Conhecemos a realidade em pedaços, nossa mente inventa o resto

Conhecemos a realidade em pedaços, nossa mente inventa o resto

15, agosto 2016 em Psicologia 3 Compartilhados
Conhecemos a realidade em pedaços, nossa mente inventa o resto

Talvez você nunca tenha parado para pensar, mas sua mente funciona aos pedaços. Você recebe a realidade como se fossem peças de quebra-cabeças – várias por cada direção – e tem que executar o trabalho fascinante de integrá-las para formar um todo, que chamamos de realidade.

É um trabalho constante e contínuo em que não são apenas peças que chegam dos nossos sentidos. Também se misturam por ali, de maneira silenciosa, sentimentos, pensamentos, opiniões ou memórias.

Os pedaços do romance

Há algum tempo eu li uma história deliciosa que começava assim: “Eu comprei um romance e meu cachorro comeu o início, o fim e várias dezenas de páginas aleatórias do restante antes que eu tivesse tempo de começar a ler”.

Nós também observamos o mundo exterior dessa maneira, como se fosse parte de uma história que o nosso cachorro comeu com algumas mordidas. No entanto, não temos consciência disso, já que nossa mente une e cria a realidade onde não há informações, de maneira que a história faça sentido.

Não podemos mudar a realidade

O conto continuou: “Depois de obrigar meu cachorro a refletir sobre seu comportamento inapropriado, mostrando-lhe repetidamente o lugar onde estava o preço, me dispus a avaliar os danos causados e a tentar salvar o que poderia ser salvo”.

Conforme mencionado acima, é muito difícil fazer uma avaliação da parte da história que nos falta, porque a nossa mente é responsável por fechar esses buracos quase de maneira automática. A verdade é que, na maioria dos casos, ela faz isso mal e os remendos ficam bastante escondidos, é por isso que nos custa tanto identificar a sua existência.

Separar o que é informação do que não é mais do que uma hipótese mais ou menos provável é uma tarefa voluntária e geralmente mais difícil do que a de implementar esses remendos. Por outro lado, não se esqueça de que o nosso cérebro segue exatamente a navalha de Occam e costuma apostar na hipótese mais econômica para ele.

Água harmonia

Há algo errado em completarmos o que falta?

Na maioria dos casos, não. Contamos com um cérebro bastante inteligente. Por exemplo, se nos disserem que alguém levantou cedo hoje de manhã, vamos supor que ela não levantou depois das 10h, ou mesmo antes.

Por outro lado, se nos disserem que o João chegou tarde ao trabalho esta manhã, assim como na semana passada e talvez na anterior, talvez pensemos que João não é uma pessoa pontual e que não deve levar seu trabalho a sério. O fato de pensar que é por “isso ou por aquilo” é uma informação que está grampeada ao fato e se armazena dessa maneira.

Nossa mente está preparada e, em muitos casos, utiliza as hipóteses que mais nos convêm. Uma hipótese alternativa para os atrasos de João pode ser que ele tem um problema que realmente o impediu de chegar na hora certa. Porém, para nós, esse é um cenário mais complicado.

Mãos formando um quadrado selecionando uma parte da paisagem

A nossa mente nos protege

Por que a hipótese de que João tem um problema é mais complicada para nós do que a de João ter perdido interesse pelo trabalho? Porque a primeira nos obrigaria a perguntar. Podemos perguntar a João diretamente, mas não o conhecemos bem o suficiente para perguntar sobre a sua vida. Também podemos perguntar a alguém que o conheça, mas o mais provável é que a pessoa vá franzir as sobrancelhas, pensar que somos fofoqueiros e nos dar uma informação que nos possa induzir a um erro ainda maior. Por outro lado, se João tiver um problema e pudermos ajudá-lo, não deveríamos ajudar?

Sentados tranquilamente no nosso posto de trabalho passaríamos a despertar nossa consciência. Quando ela desperta, pode ser uma verdadeira chatice porque nos distrai com facilidade e acabaria nos obrigando a fazer algo pelo problema de João.

Dito isto, a nossa história termina: “O desenlace do romance pareceu especialmente afortunado: um dos personagens mais interessantes e atraentes passou a acreditar, não sei por quê, em uma acusação de assassinato, quando era óbvio que em todas as páginas anteriores não se havia matado ninguém, e nem sequer insinuado tal atrocidade. A polícia está prestes a prendê-lo quando o inspetor tira um charuto e, sem sabermos se ele fuma ou não, o romance termina”.

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