Lunar, um filme de aventura e ficção científica

julho 1, 2020
'Lunar' é um filme que se baseia na ficção científica do passado, com um ritmo lento para levantar questões transcendentais. Longe do ponto de vista progressivo da corrida espacial, ele vê na Lua o último recurso para a sobrevivência da nossa espécie.

Até 2009, Duncan Jones era um completo desconhecido para muitos e, para outros, era simplesmente o filho do inesquecível David Bowie. No entanto, naquele ano, ele se mostrou ao mundo com um filme incrível: Lunar.

Longe de seguir os passos de seu pai, Jones decidiu se dedicar a outro aspecto artístico: a direção cinematográfica. Formado em Filosofia e com um doutorado em mãos, decidiu concluir a sua formação na área do cinema. Em 2009, lançou o seu primeiro longa-metragem.

Muitos pensaram que, devido à sua origem, ele teria inúmeros contatos e poderia se dar ao luxo de dar um salto ao cinema em grande estilo. Embora ele pudesse ter adotado o sobrenome artístico de seu pai e tentado obter um grande financiamento, ele decidiu ser simplesmente Duncan Jones e contar com um orçamento bastante limitado.

Ainda assim, Lunar superou as expectativas e foi um incrível sucesso. Conquistou o Festival de Cinema de Sitges e ganhou vários prêmios, como o de Melhor Filme Independente de 2009.

Lunar: ficção científica

Parece que apenas os grandes produtores de Hollywood são capazes de fazer ficção científica; que o único caminho para o gênero são os efeitos especiais espetaculares e os altos orçamentos aos quais as grandes produções nos acostumaram.

Lunar se afasta de tudo isso para nos apresentar um trabalho de ficção científica íntima, que reflete sobre questões metafísicas e inerentes ao ser humano . Com apenas um ator e recursos limitados, temos um filme lento, simples e introspectivo, mas cheio de elegância e com abordagens interessantes.

A premissa é simples e não exagerada: um futuro que pode estar mais próximo do que pensamos. Em um planeta onde os recursos foram esgotados, é necessário procurar novas fontes que, neste caso, serão encontradas na Lua.

O satélite natural foi transformado em uma operação de mineração e a empresa Lunar Industries Ltda enviará um de seus astronautas, Sam Bell, para uma missão que durará 3 anos.

Bell é o responsável por controlar as escavadeiras que extraem o material necessário para gerar energia na Terra. Além da sua solidão, há a incapacidade de entrar em contato com o seu planeta natal em tempo real devido a uma falha no satélite de comunicação.

A empresa também tem preocupações mais importantes do que resolver o problema de comunicação. Bell consegue entrar em contato com a sua família somente através de mensagens gravadas. A sua única companhia inteligente é o robô GERTY que, inevitavelmente, lembra HAL 9000 de 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Influências

O filme de Kubrick está muito presente no filme de Jones; há muitas alusões e até cenas calcadas no longa-metragem que redescobriu a ficção científica. Não é apenas o filme de Kubrick que marca presença em Lunar: títulos como Alien (Scott, 1979) e Solaris (Tarkovski, 1972) também deixaram a sua marca.

Da mesma forma, o filme antecipa títulos mais recentes, como Interstelar (Nolan, 2014), Ad Astra-Rumo às Estrelas (Gray, 2019) e até High Life (Denis, 2018). De alguma maneira, tudo isso nos leva a pensar em como a ficção científica evoluiu ao longo do tempo e, mais especificamente, em relação ao espaço.

A evolução de um gênero

Desde os primórdios da humanidade, o ser humano olha espantado para o céu, observa os astros e as estrelas com diferentes propósitos. Um dos grandes pioneiros do gênero de ficção científica foi o filme A Mulher na Lua (Fritz Lang, 1929).

O filme é dividido em duas partes distintas: uma primeira parte que apresenta a ideia da viagem à Lua e a segunda parte que corresponde à própria viagem. Naquela época, o homem ainda sonhava com as estrelas, com a conquista do espaço; um cenário que era visto como um sinal de progresso, evolução e aplausos.

Os anos se passaram e chegamos a 1968, quando o cineasta Stanley Kubrick mudou, quase simultaneamente com a própria história da humanidade, o curso da ficção científica espacial. Com 2001: Uma Odisseia no Espaço, aperfeiçoou os agora simples modelos de Lang e utilizou efeitos visuais excepcionais.

Kubrick parece antecipar tudo: ele lança o seu filme um ano antes do pouso na Lua, no meio da corrida espacial; entende que talvez as máquinas possam se tornar uma ameaça para o homem, mas acaba dando lugar à esperança, à evolução.

Com A Mulher na Lua, vimos os nossos sonhos se tornarem realidade; com Kubrick, assistimos ao que poderia acontecer com a corrida espacial que estava ocorrendo naquele exato momento.

Reflexões sobre o momento atual

Vale a pena se perguntar: o que está acontecendo atualmente? Continuaremos sonhando com os benefícios do espaço agora que a corrida espacial resultou em um absoluto fracasso?

Nesse sentido, Lunar nos mostra um aspecto muito mais amargo. O nosso mundo foi tão massacrado pelo homem que, em um futuro não muito distante, seremos forçados a retornar ao espaço, mas desta vez, na esperança de melhorar a nossa vida na Terra.

Na era das mudanças climáticas, o mundo se tornará inóspito e o espaço é o último recurso. Da mesma forma, a ideia de solidão que já foi intuída em seus predecessores se torna mais explícita aqui.

Agora, o objeto de estudo não é outro senão o homem, o homem que é vítima de seu tempo, das mentiras e dos grandes negócios. A ficção científica serve como desculpa para refletirmos sobre o momento presente. Não há mais devaneios, não há mais esperança ou ilusão, apenas desolação.

Lunar, um filme de aventura e ficção científica

O contexto da ficção científica

Em Lunar, a ficção científica é um contexto que desperta reflexões sobre si mesmo, reflexões introspectivas, mas também para a desumanização do mundo, realizada pelas grandes empresas nas quais pouco ou nada importam os interesses individuais.

A estética é absolutamente cuidada, apesar de seu baixo orçamento. O trabalho interpretativo é levado ao limite por um excepcional Sam Rockwell, que deve lidar com uma versão mais antiga de si mesmo.

Esse ponto é interessante, porque Jones coloca diante de nossos olhos dois homens que afirmam ser a mesma pessoa, mas que se encontram em momentos diferentes de suas vidas. Assim, surge o conflito. A essência do eu é inalterável, imperturbável? Ou muda com o tempo e as circunstâncias?

Lunar nos coloca nessa situação: um antigo “eu” enfrenta um “eu” mais jovem com quem ele terá diferenças em muitas questões. E o fato é que, certamente, se algum de nós enfrentasse um “eu” do passado, nos encontraríamos diante de um cenário complexo e cheio de discussões.

Eles são duas pessoas diferentes? É a mesma pessoa em circunstâncias diferentes? Estas são algumas das perguntas que o espectador fará.

Lunar: uma visão trágica

Jones não queria esconder que essa dicotomia do “eu” surgiria em seu filme. No entanto, talvez seja mais interessante assistir ao filme na mais completa ignorância.

Lunar é previsível desde os seus primeiros minutos, mas mesmo assim, não deixa de surpreender, enganar e divertir. Com um ritmo lento que contrasta com as grandes produções da ficção científica contemporânea, Lunar desenha um cenário que não é estranho, que possui reminiscências da realidade e é sustentado por um ambiente claustrofóbico e cuidado.

Sem muita ação, levanta questões transcendentais sobre o ser humano, demonstrando que a ficção científica ainda possui aquele componente crítico que tanto associamos à distopia. Desmascarando práticas comerciais abusivas, ele questiona ideias como liberdade, desumanização e progresso.

Lunar é um filme que bebe das influências e as plasma de uma maneira elegante, mas pessoal; tem suas raízes na ficção científica do passado para levantar questões muito atuais.

Sem dúvida, uma visão que está longe do positivismo das décadas anteriores à corrida espacial, uma visão mais trágica em que o espaço é apenas a última fonte de recursos.