O abc dos instintos humanos

· junho 12, 2019
Se os instintos humanos fossem iguais aos dos animais, não haveria como explicar por que algumas pessoas cometem suicídio ou param de comer, agindo contra o instinto de sobrevivência. Não há acordo total sobre o assunto.

Fala-se muito sobre os instintos humanos, mas às vezes não sabemos exatamente o que queremos dizer com isso. É um termo emprestado da biologia que nos lembra que somos um ramo evolutivo dos mamíferos.

Sabemos que muito desse animal continua atuando em nós. No entanto, existem também algumas peculiaridades que nos afastam desse mundo biológico.

Muitas vezes ouvimos falar dos instintos humanos de sobrevivência e, apesar disso, sabemos que o suicídio é uma realidade cotidiana no mundo de hoje. Os instintos sexuais também são mencionados e, ao mesmo tempo, somos informados de dados sobre impotência ou outras disfunções.

“Quando estamos à beira de um abismo e a noite está escura, o cavaleiro sábio solta as rédeas e se rende ao instinto do cavalo”.
– Armando Palacio Valdés –

Como vemos, o tema dos instintos humanos não está simplesmente no plano biológico. Dessa forma, há uma série de vetores culturais e simbólicos que influenciam tudo isso. De fato, há também correntes de pensamento que não falam de instintos, mas de impulsos. Vejamos em mais detalhes.

Homem olhando mar revolto

A teoria biológica e os instintos humanos

Do ponto de vista biológico, os instintos são padrões de comportamento que têm como característica serem hereditários e comuns a toda a espécie.

A razão de ser desses instintos é a adaptação, e eles estão programados no cérebro. Eles nos protegem e preservam, e correspondem a reações automáticas ou imediatas.

A teoria biológica aponta que temos alguns instintos básicos que são:

  • Instinto de sobrevivência: corresponde a todos os comportamentos básicos que nos permitem preservar a vida e a saúde. Entre eles estão: evitar o perigo, se alimentar, buscar abrigo, etc.
  • Instinto de reprodução: tem a ver com a preservação da espécie e se refere basicamente à sexualidade reprodutiva.
  • Instinto religioso: embora não haja consenso total sobre este ponto, a maioria dos psicólogos positivistas aponta que o ser humano tem uma necessidade inata de sentido. Está associado à mesma área do cérebro que é ativada em episódios de epilepsia.

Estes seriam os instintos humanos básicos. No entanto, essa abordagem não explica por quê, por exemplo, uma pessoa deixa de comer porque se sente muito obesa, sem estar. Isso iria contra o automatismo que os instintos supõem.

A teoria das pulsões

Sigmund Freud afirmou que, no ser humano, não há instintos, mas forças específicas da espécie que ele chamou de pulsões. Essas pulsões são impulsos psíquicos, compostos de um estado de excitação e tensão física.

A pulsão procura descarregar ou suprimir esse estado de tensão. Para isso, procura um objeto que lhe permita se desfazer dela. Por exemplo, a fome corresponde ao impulso e o alimento ao objeto que permite liberar essa tensão.

Voltemos à questão: por que algumas pessoas, por exemplo, não comem? Freud propõe que nem todos os impulsos do ser humano são benignos.

Para Freud, existem dois impulsos básicos: Eros e Thanatos. O impulso de Eros inclui todos os impulsos relacionados à autopreservação e à sexualidade. Thanatos corresponde à pulsão de morte e inclui os impulsos violentos, caóticos, desintegradores e o desejo de retornar ao estado inanimado.

As pulsões não procuram satisfazer as necessidades imediatas, mas sim a representação mental das mesmas.

A mente humana

Outras teorias

Há outras teorias sobre os instintos humanos que visam estabelecer um ponto médio entre a teoria biológica e a teoria das pulsões. Basicamente, elas categorizam os impulsos de uma maneira diferente, levando em conta aspectos de ambas as teorias.

De acordo com essas abordagens, os instintos humanos são divididos em:

  • Instintos vitais: compreendem o instinto sexual, de luta e fuga, e equivalem, em geral, ao instinto de sobrevivência.
  • Instintos de prazer: o seu objetivo é proporcionar o mais alto grau de bem-estar e é um refinamento dos instintos de sobrevivência humanos. Por exemplo, você não bebe água apenas para sobreviver, mas lhe acrescenta sabores.
  • Instintos sociais: abrangem as necessidades de companhia, poder, prestígio e propriedade.
  • Instintos culturais: incluem o desejo de conhecer, pesquisar, inclinações artísticas, etc.

Popularmente, outros instintos humanos também são mencionados, como o instinto materno, pelo qual as mulheres supostamente sempre amam crianças. Falamos também do instinto de repulsa ou rejeição do que nos enoja.

Qual dessas teorias sobre os instintos humanos é a mais correta? Não há um acordo definitivo a esse respeito.

  • Marcuse, H., & Vásquez, G. H. (1980). La rebelión de los instintos vitales. Ideas y Valores, 29(57-58), 69-74.