La Casa de Papel: heróis ou criminosos?

maio 31, 2019
'La Casa de Papel' evoca a busca pela liberdade, a recuperação de valores que parecem esquecidos. É o renascimento de Robin Hood, um Robin que não usa mais arco e flecha, mas que se modernizou. 

La Casa de Papel é uma das séries espanholas mais bem-sucedidas dos últimos anos. Começou como uma série de televisão, até que a Netflix a adquiriu e a catapultou para a fama internacional. Estreou em 2017 e continua fazendo sucesso. Parece que La Casa de Papel veio para ficar, mas, a que se deve seu êxito?

Parece que tudo aquilo que não é de língua inglesa encontra inúmeros obstáculos em sua distribuição. Mas graças à internet e às novas formas de divulgação, podemos nos aproximar de produções de outros países que, de outra forma, certamente nunca teriam chegado a nós. Por este motivo, podemos garantir que grande parte do sucesso de La Casa de Papel se deve à Netflix.

No entanto, uma série não triunfa apenas graças ao meio de distribuição. Além disso, também deve conter ingredientes que atraiam a atenção do espectador. La Casa de Papel é a história de um assalto. Não de um assalto comum, mas de um assalto em grande escala; não roubam ninguém, roubam o “peixe mais gordo do aquário”. Uma série onde ladrões que utilizam nomes em código e que não se conhecem seguirão as ordens do cérebro desta difícil operação: “O Professor”. Todos eles, com exceção do Professor, entrarão na Casa da Moeda da Espanha com a “simples” missão de fabricar 2,4 bilhões de euros.

Eles têm 11 dias, reféns e tudo pensado ao milímetro. De fora, o Professor dará as ordens e negociará com a polícia para ganhar tempo. Uma série claustrofóbica e com identidade própria, ambientada pela música partidária de Bella Ciao e pelas máscaras de Dalí (reivindicando sua procedência), que não deixará ninguém indiferente.

Robin Hoods contemporâneos

Robin Hood roubava dos ricos para dar aos pobres. Hood vivia à margem da lei, lutava contra o sheriff (figura de poder e opressão), era o herói dos pobres. Vemos que um bandido não precisa ser um homem mau, pode perfeitamente se tornar um herói, um homem bom. Há uma concepção clássica do herói que está intimamente ligada à ordem; um herói que é enquadrado dentro das normas e do que é estabelecido como correto dentro da sociedade.

Pensemos, por exemplo, em muitos dos heróis medievais, como El Cid. El Cid foi banido pelo rei Afonso, sofreu injustiças e, no entanto, nunca se rebelou, nunca enfrentou ou tentou invadir seu território. Os heróis medievais mantinham lealdade a um rei, a uma figura superior e poderosa. Além disso, a honra e a lealdade eram questões fundamentais na Idade Média e também nos séculos posteriores. Inclusive, atualmente é estabelecido um sistema considerado bom e tudo fora dele será “o mal”.

Robin Hood está fora da norma e, no entanto, o consideramos bom. Por quê? Porque encaramos a ordem como injusta, como um órgão opressor que promove a desigualdade. Robin Hood é um herói que dificilmente se encaixaria no mesmo arquétipo de El Cid, apesar de ambos possuírem raízes medievais. Este herói que quebra as regras possui seus próprios parâmetros de justiça e, para Robin, o mal e a figura opressiva são o poder e a autoridade.

Desafiar as regras propõe uma sociedade mais justa e igualitária e, como resultado, atrai as massas. É exatamente isso que vemos em La Casa de Papel, um grupo de ladrões liderados por um cérebro inigualável que, longe de serem considerados vilões, geram esperança na sociedade.

La Casa de Papel

Heróis e vilões

A barreira entre herói e vilão fica confusa toda vez que o opressor exerce seu poder, toda vez que ele sufoca os oprimidos. Qual é o núcleo da vida contemporânea? Sem dúvida e sem pensar muito, o dinheiro. Assim, o dinheiro é o centro regulador do nosso mundo, o que determina se podemos viver melhor ou pior e o que confere poder aos opressores.

Robin rouba dos que mais tem para dar àqueles que mais precisam; é um justiceiro. Os ladrões de La Casa de Papel não darão aos necessitados, mas farão o que todos nós queremos fazer: acessar o centro do poder e, a partir daí, destruí-lo. Não destruí-lo literalmente, mas ao acessá-lo, demonstram que o poder também pode falhar e ser burlado.

Na série, vemos a influência dos meios de comunicação, como as notícias são manipuladas e, ainda, como a opinião pública se posiciona a favor dos ladrões. Esses heróis da justiça que agem à margem da lei têm sua origem não apenas em Robin Hood, mas também no romantismo. Há uma corrente romântica que nos traz personagens marginais que remete à liberdade.

Vemos um exemplo disso em Espronceda, especificamente em suas canções. Espronceda criava personagens que eram projeções do eu, do eu romântico; ele nos traz personagens como “La Cautiva”, “El Cosaco”, “El Verdugo”… e, claro, “El Pirata”.

A canção do pirata supõe a exaltação do herói romântico absoluto, um pirata cujo único objetivo é viver em liberdade. Ele é um herói individual, justo e generoso que rejeita os valores do mundo e vive no mar porque não há lei. Além disso, é um personagem muito recorrente no romantismo europeu; autores como Lord Byron o incluíram em seus poemas.

Este pirata que deseja viver em liberdade é um reflexo dessa luta contra o herói romântico estabelecido. Assim, grande parte do sucesso de La Casa de Papel se deve ao fato de que nós, como os espectadores fictícios das notícias da série, exaltamos esses personagens como heróis dignos de admiração, heróis que lutam por sua liberdade.

La Casa de Papel, a verdadeira mensagem

La Casa de Papel, a verdadeira mensagem

Além do roubo, o que La Casa de Papel propõe é duvidar do estabelecidoNão é por acaso a escolha da música Bella Ciao como tema da série. A música corresponde a uma música partidária da resistência contra o fascismo na Itália. Muito tem sido dito sobre se a música se tornou mainstream por causa da série e, talvez, em parte isso seja verdade. Mas muitas pessoas que a cantam não sabem o que realmente significa.

A verdade é que, graças à série e aos meios de comunicação, a mensagem parece, de certo modo, ressuscitar. Ou seja, a partir de um meio grande e poderoso pode-se recuperar certos valores do passado que pareciam adormecidos, assim como acontece com a máscara de Guy Fawkes em V de Vingança.

Além disso, até a máscara de Dali parece ter adquirido, em parte, um novo significado. Este tipo de manifestação se encaixa muito bem no formato da série, se aprofunda na sociedade e gera um forte impacto. Em um mundo tão controlado e dominado pelo dinheiro, às vezes precisamos acreditar em heróis que nos resgatem, não heróis de capa e espada, mas heróis revolucionários que nos convidam a pensar e a recuperar a luta pela liberdade.

La Casa de Papel é uma série que nos traz precisamente isso, heróis de todo tipo, alguns de moralidade duvidosa, mas no fim, heróis. Ocasionalmente, a série peca na lentidão e nas tramas talvez muito melosas pelo clima tão sufocante que apresenta. No entanto, nós a perdoamos por nos brindar um canto à liberdade.

“O que é o meu barco? Meu tesouro; o que é o meu Deus? A liberdade; minha lei? A força do vento; minha única pátria, o mar”.
-Espronceda-