Todos temos lembranças que despenteiam a alma

Todos temos lembranças que despenteiam a alma

6, setembro 2016 em Psicologia 3753 Compartilhados
Menina pensando em suas lembranças

Há lembranças que, de repente, nos despenteiam a alma e nos convidam para um sorriso cúmplice, assim descarado, mas acima de tudo, terapêutico. Porque em momentos de dificuldades não há nada como virar a chave da nossa memória e deixar-se envolver, pouco a pouco, pelas essências da felicidade do ontem e, então, encontrar forças novamente no presente.

Com frequência dizem que a memória guarda momentos maravilhosos que nenhuma fotografia jamais conseguiria capturar. Porque nenhum suporte eletrônico evoca aromas, um calafrio de prazer na pele, o sabor de um beijo, nem a brisa fresca de um amanhecer.

Depois de momentos maravilhosos ficam lembranças inesquecíveis, essas que nos fazem rir, que nos despenteiam a alma e que nos mostram que tudo o que um dia esteve na mente ainda vive no coração.
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Um aspecto que é preciso considerar sobre as lembranças e a memória é que, longe do que muitos possam crer, elas não estão em um baú. Não é um espaço de capacidade infinita onde jogamos dados, imagens e experiências que correspondem fielmente à realidade para guardá-los à chave. A memória, na verdade, é como uma tela capaz de criar, de trazer novas nuances, de transformar e inclusive de apagar.

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As lembranças e a fechadura da consciência

Para William James, célebre filósofo, psicólogo e irmão além disso de Henry James, memória e consciência são como uma chave e sua fechadura. Vejamos um exemplo: ao ouvir uma música, a memória viaja imediatamente para o passado. Não é preciso máquina do tempo. É uma lembrança involuntária, uma mais dessas todas que acontecem quase sem percebermos ao longo do dia.

Ficamos suspensos durante alguns segundos nessa névoa de lembrança, nesse instante que pode ter um aspecto positivo ou negativo, até que em segunda, a consciência nos chama e nos “arrasta” para trazer-nos novamente à fechadura da realidade. Esta viagem momentânea, pontual e intensa, longe de ser uma desconexão total e sem nenhuma utilidade, fica integrada por sua vez à própria consciência.

As pessoas passam grande parte de suas vidas “lembrando coisas, evocando o seu passado” e o fazemos porque, assim como explica a neurociência, a memória é essa eterna viajante que nos convida a sua vasta ilha para avaliar o passado, poder agir no presente e planejar o nosso futuro. Tudo isso fica instaurado na consciência, nesse “todo” florido, caótico e peculiar que caracteriza de forma única a cada um de nós.

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A necessidade de sermos arquitetos do nosso próprio presente para criar lembranças positivas

“As experiências positivas criam lembranças felizes”. Isto é uma coisa que todos sabemos, é algo óbvio e, além disso, também fica evidente que nem sempre está em nossas mãos propiciar experiências felizes, alegres ou agradáveis. Às vezes a sorte não está a nosso favor, existem as decepções, as mudanças de rumo em nossos caminhos, os episódios traumáticos e inclusive os dias cinza.

Uma questão da qual falamos no inicio e que resgatamos agora se refere ao fato de que a memória nem sempre é um reflexo fiel dos fatos. Uma mesma realidade vivida por duas pessoas pode ser lembrada de forma diferente, porque nós interpretamos o que vemos de uma forma ou de outra, e é aí que residem a magia e o mistério da memória humana. O cérebro não é uma câmera, nem uma máquina de xerox, o cérebro é uma grande intérprete.

Contudo, este fato é uma arma fabulosa que está a nosso favor. Vejamos por quê.

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Memória e emoções

Todos nós podemos ser arquitetos da nossa realidade e fazer uso da memória e das emoções para avançar por nossos caminhos vitais com maior equilíbrio e força. Para isso, considere estas estratégias.

  • A memória seletiva que nos permite curar feridas. Peguemos um exemplo: você acaba de terminar o seu relacionamento com uma pessoa. Uma forma de enfrentar o luto é evitar concentrar suas lembranças nos fatos negativos ou traumáticos. Ao fazer isto, você não avança e se transforma em refém do sofrimento. Trata-se de aceitar, de ser capaz de fechar um ciclo e de permitir que as boas lembranças vividas tenham mais valor do que as negativas. Somente assim você poderá encarar o que aconteceu como uma “vida que valeu a pena ser vivida”.
  • As lembranças da depressão podem ser uma faca de dois gumes. Segundo uma pesquisa interessante publicada na revista “Frontiers in Psychology”, o fato de convidar um paciente com depressão a se lembrar de momentos felizes do seu passado pode ser contraprodutivo. Nestes casos, foi comprovado que o cérebro é incapaz de ativar seus circuitos de recompensa, já que as pessoas depressivas se caracterizam por essa anedonia em que são incapazes de desfrutar de lembranças ou experiências positivas.

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Assim, em momentos de escuridão, em vez de se transportar ao passado de mãos dadas com a fechadura da memória o melhor é “construir o presente”, se conectar com o aqui e agora para considerar que às vezes basta mudar um pensamento para criar uma emoção nova capaz de melhorar a própria realidade. Às vezes, o motor da mudança só precisa dessa faísca de vida: uma emoção positiva e cheia de esperança.

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