Lições de resiliência em tempos de coronavírus

22 Maio, 2020
Neste período de crise e ansiedade, é mais importante do que nunca trabalhar a nossa resiliência. É um exercício de transformação em que partimos da vulnerabilidade para enfrentarmos melhor o presente e o futuro.

É a palavra da moda, nós sabemos, mas ainda assim é necessária e inspiradora. Aplicar lições de resiliência em tempos de coronavírus não é apenas uma sugestão ou uma mensagem a ser transmitida em nossas redes sociais. Estamos diante de um exercício de saúde psicológica que é necessário entender, como alguém que descobre as pistas de um tesouro para torná-lo seu todos os dias de sua vida.

Em primeiro lugar, a resiliência não é uma característica. Não é um mecanismo que o ser humano ativa de maneira automática quando as coisas ficam complicadas. É um processo, um músculo a exercitar, sabendo que haverá dias em que nos falhará, em que o sentiremos fraco e saberemos que dificilmente suportará o peso do mundo.

Para que se cumpra a famosa frase de Nietzsche, “aquilo que não me destrói me fortalece”, não podemos deixar que a adversidade nos jogue no chão ou nos deixe sem recursos indefinidamente. Isso é algo que pode acontecer com todos nós a qualquer momento.

Podemos cair e até desistir por um tempo. No entanto, é nossa obrigação emergir de nossas ruínas e levantar-nos das cinzas, acesos com esperança e coragem.

Reiteramos: é um processo complexo que exige comprometimento. Florescer entre as pedras é o feito mais complicado, mas o mais belo do ser humano.

Flor crescendo na adversidade

Lições de resiliência em tempos de coronavírus

“A boa vida é um processo, não um estado de ser”, disse Carl Rogers, psicoterapeuta e expoente do enfoque humanístico da psicologia.

Com o sofrimento, o medo e as crises acontece a mesma coisa. O sofrimento não é um estado do ser humano, não estamos aqui para sofrer nem é obrigatório ter dificuldades para saber o que é a vida. A dor deve sempre ser algo temporário e encarado como mais um processo da vida.

Mas, para que esse processo seja breve e nos permita nos adaptar muito melhor à complexidade do ambiente, precisamos aprender a ser resilientes. No entanto, o que isso realmente significa?

Na realidade, embora estejamos acostumados a ouvir esse termo, é uma ideia que partiu da física e começou a ser aplicada no campo da psicologia na década de 1940.

Podemos defini-la de maneira simples como a capacidade do ser humano de se recuperar das adversidades sem ficar enfraquecido. Na física e na engenharia, a ideia gira em torno de que “materiais resilientes” podem retornar ao seu estado original depois de terem recebido um impacto. Na psicologia, isso não acontece da mesma maneira.

Após passar por um momento complexo da vida, ninguém volta a ser o mesmo. Não voltamos ao nosso estado original: melhoramos, aprendemos novas habilidades de enfrentamento para navegar melhor pela vida.

Não, você não é 100% resiliente: é um processo no qual você deve trabalhar

Sabemos que é aconselhável fazer uso da resiliência em tempos de coronavírus. No entanto, algo que sabemos da psicologia é que poucas pessoas dispõem de 100% dessas características.

Para se autoavaliar, considere a Escala de Resiliência Connor-Davidson (CD-RISC-25). Os itens são os seguintes:

  • Consigo me adaptar a mudanças facilmente.
  • Costumo lidar efetivamente com qualquer complicação ou imprevisto.
  • Tento ver o lado positivo das coisas quando enfrento problemas.
  • Sei lidar com o estresse. 
  • Costumo me recuperar muito bem depois de uma doença, lesão ou outra dificuldade.
  • Sou hábil em alcançar meus objetivos.
  • Quando estou sob pressão, penso e ajo com clareza e determinação.
  • O fracasso não me desanima.
  • Me considero uma pessoa forte quando enfrento os desafios e as dificuldades da vida.
  • Tenho habilidade para lidar com emoções como a tristeza, o medo e a raiva.

Uma das maiores lições de resiliência: da sua vulnerabilidade pode emergir a sua força

Pesquisadores realizaram um estudo detalhado na Universidade de Columbia para descobrir qual foi o impacto psicológico do 11 de setembro nos sobreviventes.

Algo que pôde ser comprovado é que o índice de estresse pós-traumático não era tão elevado quanto se acreditava inicialmente. Boa parte das vítimas demonstraram uma notável resiliência.

65% dos participantes demonstraram um notável processo de recuperação no qual várias estratégias foram aplicadas. A primeira: assumir a sua vulnerabilidade. Entender que todos nós podemos sofrer na própria pele o impacto da adversidade e que temos todo o direito de sofrer, de nos sentir vulneráveis, magoados…

Os pesquisadores também entenderam que em cada um de nós existe um impulso, uma força interna que nos convida a um processo de recuperação, onde aprendemos com o que vivemos e olhamos o presente de uma maneira mais forte, segura e até esperançosa.

Mulher segurando vela acesa

Aceitar e se preparar para a mudança

Nassim Taleb, ensaísta e autor de livros tão interessantes quanto O Cisne Negro, escreveu há pouco tempo que há uma ideia da resiliência que devemos entender. Embora a palavra “resistir” tenha se tornado popular, ele prefere removê-la desta equação.

Resistir implica reunir forças para suportar algo que nos afeta e nos oprime. Segundo ele, não é momento de desperdiçar energia realizando esforços; é momento de aceitação e de algo mais. Devemos nos preparar para a mudança, e isso significa usar outro tipo de energia. 

As lições de resiliência em tempos de coronavírus implicam a necessidade de mudanças e transformações. Quem insiste em resistir permanece no mesmo lugar, e é necessário avançar; primeiro sobrevivendo, cuidando da vida, garantindo o bem-estar. Mas o futuro traz mudanças e apenas o coração e a mente resilientes conseguirão se adaptar e tirar proveito deste novo capítulo existencial. Vamos refletir sobre isso.

  • Bonanno, G. A., Galea, S., Bucciarelli, A., & Vlahov, D. (2006). Psychological resilience after disaster: New York City in the aftermath of the September 11th terrorist attack. Psychological Science17(3), 181–186. https://doi.org/10.1111/j.1467-9280.2006.01682.x