Harry Potter, e se me permitem, parte da juventude de mais de uma geração. A sabedoria popular possui um provérbio que afirma que por trás de um grande homem costuma haver uma grande mulher (e vice-versa). Assim, retornando a essa mesma estrutura, podemos dizer que por trás de qualquer pessoa com sucesso há uma história com a qual podemos aprender.

Ainda mais quando se trata de um escritor, já que costumam pecar em, sem poder evitar e a maioria sem nem tentar evitar, introduzir parte de suas experiências pessoais em suas histórias.

“Tendo a usar datas significativas. Quando preciso de uma data ou de um número, uso algo relacionado a minha vida pessoal. Não sei porque faço isso… é um tique. O aniversário do Harry, por exemplo, é o meu. Os números que aparecem ou as datas que estão nos livros têm relação comigo”.
– J.K. Rowling –

Biografias que, frequentemente, estão carregadas de erros. De fato, há pouco tempo ouvi um escritor – cujo nome não me lembro – dizendo que algo que sua profissão lhe tinha ensinado era “fazer cestas”. Ou seja, jogar bolinhas de papel no lixo quando tinha escrito coisas que não funcionavam ou não serviam, e aceitar isso como parte de seu trabalho.

Assim, ao fim de nossas vidas temos uma lixeira cheia de papéis contendo nossos erros, e não há mal nenhum em aceitá-los: é uma lei que está escrita em nossa condição humana. Não falo de erros que sejam enganos objetivos, mas sim de erros que nos fazem sentir.
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Os primeiros passos de um projeto são modestos

Talvez você esteja se perguntando por que demônios comecei este artigo falando de J.K. Rowling. Bom, fiz isso porque, para escrevê-lo, usei como inspiração o discurso que ela deu no encerramento de um curso na  Universidade de Harvard em 2008. Ela o fez poucos anos depois de, segundo suas palavras:

Tinha fracassado em uma escala épica. Um casamento de duração excepcionalmente curto havia sido rompido, não tinha trabalho, era uma mãe solteira e tão pobre como é possível ser na Grã Bretanha, sem ser um mendigo”.
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Além de espectadores, as histórias de superação nos despertam sentimentos positivos. A verdade é que da forma que ela usa para falar disso entende-se que, sem esse casamento terminado e sem essa crise, hoje Harry Potter dificilmente existiria. Ela afirma que sua intenção quando começou a escrever Harry Potter não era alcançar o sucesso que tem hoje, mas sim fugir, esclarecer suas ideias e, de alguma forma, colocar sua vida em ordem..

Pense que sonhar alto costuma exigir grandes investimentos, ainda mais rodeados de tantas propagandas que nos dizem o que se não tivermos determinada coisa não alcançaremos o que queremos. Não seremos tão bonitos, não teremos tanto sucesso, não vamos parecer tão simpáticos…

Além disso, começar com pretensões e investimentos modestos faz com que possamos assumir o preço dos erros que podemos vir a cometer. Nos permite contar com uma margem de manobra no caso de nos atrasarmos ou deixamos o projeto parado por algum tempo. Se não tivermos condicionado toda a nossa vida a esse projeto, a saída para tomar um ar será mais fácil.

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O medo do fracasso

O medo do fracasso pode ser um feitiço paralisante, mas também pode ter um efeito motivador. Transformar-se em um ou outro depende de vários fatores. Talvez o primeiro deles seja o amor próprio. Uma pessoa que se reconhece e se respeita vai sair da água quando notar correntes que tentam arrastá-la para o fundo. A pessoa que pensa que não tem nada para resgatar vai se auto-abandonar, e o fundo não vai servir nem mesmo para pegar impulso.

Também depende das pessoas com as quais contamos. Curiosamente, em Harry Potter acontece um paradoxo que se repete de maneira invariante em todos nós: uma certa tendência à solidão precisa conviver com a necessidade de nos relacionarmos, já que somos animais sociais. É o fracasso, ou a ameaça do mesmo, que nos mostra com quem podemos contar. São essas pessoas que ficam, estejam ou não de acordo conosco. Seu amor não é condicional às nossas aspirações ou nossos pertences, e sim ao que somos.

O medo do fracasso pode ser um feitiço paralisante, mas também pode ter um efeito motivador.
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Se você quiser fazer algo, os primeiros passos terão que ser dados em solidão

Dizem que a maioria dos adolescentes se sentem incompreendidos… e a maioria dos universitários, dos jovens trabalhadores, dos trabalhadores adultos, dos trabalhadores idosos e a maioria dos aposentados. A verdade é que pouquíssimas pessoas recebem o apoio de alguém quando se apresentam como candidatos a uma meta. 

No caso dos adolescentes, a incompreensão costuma ser refletida nos pais. J.K. Rowling viveu essa incompreensão em sua própria pele quando seus pais rejeitaram a ideia de que ela estudasse literatura inglesa em vez de línguas modernas. Ela também diz que há uma data limite para culpar seus pais por te guiarem na direção errada. Assim, transcender essa data é, por si mesmo, um exercício de maturidade, já que implica deixar de culpar os demais – nesse caso os pais – por suas falhas e assumir a responsabilidade pelos mesmos.

Dessa forma, as falhas proporcionam a prudência necessária para a pessoa imatura, que se caracteriza por sua impulsividade. Também dão uma dimensão ao que alcançamos, seja porque tenhamos perdido depois ou porque nos sentimos muito perto dessa possibilidade. Assim, existem muitas pessoas que não têm consciência de suas conquistas até que sentem que podem perdê-las ou que as tenham definitivamente perdido.

Finalmente, o fracasso nos conduz a momentos de crise nos quais o imprescindível se revela com toda sua força… e o imprescindível não é mais aquilo com o que contamos; o que contamos sempre será nós mesmos e o que aprendemos, tanto subindo quanto caindo. Assim, quando você fracassar, não feche os olhos, pois isso não tem nada a ver com se recriar com a tristeza e com o abandono, tem a ver com a fé em voltar a subir os suficiente para que você possa ver novamente o sol.

Procure fazer com que o menor número possível de elementos se rompam em sua queda, mas acima de tudo, proteja seu amor próprio. Será ele e não outro que, quando os fantasmas aparecerem, irá colocá-lo em movimento, evitando que você fique paralisado.

Era livre, pois meus maiores medos haviam se materializado, e ainda estava com vida, e ainda tinha uma filha que amava, e ainda tinha uma máquina de escrever e uma grande ideia. E, então, as pedras do chão se transformaram nos fundamentos sobre os quais reconstruí a minha vida.
– J.K. Rowling –

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