O legado de Sigmund Freud para a neurociência

· abril 22, 2019
O legado de Sigmund Freud para a neurociência é chamado de "inconsciente". O pai da psicanálise foi um dos pioneiros em nos fazer ver que as pessoas não estão conscientes de grande parte dos processos realizados pelo cérebro e pela mente.

O legado de Sigmund Freud para a neurociência é agora mais válido do que nunca. O famoso psicanalista de Viena foi pioneiro em muitos aspectos, sendo o mais notável em demonstrar que uma grande parte dos nossos processos mentais é inconsciente. Ele não precisou de ressonância magnética para nos fazer ver que a nossa mente tem um potencial imenso e quase desconhecido.

Hoje vivemos em um contexto que muitos cientistas querem batizar como “neurocultura”. O termo “neuro” já precede um grande número de campos de estudo que emergem quase como que por magia. Temos o neuromarketing, a neuroeducação, a neurocriatividade, a neuroeconomia…

A maioria das ciências já entendeu que ‘tudo o que é e faz o ser humano’ é iniciativa desse órgão sensacional. Conhecê-lo, saber como ele trabalha, como ele processa as informações e responde ao que nos rodeia nos ajudará a entender melhor o nosso comportamento. Nas palavras de Fernando Vidal, professor de sociologia da Universidade de Barcelona: as pessoas não têm cérebro, as pessoas “existem” a partir do cérebro.

Isso faz com que, hoje, neurologistas como David Eagleman agradeçam as bases que Sigmund Freud estabeleceu em sua época com as suas teorias, estudos e ensaios. O seu legado está mais vivo do que nunca.

“A mente é como um iceberg, flutua com uma sétima parte do seu volume na água”.
– Sigmund Freud –

O inconsciente

O legado de Sigmund Freud para a neurociência

O legado de Sigmund Freud para a neurociência se chama inconsciente. Eric Kandel, neurologista e Prêmio Nobel de Medicina, escreveu em seu livro The Age of Insight (2012) que ainda hoje devemos muito mais coisas do que pensamos ao pai da psicanálise. Agora, deve-se notar que muitas das suas teorias estão obsoletas hoje.

Os especialistas concordam, por exemplo, que as suas contribuições para o campo da sexualidade são insustentáveis atualmente. Ele foi um pioneiro neste caminho para entender o que somos.. Muitas das patologias de que ele falou (lembre-se da histeria feminina) não fazem sentido no presente. No entanto, tudo relacionado aos processos mentais e ao conceito revolucionário do inconsciente, indubitavelmente marcou um antes e um depois.

Por isso, é necessário aprofundar um pouco mais o impacto que muitas das suas declarações tiveram (e têm) no campo das ciências.

O malvado bruxo vienense

Sigmund Freud recebeu críticas constantes pelas suas teorias inovadoras. Foi esse homem que se atreveu a interpretar os sonhos. Ele se levantou como uma figura que descobriu a importância do inconsciente e queria abrir um caminho para alcançar esse universo oculto na mente humana.

Agora, como ele mesmo disse uma vez, toda teoria revolucionária costuma ser sancionada em seus inícios. Em um dos seus diários ele escreveu que ao longo da história houve (em sua opinião) três injustiças:

  • A primeira com Copérnico, por duvidarem dele quando dizia que a Terra girava em torno do sol.
  • A segunda com Charles Darwin. Muitos o atacaram por enunciar a sua teoria da evolução.
  • Finalmente, a terceira era ele mesmo, porque depois de demonstrar que “o homem não era nem mesmo o dono da sua própria casa” (devido ao controle do inconsciente sobre a mente consciente), ele recebera o apelido de “feiticeiro” ou bruxo de seus próprios colegas.
Pintura de Sigmund Freud

O legado de Sigmund Freud: suas citações são muito atuais

Neurologistas como David Eagleman e Erik Kandel defendem o legado de Sigmund Freud para a neurociência. As suas declarações agora são mais válidas do que nunca por várias razões.

  • Sabemos que a maior parte da nossa vida mental, incluindo a vida emocional, é inconsciente na maioria das ocasiões.
  • A forma como tomamos decisões e construímos a nossa realidade muitas vezes responde a atos não conscientes.
  • Os nossos instintos, como a fome, a sede ou mesmo a agressividade, também influenciam o comportamento humano sem que tenhamos controle sobre ele.
  • Outro aspecto que Freud nos fez ver é que a doença mental é parte de um ‘contínuo’. Ou seja, somos todos suscetíveis a sofrer de uma condição psicológica em algum momento. A mente pode ir de um estado normal para um extremo mais alterado.

Acalmar a mente sem a necessidade de medicamentos

Quando Sigmund Freud colocava os seus pacientes deitados em um sofá tentando descobrir os seus problemas de infância, estava descobrindo a estrutura da mente. Ele também tinha outro objetivo: acalmá-la e curá-la.

Patrícia Churchland, psicóloga da Universidade da Califórnia e Daniel Dennett, da Universidade de Massachusetts, ressaltam que o legado de Freud para a neurociência é imenso por várias razões. Ele não prescrevia medicamentos, usava a terapia da fala. A psicanálise levava tempo, no qual o terapeuta cavava pouco a pouco os labirintos frondosos da psique humana.

Identificar mecanismos de defesa, impulsos, traumas, necessidades ocultas, falhas e medos limitantes. Tirar todo o limo das profundezas mentais conscientes gerava alívio e liberação. Nem sempre os medicamentos eram necessários.

Para concluir, a ciência do cérebro é, sem dúvida, uma das áreas mais relevantes atualmente. Portanto, devemos aceitar o legado de Sigmund Freud para a neurociência. Foi a primeira faísca que nos permitiu acender o combustível para uma jornada que acaba de começar.

Ele foi um pioneiro neste caminho para entender o que somos. Dessa forma, nos mostrou o enorme potencial que temos à nossa disposição graças a esse órgão sensacional.

  • Talvitie, Vesa (2009) Neurociencia cognitiva e inconsciente freudiana: de las fantasías inconscientes a los algoritmos neuronales. Routledge
  • Kandel, Eric (2012) The Age of Insight. Random House