Ketamina: uma droga ilegal como futuro da depressão

Ketamina: uma droga ilegal como futuro tratamento da depressão

Abril 14, 2018 em Psicologia 0 Compartilhados

A ketamina é uma droga conhecida por ser utilizada em festas para potencializar a descontração, e é muito comum nestes contextos. Este composto foi sintetizado pela primeira vez em 1962 como analgésico para aliviar os feridos em zonas de guerra. Além disso, muitos veterinários o utilizam para anestesiar cavalos.

Desde 2006, psiquiatras começaram a descobrir seu potente efeito antidepressivo. No entanto, o problema que apresenta são suas características e perigosos efeitos colaterais. Se dedicarmos alguns minutos à exploração da farmacologia da depressão, perceberemos que o prozac e sua versão genérica, fluoxetina, foram substituídos por outros tipos de antidepressivos mais específicos.

Um bom uso e administração dos mesmos conseguiu potencializar seu efeito, reduzindo os sintomas colaterais e agindo de forma mais específica para os sintomas que devem ser tratados.

Um exemplo disso são os antidepressivos de terceira geração, como a venlafaxina, que funciona muito bem para depressões que caminham junto com uma ansiedade generalizada. E assim, graças ao medicamento, a disposição do paciente em realizar atividades físicas melhora, de maneira que a energia produzida encontra, no movimento, uma forma de se dissipar.

Ainda assim, 1 em cada 3 pacientes com depressão severa continua sem responder aos tratamentos prescritos e as recaídas acontecem em 75% dos casos (dependendo do tipo de depressão e paciente). Com este panorama, não vale a pena considerar outras alternativas?

A depressão no mundo atual

Embora queiram silenciá-la, nem mesmo celebridades, músicos ou programadores do Silicon Valley conseguem escapar dela. O próprio Andrés Iniesta falou sobre depressão em sua autobiografia, assim como Bruce Springsteen. A depressão será, em alguns anos, a principal causa de invalidez.

Mulher sofrendo de ansiedade

O problema é que hoje em dia, apesar dos avanços, ainda não contamos com tratamentos ou intervenções multidisciplinares que sejam efetivas para todos os casos. Daí surge a necessidade de investir em pesquisas e de continuar explorando novas opções.

A conscientização sobre a ecologia, a saúde mental e a distribuição de conhecimento e a riqueza marcarão presença nos próximos anos. Além do mais, é bom que isso aconteça se quisermos sobreviver como espécie e, inclusive, migrar a outros planetas.

Todas estas mudanças influenciam o nosso humor; o estresse se transforma em tristeza e existe uma maior quantidade de pessoas que se sentem desconectadas do mundo em todo esse processo de mudança.

Por outro lado, apesar do contexto poder influenciar, a depressão é assunto desde a época de Hipócrates, e ao longo da história foi adquirindo diferentes significados.

A depressão severa e o estresse pós-traumático: pessoas que não conseguem se reconciliar com o mundo

Além dos sintomas relacionados com a alteração do sono, apetite, abulia, tristeza e irritabilidade, tanto no estresse pós-traumático como na depressão severa, existe um sentimento de perda de controle e conexão com a realidade que rodeia os pacientes. Tudo isso leva a um profundo sentimento de desesperança. Seja desencadeada ou não, a depressão arranca o sujeito do mundo ou vice-versa.

Os inibidores seletivos de serotonina, como o prozac, junto com terapias cognitivo-comportamentais, parecem ser a melhor opção para melhorar o estado do paciente. Concretamente, o componente de “ativação comportamental” é o que melhor funciona.

Boca calada por medicamentos

A medicação aparece somente para melhorar os sintomas em depressões muito severas, atípicas ou com sintomas vegetativos. Além disso, o tratamento farmacológico não parece mostrar vantagens com respeito ao psicológico de forma isolada ou a médio-longo prazo. Não parece, então, uma opção muito atrativa, especialmente se considerarmos os inúmeros efeitos colaterais.

O efeito dissociativo: o elemento distintivo da ketamina comparada a fluoxetina

Como comentamos acima, os antidepressivos mais comuns agem como inibidores seletivos de recaptação de serotonina no âmbito pré-sináptico aumentando, assim, sua presença no cérebro. Algo parecido com “deixar o prazer durar mais”, ativando o mecanismo da “felicidade” de forma artificial, estimulando seu principal neurotransmissor.

No entanto, nem todas as depressões severas melhoram de maneira significativa com este tratamento farmacológico. Em muitos casos, este estado impede o início de uma terapia psicológica. Então, como a ketamina pode ajudar em tudo isso?

A ketamina não pode ser administrada sem um controle médico estrito.  Neste sentido, estão sendo realizados muitos testes que apresentam resultados surpreendentes. O mais revolucionário seria isolar a molécula que consegue todos os efeitos positivos (potentes e rápidos), eliminando, assim, a parte do composto que produz a maioria dos efeitos colaterais.

Se a compararmos a outros antidepressivos, a rapidez e o grande efeito produzido por ela é o que marca a diferença a favor da ketamina. Por outro lado, este composto sintetizado oferece experiências alucinógenas e alterações dissociativas que acontecem num segundo: o “eu” se desdobra de repente e vê uma realidade alheia, talvez além da dissonância cognitiva extrema na qual seu “eu habitual” vive com respeito ao mundo.

Ketamina

Quando a pessoa parece se reconciliar com o mundo sob os efeitos da ketamina, não sabemos se ela é capaz de experimentar uma realidade paralela. Neste sentido, parece que a experiência perceptiva alucinatória ativa os sentidos da pessoa de tal forma que amplifica suas sensações: tanto é assim que as lembranças desagradáveis não teriam espaço nessa “nova realidade”.

Talvez seja a realidade e os estigmas que criamos em sociedade o que adoece as pessoas. Talvez sejam os produtos sociais que enfraquecem as defesas emocionais e o que causam este efeito túnel em nossa visão, que só permite que vejamos portas fechadas.

De uma forma ou de outra, a verdade é que a depressão cada vez mais se apresenta como um desafio maior: sua incidência está aumentando e a efetividade dos tratamentos, terapias e planos de intervenção precisa evoluir para poder dar uma resposta efetiva a todos os casos. Será que a ketamina faz parte da solução?

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