Linguagem egocêntrica: você sabe do que se trata?

O que é linguagem egocêntrica?

março 31, 2018 em Psicologia 80 Compartilhados
O que é a linguagem egocêntrica?

Todos nós já surpreendemos alguém falando sozinho, e nós mesmos já fizemos isso inúmeras vezes. Além disso, se há grandes especialistas nessa prática, são as crianças. Por isso, muitas crianças com menos de 6 anos de idade parecem ter uma linguagem egocêntrica e espontânea que as ajuda a crescer.

Essa linguagem egocêntrica é um fenômeno muito atraente para a psicologia do desenvolvimento. Embora a linguagem tenha um forte caráter social, parece esconder outra coisa. Seu uso espontâneo e insensível à presença de um interlocutor pode ser um indicador de que ela cumpre mais funções além da comunicação social.

Neste artigo, exploraremos duas teorias diferentes que tentam explicar a aparição e as funções da linguagem egocêntrica. Essas teorias vêm das mãos de dois dos psicólogos mais relevantes no estudo da psicologia do desenvolvimento. Eles são Jean PiagetLev Vygotsky, que apresentam duas explicações muito diferentes para este fenômeno.

A teoria da linguagem egocêntrica de Piaget

Para entender a perspectiva da linguagem egocêntrica de Piaget, é necessário enquadrá-la em sua teoria do desenvolvimento, que se baseia no desenvolvimento da inteligência lógica. Assim, a capacidade da criança de se relacionar com os outros será condicionada por esse tipo de desenvolvimento. Especificamente, segundo Piaget, a criança mostrará um déficit em suas interações sociais até desenvolver a chamada “teoria da mente“.

Para Piaget, a linguagem egocêntrica seria um fenômeno centrado no próprio emissor, sem atender à perspectiva do outro. Isso ocorreria devido ao fato de que a criança ainda não tem capacidade de interação social. Além disso, também observamos esse tipo de comportamento egocêntrico em outros planos, como no pensamento e na percepção.

Criança falando

Agora, por que a linguagem aparece sem ter uma utilidade comunicativa? Piaget diz que a linguagem egocêntrica aparece como uma expressão da função simbólica que a criança acabou de adquirir. Por volta dos 3 anos, a criança começa a adquirir a capacidade de representar seu mundo através da linguagem, mas ainda não entendeu completamente a função social da mesma. Por essa razão, vemos um uso da linguagem baseada em si mesmo, uma vez que estaria cumprindo uma função simbólica, e não comunicativa.

Progressivamente, por volta dos 6-7 anos, a criança vai adquirir a teoria da mente. Isso a levará a entender a interação social e a importância da linguagem como instrumento de comunicação. Na maioria dos casos, seriam estímulos suficientes para a criança abandonar o pensamento egocêntrico e a linguagem egocêntrica, dando origem ao pensamento lógico e desenvolvendo os aspectos comunicativos da linguagem.

A teoria da linguagem egocêntrica de Vygotsky

Vygotsky nos apresenta uma explicação totalmente diferente para a linguagem egocêntrica. Ele alega que os fatores socioculturais nos influenciam desde a mais tenra infância. Assim, ele rejeita a premissa de Piaget de que a criança com menos de 6 anos não está interessada em interação social. As tentativas de comunicação dos bebês nos mostrariam esse interesse na vida social.

Para Vygotsky, a linguagem nasce com uma função social e comunicativa. A criança fala para se comunicar com os outros e, por sua vez, desenvolve a função simbólica no contexto social. Agora, através do uso da linguagem, a criança começa a descobrir outra função muito importante da mesma. Trata-se da habilidade da linguagem de regular o comportamento: a linguagem nos ajuda a estruturar nossos pensamentos e ações.

Pai conversando com seu filho

A linguagem egocêntrica, de acordo com Vygotsky, seria nada mais do que um uso da linguagem que procuraria melhorar a autorregulação. Por este motivo, apareceria sem a necessidade de um interlocutor. Mas então, por que a linguagem egocêntrica desaparece aos 6 anos? É aí que aparece um processo-chave na teoria de Vygotsky, a internalização.

Aos 6 anos, a criança já seria capaz de internalizar essa linguagem egocêntrica e torná-la parte de seu pensamento. Assim, a função autorreguladora se tornaria parte de nosso discurso interno. Esta teoria explica a gênese da linguagem como o suporte central do nosso pensamento.

Falamos de duas tentativas muito sérias de explicar as razões e o contexto em que a linguagem egocêntrica se desenvolve. As diferentes hipóteses, enquadradas em planos tão distintos, têm pontos fortes e fracos e, dependendo da perspectiva a partir da qual a linguagem é investigada, os dados serão muito diferentes. Isso nos mostra que a linguagem é um processo complexo com muitas nuances e dimensões que exige uma investigação completa para que possamos encontrar algumas respostas para as questões que ela levanta.

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