Wetiko, o “vírus” do egoísmo segundo os nativos americanos

· dezembro 3, 2018

Segundo alguns nativos americanos, o Wetiko é um espírito ruim que costuma invadir a mente do ser humano. Trata-se do “vírus” do egoísmo, um agente patogênico psíquico que obriga a pessoa a alimentar suas próprias necessidades como um ser faminto que nunca se satisfaz. Tal presença nos leva a um tipo de involução na qual, mais cedo ou mais tarde, a humanidade se torna o seu pior inimigo.

Essa curiosa e ao mesmo tempo inquietante visão é descrita em um livro de leitura quase obrigatória. Foi Paul Lévy, conhecido admirador do legado de Carl Jung e colunista regular no jornal “The Guardian”, que deu forma a um trabalho digno de reflexão intitulado “Dispelling Wetiko” (Dissipando o Wetiko, tradução livre). Segundo ele mesmo afirma, vivemos um momento em que grande parte dos fenômenos psicossociais que nos cercam mostram que o “vírus” do egoísmo está mais presente do que nunca.

Wetiko é uma palavra usada pelos nativos americanos para designar uma pessoa diabolicamente má que não se importa com o bem-estar ou a integridade de seus semelhantes.

Agora, o legado que Levy quer nos deixar com seu livro está longe de ter uma mensagem negativa, de repressão ou advertência, muito pelo contrário. Todo vírus procura um anfitrião para invadir e do qual se nutrir. Entretanto, cada um de nós pode colocar barreiras defensivas adequadas e fortalecer nosso “sistema imunológico” psicológico para que isso não aconteça.

É uma reflexão interessante na qual vale a pena nos aprofundarmos…

Lobo com paisagem florestal

Wetiko, o egoísmo humano e o conceito de sombra de Carl Jung

O historiador Jack Forbes explicou em seu livro “Colombus and Other Cannibals” que quando as comunidades indígenas tiveram contato com todos aqueles conquistadores europeus, que procuravam invadir suas terras e seu mundo, os definiram como pessoas infectadas pelo Wetiko. Foi a tribo dos Cree do Canadá que usou essa definição pela primeira vez, ainda que os Ojiwa, por exemplo, usassem o já conhecido termo “Windigo”.

Seja como for, a visão que tinham do homem branco ou “civilizado” era de um ser afetado pelo “vírus” do egoísmo, uma entidade maligna que os fazia querer para si próprios a força vital e os recursos da natureza e do resto dos seres humanos. Por sua parte, Paul Lévy explica em seu livro que essa ideia é a mesma que Carl Jung utilizou para falar sobre o conceito de sombra, um arquétipo do inconsciente que, na realidade, todos nós compartilhamos.

Assim, dimensões tão comuns como o ciúme, a ganância, o anseio pelo domínio e o próprio egoísmo, são na verdade produto de nossa coletividade inconsciente, nossas sombras mais escuras, e o “eu” dissociado da consciência é o que se deixa levar pelos piores atos. Poderíamos dizer, portanto, que aquele espírito maligno já definido pelos índios americanos era para Jung uma entidade diferente, algo que nunca veio de fora para nos possuir, mas sim que sempre esteve no nosso interior.

Na verdade, todos carregamos dentro de nós essa sombra, mas cabe a nós dar a ela mais ou menos poder…

Pessoa diante de vidro

Como vencer o vírus do egoísmo

Podemos vencer e eliminar o “vírus” do egoísmo de nossas vidas. Um modo de conseguir é nos familiarizando com o que Carl Jung chamou de “daemon”, o demônio de nossa sombra. Assim, algo que deveríamos ter evidente desde o início é que esse demônio se nutre e cresce a partir da ganância, da inveja, do desprezo ou da necessidade de domínio. Todas essas dimensões tiveram, por sua vez, efeitos terríveis ao longo da nossa história.

A maldade de Wetiko governou nossa realidade durante muito tempo. E mais, nos dias de hoje, avança com facilidade por muitos de nossos grupos sociais mais comuns. Nós damos poder ao vírus, o obedecemos e nos deixamos levar. Por isso, como Carl Jung nos explicou no seu tempo em livros como “Ao encontro da sombra”, nossa responsabilidade está em nos tornarmos conscientes disso e fazermos com que todos os impulsos que navegam em nossos abismos inconscientes sejam, também, conscientes.

Se todos nós nos deixássemos levar por esses impulsos, de possuir o que o outro tem, de manipular nossos familiares em benefício próprio ou de obter o máximo de benefício possível ainda que o custo fosse prejudicar os demais, cairíamos em uma psicose coletiva na qual todos nós acabaríamos nos perdendo. O egoísmo não é um mal moderno, é uma doença antiga que ainda não erradicamos.

Rosto faltando pedaços

Paul Levy revela de forma quase iluminadora que para trabalhar nossa própria sombra e conseguir, assim, dissipar ou dissuadir o Wetiko, devemos praticar a autorreflexão. No fim das contas, esse demônio interno nada mais é que todo o conjunto da nossa personalidade, ainda que não desenvolvida, não trabalhada e negligenciada.

É uma parte de nós mesmos que escondemos: ao fazer isso, permitimos que ele procure seu alimento, que se nutra da cobiça, da inveja e do desprezo para preencher seus vazios. Sejamos, portanto, capazes de curar o “vírus” do egoísmo trabalhando nossos conflitos internos, potencializando nosso conhecimento pessoal e lidando com essa sombra que diminui nossa qualidade de vida e o próprio conceito de humanidade.