Lágrimas de emoção de uma criança com autismo no show do Coldplay

Essas são as lágrimas de emoção de uma criança com autismo no show do Coldplay

setembro 9, 2016 em Psicologia 203 Compartilhados
autismo

Este vídeo foi gravado em um show do grupo Coldplay no México. O momento em questão e as músicas do grupo foram capazes de sintonizar com as emoções de um menino com autismo e seu pai. Este maravilhoso e intenso momento foi então compartilhado pelos pais da criança nas redes sociais, e desde então já deu a volta ao mundo.

As imagens têm um grande poder, um poder que nos emociona e também nos dá esperança na mudança do conceito e da ideia que se tem sobre as pesseoas que possuem as características do espectro autista. Ver um pai e seu filho com autismo tão pequeno se conectarem dessa forma, compartilharem juntos esses instantes e deixarem-se levar pela emoção é algo muito precioso.
Ao mesmo tempo, esse vídeo serve para introduzir a luta contra a crença que hoje é muito enraizada que afirma que as pessoas com autismo nada sentem e não se emocionam. Essa é a mesma crença que acompanha a expressão “autista” quando é usada para referir-se a alguém que está desconectado do mundo ou inclusive de si mesmo (tal e qual define tristemente o conceito médico).

O vídeo que está dando a volta ao mundo

É certo que as pessoas com o transtorno do espectro autista têm dificuldades na hora de se conectar com o mundo ou de se colocar no lugar do outro, de sair de sua realidade para entrar na realidade de outra pessoa. No entanto, o autismo não impede ninguém de sentir. De fato, muitas vezes só podemos compreender os autistas através da expressão de emoções que o ambiente faz surgir. Essa é uma das razões pelas quais a emoção desse instante vivido por essa família está ultrapassando fronteiras: 

“Eu te amo”, uma grande lição de amor de um menino com autismo

Como já vínhamos falando antes do vídeo, é uma crença popular errônea que as pessoas com o transtorno do espectro autista não têm emoções nem sentimentos. Talvez essa crença venha do fato de que para explicar o autismo usamos a metáfora da bolha, o que faz com que acreditemos que eles estão desligados do mundo e que não compreendem o que sentem.

Como resposta a essa falsa ideia gostaria de apresentar um relato sobre o amor de Raquel Braojos Martín “O que é amar?”. Premiado como o melhor conto de “Conte-me sobre o a autismo”. Tenho certeza de que depois da leitura você ficará sem palavras…

” -Ei, me falaram que os autistas não têm sentimentos. Seu irmão sente amor e essas coisas? Ou não sente nada?

A primeira vez que me fizeram essa pergunta senti uma mistura de indignação, fúria e, para que negar, dúvidas. A primeira vez que me perguntaram eu era uma criança, encolhi meus ombros, fixei o olhar no chão e neguei veementemente. Eu adorava o meu irmão mais novo e ficava aterrorizada com a ideia de que ele não sentia nada por mim. Era muito pequena para compreender que gostar não é só dizer um punhado de palavras, não era falar “eu te amo”, e senti medo. Um medo que não pude controlar.

Naqueles anos Rubens não sabia falar, mas se agarrava a nós com suas pequenas mãos. Só a nós, sua família. Não sabíamos se era raiva, carinho, ou uma maneira de aliviar seu estresse. Anos depois aprendeu a falar, e “eu te amo” foi uma das coisas que insistimos muito em ensinar a ele. E assim foi, ele passou a dizer, repetir, mas isso não parecia ser mais real do que seu agarrar, ainda que ficássemos encantados de ouvir.

Esse era o problema. A maioria das pessoas acredita que só há um modo de gostar de alguém, o nosso modo. Esperamos que todos passem por um mesmo filtro de conduta. Isso é curioso porque nós sabemos dizer eu te amo, mas também somos capazes de machucar os outros, de usar os sentimentos alheios a nosso favor, somos conscientes da dor e das mentiras. Eles jamais nos machucariam. Nós que não somos puros nem cristalinos. Podemos de verdade dar o exemplo de como amar?

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E ainda que a dúvida sobre se meu irmão gostava de mim sempre tenha sobrevoado minha mente, como um passarinho inquieto e insistente, lembro com clareza a primeira vez que soube que meu irmão gostava de alguém:

Nosso tio Daniel costumava nos levar para passear e sentia uma adoração especial por meu irmão. Rubens também gostava muito de estar com Daniel, o obedecia e ria muito com ele. Meu irmão indicava o caminho que devíamos seguir e pobre de quem não quisesse seguir por ali.

Mas Daniel morreu. Foi repentino, de um dia para o outro, ninguém esperava. Foi muito difícil explicar para meu irmão que não haveria mais passeios, que não veríamos mais nosso tio, que ele não estava mais lá. Daniel deixou de aparecer, mas não se foi da mente do meu irmão. Quando, passado um tempo, voltamos a fazer os mesmos passeios com nosso avô, meu irmão costumava me dizer:

-Você lembra? Passeio com o tio Dani.

Alguns de vocês podem pensar: “Ah, rotina, característico do autismo, não é que gostava do tio, só que estava acostumado com ele. Fazia falta como qualquer outro aspecto da rotina.” Isso poderia ser verdade nas primeiras semanas, nos primeiros meses, até no primeiro ano. Mas não depois.

-Que tem aí? – Perguntei ao meu irmão já adolescente quando o encontrei revirando um baú. Ele rapidamente tentou esconder, como se fosse algo vergonhoso. Forcei um pouco com ele e tirei o que tinha nas mãos. Era uma foto de uma reunião familiar muito antiga. Nela estava nosso avô, nosso primo e nosso tio Daniel, eu também estava na foto. Havia passado vários anos desde a morte do tio Daniel, e a rotina do meu irmão não podia ser mais diferente do que naquela época. De fato, Rubens passava as tardes grudado no seu videogame. Os passeios não aconteciam mais, nosso avô, quem também costumava nos levar para passear nos mesmos lugares, estava com uma doença degenerativa.

-Que foto mais bonita – eu disse.

-Eu não posso – disse ele tentando esconder outra vez.

-Claro que pode – respondi- Gosta da foto? – Em um primeiro momento não entendia o que via de especial em uma foto em que ele não estava.

-Eu gosto sim. Tio Dani – apontou para a imagem – Quando era pequeno com tio Dani.

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Seus olhos resplandeceram e suas mãos se moveram esperançosas, como se estivessem a anos tentando me mostrar. E eu senti, claro que eu senti. Inclusive chorei, com um pouco de emoção: aquilo era amor.

– E quem é essa menina que está sobre os joelhos? – eu perguntei.

– Você pequena.

Quando nosso avô morreu, meu irmão, além de olhar para suas fotos, também teve outra reação: entrava na casa de minha avó e, em vez de ir diretamente para a sala, corria pelo corredor, abria a porta do antigo quarto de nosso avô, onde havia passado seus últimos anos doente, e olhava para seu interior. Era como se pudesse ver suas memórias assim. Como se esperasse encontrar nosso avô deitado na sua cama. Outras vezes Rubens se sentava na cadeira de rodas e ficava parado estático, à espera.

Às vezes, anos depois, quando achava que ninguém estava olhando para ele, meu irmão voltava a abrir uma fresta na porta do quarto. E falava dos doces, das brincadeiras, dos passeios, do boné, dos “eu vou dizer ao seu pai!”. De se avô Paco, de seu avô Damian e de seu tio Daniel. Falava de nossas três ausências e o fazia com o olhos brilhantes. E me procura a mão, e me leva consigo para o computador para me ensinar os descobrimentos da semana: séries que quer ver, constelações que quer memorizar, mapas, fotos, canções. E insiste, ainda que eu esteja ocupada.

Porque ele gosta que eu esteja em seu mundo, fazer com que eu faça parte dele. Nem sempre, claro que não. Mas quando quer estar com alguém sempre nos escolhe, sua família. Estamos no topo da sua pirâmide. Quando se cansa de sua própria solidão começa a gritar pelos nossos nomes. Porque o amor não são palavras que voam, promessas vazias, canções, poesias, nem carícias. Amar é pensar nas pessoas que te importam, é sentir saudades das que não estão. Amar é isso e nada mais. Obrigada irmão, por me ensinar isso.

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