José Saramago: a biografia do escritor que falou sobre a cegueira social

· abril 7, 2019
Uma das obras mais notáveis de José Saramago foi 'Ensaio Sobre a Cegueira', um trabalho que nos convida a uma profunda reflexão sobre a alma humana e aquilo que, aos nossos olhos, já é invisível.

José Saramago foi a voz mais notável das Letras portuguesas. A excelência de sua escrita lhe permitiu obter o Prêmio Nobel, e algo que sempre o caracterizou foi sua faceta de homem comprometido. Assim, obras como Ensaio Sobre a Cegueira se lançam como um veículo excepcional para a catarse e a reflexão filosófica, um legado que nos convida a “despertar”.

Frequentemente, dizem que Saramago foi um agitador de consciências. Nunca parou de denunciar injustiças e de se posicionar perante qualquer conflito de sua época. Por isso, em uma de suas palestras, ele definiu a si mesmo como um escritor apaixonado, alguém com a necessidade de levantar qualquer pedra, mesmo sabendo que embaixo poderiam estar escondidos verdadeiros monstros.

Essa busca da verdade e esse empenho por despertar mentes lhe permitiram dar forma a um estilo literário único. Fazia uso de parábolas sustentadas com imaginação, ironia e compaixão para esboçar para nós uma realidade perante a qual ninguém pudesse ficar indiferente.

Após a morte de José Saramago, sua obra continua sendo reeditada em diferentes idiomas. As novas gerações continuam descobrindo sua voz e admirando essa personalidade poliédrica, que almejou inclusive completar a Declaração Universal dos Direitos Humanos com sua Carta de Deveres e Obrigações.

Foi o escritor mais ilustre que Portugal nos ofereceu, juntamente a outros autores como Fernando Pessoa. Saramago é responsável por uma obra provocadora, mágica e inquietante que nos convidou a analisar o presente através de seus olhos.

“As três doenças do homem atual são a falta de comunicação, a revolução tecnológica e sua vida centrada no triunfo pessoal”.
-José Saramago-

José Saramago quando jovem

José Saramago, um estudioso de raízes humildes

José de Sousa Saramago nasceu em 16 de novembro de 1922 em Golegã, Portugal. Seus pais foram José de Sousa e Maria de Piedade, um casal de raízes humildes que ganhava a vida com seu trabalho na terra. Quando o pequeno José tinha dois anos, decidiram se mudar para Lisboa em busca de uma vida melhor.

Estabelecidos na capital portuguesa, desfrutaram de uma certa estabilidade. Seu pai começou a trabalhar como policial, e ele teve a oportunidade de cursar o ensino básico. Frequentou uma escola industrial durante anos até que seus pais não puderam mais pagar para que tivesse uma formação mais avançada.

Desse modo, não teve outra escolha a não ser começar a trabalhar em uma oficina mecânica. No entanto, além dessa atividade profissional com a qual José Saramago ganhava a vida, ele mantinha outra em paralelo: a de estudioso. Não parou de ler, de aprender por conta própria, e sobretudo de escrever. Assim, com 25 anos, publica Terra do Pecado. No mesmo ano, 1947, também nasce sua filha, Violante, fruto de seu primeiro casamento.

O amadurecimento de um escritor e jornalista comprometido

A partir de 1955 José Saramago começa a traduzir ao português as obras de Hegel e Tolstoi. Ao mesmo tempo, ele se esforça para dar um amadurecimento adequado ao seu estilo, para ter alguma oportunidade de alcançar o sucesso com seus escritos. No entanto, apesar de seu talento, nenhum editor se atreve a colocar seus trabalhos no mercado.

Após a rejeição de sua obra Clarabóia, José Saramago demorou vários anos até tentar de novo. De fato, isso não ocorreu até 1966 quando voltou a tentar com Provavelmente Alegria e mais tarde com O Ano de 1993. Ambas obtiveram o reconhecimento das editoras, de modo que começou a colaborar com a editora portuguesa Estúdios Cor.

Tendo chegado ao sucesso literário, José Saramago sentiu a necessidade de embarcar no jornalismo. Começa a trabalhar no “Diário de Notícias” e, mais tarde, no “Diário de Lisboa”, chegando a ser editor adjunto e comentarista político.

José Saramago

No entanto, após a chegada da Revolução dos Cravos em Portugal, em 25 de abril de 1974, decide se dedicar exclusivamente à escrita. Era uma figura reconhecida e respeitada, e ansiava dar ao mundo mais trabalhos, mais livros. Em 1976, publica Os Apontamentos, obras de teatro como A Noite (1979) e livros de contos como Objecto Quase (1978).

O Prêmio Nobel 

Nos anos 1980, José Saramago já era um autor mundialmente conhecido. Conquistou a consagração literária com Memorial do convento. Posteriormente, chegariam A Jangada de Pedra (1986), o polêmico O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) e, sobretudo, Ensaio Sobre a Cegueira (1995).

Sua escrita estava mais refinada, e seus livros mais comprometidos. Com isso, no ano de 1998, o Comitê de Estocolmo (Suécia) lhe concedeu o mais elevado reconhecimento: o Prêmio Nobel de Literatura. Nessa época, já vivia entre duas terras: Lisboa e Lanzarote (Ilhas Canárias). Neste último local, compartilhava a vida com sua última esposa, Maria del Pilar del Río Sánchez, jornalista e tradutora espanhola.

José Saramago faleceu em 18 de junho de 2010 devido a uma leucemia. Tinha 87 anos e havia começado um novo romance, do qual havia escrito apenas 30 páginas.

Ensaio Sobre a Cegueira

Não são cegos, “estão cegos”. Com essas palavras, José Saramago dá forma a uma das metáforas argumentativas mais inquietantes de sua obra. Em Ensaio Sobre a Cegueira, fala sobre a incapacidade do ser humano de reconhecer o próximo. Ele nos transforma de repente em seres infames, criaturas que precisam da orientação dos outros para compreender e sobreviver.

Essa obra é uma profunda reflexão sobre a alma humana. É um romance distópico, perante o qual ninguém fica indiferente ao descobrir como o ser humano ficou suspenso em uma espécie de cegueira branca que se espalha como uma infecção. O governo decide, então, deixar os doentes em quarentena, submetendo-os a duras normas.

Dentre esse grupo de pessoas que protagonizam a narração, apenas uma consegue enxergar: uma mulher que decide acompanhar seu marido nessa clausura sendo, ao mesmo tempo, seus olhos e um olhar prestativo que tenta ajudar os outros. No entanto, todo o cenário é opressivo. No há higiene, os soldados não hesitam em disparar quando alguém se aproxima demais e a degradação começa a se apoderar do lugar. Tudo adquire, de repente, as cores de uma verdadeira ditadura. O caos reina, e a esperança é lentamente consumida.

Pessoas vendadas representando a cegueira social

Estamos, portanto, diante de uma obra que nos apresenta, acima de tudo, a cegueira da alma humana. Essa incapacidade de nos reconhecermos entre nós mesmos que evoca o egoísmo, a perda da razão, o conflito e o medo. Um cenário no qual José Saramago nos convida a uma corajosa reflexão moral.

Ensaio Sobre a Cegueira é um livro, sem dúvida, impactante, que se lança como uma das grandes obras da literatura contemporânea, à qual sempre vale a pena voltar (ou descobrir pela primeira vez).

  • Saramago, José (2001) Ensayo sobre la ceguera. Alfaguara